No cerne do ciclone: a crise da dívida na União Europeia (2/7)

A feira de saldos dos títulos gregos

27 de Setembro de 2011 por Eric Toussaint


Segunda parte: A feira de saldos dos títulos gregos

CADTM: Dizes [1] que desde a crise de maio de 2010, a Grécia deixou de pedir empréstimos a prazo a 10 anos. Mas então, o que significa o facto de os mercados exigirem um rendimento de cerca de 15% ou superior para os títulos da Grécia a 10 anos [2]?

Eric Toussaint: Isso influencia o preço de venda dos antigos títulos da dívida grega que são trocados no mercado secundário ou no mercado de rua.
A isto é preciso acrescentar outra consequência, ainda mais importante – a Grécia tem duas opções:
a) Resignar-se a continuar a recorrer à Troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. (FMI, Banco Central Banco central Estabelecimento que, num Estado, tem a seu cargo em geral a emissão de papel-moeda e o controlo do volume de dinheiro e de crédito. Em Portugal, como em vários outros países da zona euro, é o banco central que assume esse papel, sob controlo do Banco Central Europeu (BCE). Europeu, Comissão Europeia), a fim de obter financiamentos a longo prazo (10-15-30 anos), submetendo-se ao jugo desta;
b) Recusar as imposições dos mercados e da Troika, suspendendo o pagamento e iniciando uma auditoria a fim de repudiar a parte ilegítima da dívida.

CADTM: Antes de abordarmos a escolha entre essas duas opções, vamos esclarecer algumas questões: o que é o mercado secundário?

Eric Toussaint: Tal como acontece com os carros usados, existe um mercado de segunda mão para as dívidas.
Os especuladores e os fundos especulativos (hedge funds) compram e vendem títulos ao portador no mercado secundário ou no mercado de rua. Os especuladores são de longe os principais actores.
A última vez que a Grécia emitiu títulos a prazo de 10 anos foi a 11 de março de 2010, antes do início dos ataques especulativos e da intervenção da Troika. Em março de 2010, para obter 5000 milhões de euros, a Grécia comprometeu-se a pagar um juro Juro Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada. de 6,25% por ano até 2020. Nesse ano, deverá reembolsar o capital emprestado. Desde então, como já vimos, a Grécia não contrai empréstimos a prazo de 10 anos nos mercados, porque as taxas de juro dispararam. Quando nos dizem que as taxas de juro a 10 anos subiram para 14,86% (foi o que aconteceu a 8 de agosto de 2011, quando a taxa grega a 10 anos regressou abaixo dos 15% após a intervenção do BCE Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma insitituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
, após ter atingido 18%), temos uma indicação sobre o preço a que são trocados os títulos a 10 anos no mercado secundário.
Os especuladores que compraram títulos em março de 2010 tentaram livrar-se deles no mercado secundário, uma vez que esses títulos se tornaram de alto risco na possibilidade de a Grécia ficar incapaz de reembolsar o valor dos títulos no prazo previsto.

CADTM: Concretamente, no caso dos títulos a 10 anos emitidos pela Grécia, como é que se fixa o preço de mercado corrente?

