Casamento forçado entre a Argentina e o FMI torna-se um fiasco

29 de Outubro por Jérôme Duval


Macri voa para os EUA, negoceia com o FMI e recebe um prémio de recompensa à sua liderança, enquanto decorre a quarta greve geral do seu mandato. Regresso de uma semana histórica à Argentina na tormenta.

Enquanto que o descontentamento do povo argentino cresce dia a dia, o presidente Mauricio Macri voa para os Estados Unidos. Em Nova York, ele prossegue as negociações com o FMI para rever o acordo já caduco apesar de ter sido assinado em junho, intervém na Assembleia da ONU e recebe um prémio que recompensa a sua liderança. Durante este tempo, a quarta grande greve geral do seu mandato, depois da de 25 de junho último contra o acordo do FMI, paralisa o país. Regresso de uma semana histórica à Argentina na tormenta.


Macri mentiroso e “pobreza zero”

A 20 de setembro, no seu discurso na 71ª Assembleia Geral das Nações Unidas, Macri reitera o objetivo de avançar para a “pobreza zero” [1], objetivo no entanto em total contradição com a sua própria política e com as injunções do FMI num país exportador de alimentos marcado de novo pela fome, um país onde 11 milhões de pessoas são consideradas pobres, segundo o Instituto nacional de estatística INDEC [2]. Há escolhas políticas que marcam, como a compra em agosto passado, em plena crise financeira argentina, de cinco caças Super-Étendard à Dassault Aviation por 12 milhões de euros [3]. Sem medo das contradições, Macri, no seu discurso, afirma que “a Argentina faz da autonomização das mulheres uma política de Estado” [4]. Quase esquece o voto do Senado no início de agosto contra a legalização do aborto, que deixa as mulheres incorrerem em entre um a quatro anos de prisão se o aborto for considerado ilegal, isto é para qualquer aborto que não seja em caso de violação ou de risco para a vida ou para a saúde da mulher. Note-se que na América Latina só dois países, Cuba e Uruguai, autorizam a interrupção voluntária da gravidez sem condições, aos quais se deve juntar o Estado do México.


O preço da vergonha

Depois do atual primeiro-ministro do Canadá Justin Trudeau no ano passado, de Matteo Renzi em 2016, do multimilionário presidente ucraniano Petro Porochenko ou do presidente colombiano Juan Manuel Santos, foi a vez do presidente Mauricio Macri receber o “Global Citizen Award” [5]. Alguns meses antes, concedido pelo mesmo laboratório de ideias norte-americano, The Atlantic Council, George W. Bush teve a honra de receber o Distinguished International Leadership Award, ao mesmo tempo que o presidente executivo da Starbucks, Howard Schultz [6].

Um artigo do New York Times, publicado em setembro de 2014, anunciava que a organização do Conselho do Atlântico (The Atlantic Council) tinha recebido donativos de mais de vinte e cinco governos, além do dos Estados Unidos, desde 2008 [7]. De acordo com o seu último relatório anual, este think tank recebe múltiplos donativos, os mais importantes dos quais são os do Departamento de Estado dos Estados Unidos (United States Department of State), dos Ministérios da Defesa da Lituânia ou da Noruega, de diversas empresas como o banco HSBC, das empresas de armamento Lockheed Martin e Thales, das companhias petrolíferas Chevron, BP, Abu Dhabi National Oil Company, Tüpras [8] e Exxon Mobil, do célebre escritório internacional de advogados de negócios Baker McKenzie, do fundo de investimento Blackstone, da Airbus, da Ford ou da Google [9].

A 24 de setembro de 2018, no célebre restaurante Cipriani no nº. 55 da Wall Street, diante de auditório de mais de 400 dirigentes mundiais escolhidos a dedo para assistir à nona edição altamente seletiva do Conselho do Atlântico em Nova York, Macri recebe o prémio Global Citizen Awards.

A ex-banqueira, filantropa e vice-presidente do Conselho do Atlântico, Adrienne Arsht [10] anima-se: “Comecemos por uma confissão: eu gosto do presidente Macri. Esta noite, honraremos o presidente Macri pela sua liderança...” O presidente argentino transformado em estrela do momento, sobe à tribuna e proclama, sorrindo...: “Devo confessar que com Christine, começámos, já há alguns meses, uma grande relação, que eu espero que funcione muito bem e que leve todo o país a se apaixonar por ela.” [11] Os risos da grande burguesia irromperam na sala, alguns olhares viraram-se para a mesa onde Christine Lagarde, também já nomeada em 2011 [12], partilha o jantar com o presidente argentino, a sua esposa Juliana Awada e o presidente do Banco interamericano de desenvolvimento (BID) Luis Alberto Moreno, entre outras personalidades. Eufórico, Macri dará mesmo alguns passos de dança com Adrienne Arsht no momento da foto de família, sob o olhar divertido de Klaus Schwab, o fundador do Fórum económico de Davos.

