Carta aberta ao presidente do Parlamento grego a propósito da dissolução da Comissão para a Verdade sobre a Dívida grega

26 de Novembro de 2015 por Sofia Sakorafa

Sofia Sakorafa, Zoe Konstantopoulou, Eric Toussaint na conferência de imprensa onde foi anunciada a criação da Comissão para a Verdade sobre a Dívida (Parlamento grego, 17 março 2015)

Publicamos aqui a carta aberta da deputada europeia Sofia Sakorafa, dirigida ao novo presidente do Parlamento grego, Nikos Voutsis, que anunciou o término dos trabalhos da Comissão para a Verdade sobre a Dívida Grega. Desde 2011, quando foi eleita deputada, Sofia Sakorafa participou na comissão de auditoria cidadã da dívida grega. Em março de 2015 aceitou fazer parte da comissão de auditoria criada pela presidente do Parlamento grego e ficou encarregue das relações com o Parlamento europeu e os outros parlamentos. Após a capitulação do governo de Alexis Tsipras, Sofia Sakorafa abandonou o Syriza e mantém-se como eurodeputada independente desde setembro de 2015.

Senhor Presidente,

Por carta assinada pelo seu punho em 12 de novembro, recebida a 17 de novembro de 2015, o Sr. anunciou-me a dissolução da Comissão para a Verdade sobre a Dívida pública Dívida pública Conjunto dos empréstimos contraídos pelo Estado, autarquias e empresas públicas e organizações de segurança social. grega.

Na sua sua carta não ousa sequer mencionar o nome da Comissão. É compreensível. Quando se procura fazer com que o povo grego «esqueça» a questão da legitimidade da dívida e se pretende fazer-lhe crer que o terceiro memorando, o mais duro, é a única solução viável, é verdade que a verdade pode causar medo, ainda que se trate apenas de usar a singela palavra «verdade».

Senhor Presidente,

É inconcebível que o presidente do Parlamento helénico, que ainda por cima foi de esquerda, suprima a Comissão para a Verdade sobre a Dívida pública.

É ofensivo que o Parlamento volte a ser um lugar de branqueamento dos escândalos, das irregularidades, das escolhas políticas bárbaras, dos acordos de submissão, dos contratos leoninos, e que tudo isto seja aceite e ratificado pelo Presidente da Assembleia.

Senhor Presidente, penso que nada mais há a acrescentar. O Senhor nada fez senão executar ordens. Aliás foi por isso que o escolheram para Presidente da Assembleia neste período crucial.

A responsabilidade política desta decisão pertence inteiramente ao primeiro-ministro, Alexis Tsipras.

O sr. Tsipras, que, juntamente com o Presidente da República, assistiu à abertura dos trabalhos da Comissão, em abril de 2015.

O sr. Tsipras, que me assegurou pessoalmente e com firmeza que a Comissão funcionaria sem entraves até à conclusão do seu trabalho.

Sobre o sr. Tsipras recai a inteira responsabilidade política da recusa de fazer luz sobre as políticas impostas com a ajuda da corrupção e de contratos leoninos que nos levaram a um impasse.

Sobre o sr. Tsipras recai a inteira responsabilidade política da renúncia a um instrumento de renegociação da dívida que no entanto é aceite, aprovado e legitimado por um regulamento da União Europeia.

É certo que a sua decisão de suprimir a Comissão para a Verdade sobre a Dívida nada afecta a determinação e a diligência de todos nós que continuamos a lutar e continuamos convencidos de que a verdade será o catalisador de mudanças políticas profundas.

Sofia Sakorafa

Tradução de Rui Viana Pereira


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