Eric Toussaint: O quadro seguinte permite compreender o que significa na prática o anúncio de que a taxa de juro grega a 10 anos atingiu os 14,86%. Vejamos um exemplo concreto: admitamos que um banco comprou títulos gregos em março de 2010 no valor de 500 milhões de euros. Imaginemos que cada título vale 1000 euros. O banco receberá portanto uma remuneração anual de 62,5€ (ou seja 6,25% de 1000€) por cada título de 1000€. Diz-se no jargão do mercado dos títulos da dívida que um título dá direito a um cupão de 62,5€. Estamos em 2011, e actualmente os títulos a prazo de 10 anos emitidos pela Grécia em março de 2010 são considerados de alto risco, pois não é nada certo que a Grécia consiga reembolsar o capital emprestado em 2020. Logo, os bancos que têm muitos títulos gregos, como o BNP Paribas (que em julho de 2011 detinha ainda um valor equivalente a 5000 milhões de euros), Dexia (3500 milhões), Commerzbank (3000 milhões), Generali (3000 milhões), Société Générale (2700 milhões), Royal Bank of Scotland, Allianz ou os bancos gregos revendem os títulos que possuem no mercado secundário, porque têm demasiados activos duvidosos, especulativos (junk bonds) ou simplesmente tóxicos nos seus balanços. Para tentar simultaneamente acalmar os seus accionistas (para que estes não vendam na bolsa as suas acções), os clientes que depositaram as suas poupanças (para que estes não as retirem) e as autoridades europeias, têm de se desfazer do máximo possível de títulos gregos que foram adquiridos até março de 2010. A que preço podem encontrar compradores? É aí que a taxa de 14,86% entra em jogo. Os fundos especulativos e outros fundos usurários dispostos a comprar títulos gregos emitidos em março de 2010 querem um rendimento de 14,86%. Se comprarem títulos que rendem 62,5€, é necessário que este montante corresponda a 14,86% do preço de compra, ou seja 420,50€. Em resumo, estão dispostos a comprar títulos gregos se os seus detentores se contentarem com este preço.

Valor nominal do título a 10 anos emitido pela Grécia em 11-03-2010 Taxa de juro em 11-03-2010 Valor do cupão pago todos os anos ao detentor dum título de 1000€ Preço do título no mercado secundário em 8-08-2011 Remuneração efectiva à data de 8-08-2011 (Yield) se o comprador comprou um título de 1000€ por 420,50€
Exemplo 1000,00€ 6,25% 62,5€ 420,50€ 14,86%

Em resumo: o comprador não dá mais de 420,50€ por um título de 1000€, para conseguir obter um juro real de 14,86%. Os banqueiros acima citados não estão dispostos a vender a esse preço.

CADTM: Disseste que os especuladores revendem os títulos gregos. Tens ideia dos montantes de que se desfizeram?

Eric Toussaint: Na tentativa de reduzir os riscos tomados, os bancos franceses diminuíram em 2010 a sua exposição na Grécia, que caiu em 44%, passando de 27 000 milhões para 14 000 milhões de dólares. Os bancos alemães efectuaram um movimento semelhante: a sua exposição directa baixou em 37,5% entre maio de 2010 e fevereiro de 2011, passando de 16 000 para 10 000 milhões de euros. Em 2011 este movimento de retirada aumentou ainda mais.

CADTM: Que faz o Banco Central Europeu nesse respeito?

Eric Toussaint: O BCE serve inteiramente os interesses dos banqueiros.

CADTM: Como?

Eric Toussaint: Comprando títulos gregos no mercado secundário. O BCE compra aos bancos privados que querem desfazer-se dos títulos da dívida grega com uma margem que chega aos 20%. Paga cerca de 800€ para adquirir um título que valia 1000€ no momento da emissão. Ora, como mostra o quadro precedente, esses títulos valem muito menos que isso no mercado secundário ou no mercado de rua. Não é difícil perceber porque é que os bancos apreciam tanto que o BCE lhes ofereça 800€ em vez do preço de mercado. Aí está mais um exemplo do fosso enorme que separa as práticas dos banqueiros privados, bem como dos dirigentes europeus, do seu discurso sobre a necessidade de deixar operar livremente as forças do mercado para fixar os preços.



Traduzido por Rui Viana Pereira, revisto por Noémie Josse-Dos Santos.

Notas

[1Este artigo está incluído numa série de sete artigos. Ver a primeira parte http://www.cadtm.org/A-Grecia-no-centro-da-tormenta

[2A 25 de agosto de 2011, a taxa grega a 10 anos atingiu os 18,55%, na véspera chegava a 17,9%. A taxa a 2 anos chegou aos 45,9% !!! Ver http://www.lemonde.fr/europe/article/2011/08/25/les-taux-des-obligations-grecques-a-dix-ans-atteignent-un-nouveau-record_1563605_3214.html (consultado em 26-08-2011).

Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015. Após a sua dissolução, anunciada a 12/11/2015 pelo novo presidente do Parlamento grego, a ex-Comissão prosseguiu o trabalho sob o estatuto legal de associação sem fins lucrativos.

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