Esta declaração de amor no seio da aristocracia planetária poderia fazer sonhar muitas pessoas se não fosse irrealista, incapaz de apagar uma relação conflitual entre a instituição de Washington e a Argentina. Como se fosse para ilustrar esta incompatibilidade, no mesmo momento, a Argentina está de novo paralisada por uma greve geral, a quarta no mandato de Mauricio Macri. Praticamente, nenhum metro, autocarro ou táxi circula na capital e nas grandes cidades do país, todos os voos de partida e chegada da Argentina foram anulados, a administração pública, os bancos e numerosas lojas fecharam em sinal de protesto contra o FMI. Foi uma mobilização histórica neste país de 41 milhões de habitantes, realizaram-se numerosas manifestações e uma greve geral de dois dias, 24 e 25 de setembro, muito participada. “Não ao FMI”, “Não ao ajustamento”, pode ler-se nas faixas que encabeçam as manifestações.


O Banco Central Banco central Estabelecimento que, num Estado, tem a seu cargo em geral a emissão de papel-moeda e o controlo do volume de dinheiro e de crédito. Em Portugal, como em vários outros países da zona euro, é o banco central que assume esse papel, sob controlo do Banco Central Europeu (BCE). ao seriço do FMI

A 25 de setembro, depois de apenas três meses no cargo, o antigo funcionário do J. P. Morgan e do Deutsche Bank, Luis Caputo, demite-se de governador do Banco Central para ser substituído pelo vice-ministro da Economia, Guido Sandleris. Caputo terá tido divergências com a instituição de Washington. “Macri sacrificou-o em Nova York no altar do FMI porque ele cometeu o pecado de intervir no mercado de câmbio sem autorização. De agora em diante, os funcionários serão obedientes a um FMI que tem o controlo total da política económica”, reage Alejandro Venoli, governador do Banco central argentino durante o mandato da presidente Cristina Kirchner. Na sequência da notícia da demissão, o peso perde 3,4% no dia 25 de setembro, em apenas dois dias o dólar aumentou 6,2%, empurrando o peso para um novo recorde de 41,88 pesos por um dólar. [13]


Empréstimo do FMI aumenta

Dois dias depois da troca de sorrisos e palavras de circunstância na gala do Atlantic Council e no dia seguinte à mudança de governador do Banco central, o FMI concede o maior empréstimo da sua história à Argentina. A 26 de setembro, o país, abalado por uma grave crise económica, obteve do FMI sete mil milhões de dólares suplementares e uma aceleração do calendário de entregas. O empréstimo concedido em junho passa assim de 50 para 57,1 mil milhões de dólares em três anos. “Os pagamentos previstos para o resto do ano de 2018 e para 2019 aumentam 19 mil milhões de dólares”, declarou em Nova York o ministro argentino da Economia, Nicolas Dujovne. De agora até ao final do ano de 2018, a Argentina receberá 13,4 mil milhões de dólares em vez dos 6 mil milhões previstos inicialmente no primeiro acordo concluído em junho (para além dos 15 mil milhões já desembolsados), para 2019, Buenos Aires poderá contar com 22,8 mil milhões de dólares, em vez de 11 e 5,9 mil milhões de dólares previstos para 2020-2021 [14]. A dívida argentina em dólares sobe perigosamente e a desvalorização do peso peossegue apesar deste acordo, mas o presidente Macri assegura: “Não há qualquer risco da Argentina entrar em default” de pagamento da sua dívida, como aconteceu na crise económica de 2001. Entretanto, a pobreza espalha-se rapidamente para servir a dívida dos credores e o governo pede à Igreja para intensificar a distribuição de alimentos nos bairros pobres...



Artigo publicado no blogue Un monde sans dette do jornal Politis , a 2 de outubro de 2018, e em cadtm.org.
Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net .

Notas

[2Fernando Nole, «Se calcula que hay 11 millones de pobres en Argentina», Perfil, 27 de setembro de 2018.

[3A Argentina pagou em meados de agosto 12 milhões de euros para tomar posse dos cinco Super-Étendard franceses (SEM) destinados à sua marinha. Michel Cabirol, «L’Argentine a enfin payé ses cinq Super-Etendard», La Tribune, 27 de agosto de 2018.

[4Intervenção do presidente Mauricio Macri perante a 71ª Assembleia Geral das Nações Unidas: «La Argentina esta sumiendo el empoderamiento integral de las mujeres, como politica de Estado».

[7Eric Lipton, Brooke Williams e Nicholas Confessore, «Foreign Powers Buy Influence at Think Tanks», The New York Times, 6 de setembro de 2014.

[8Tüpras é a companhia petrolífera nacional e a maior empresa industrial da Turquia.

[10Adrienne Arsht foi presidente do conselho de administração do TotalBank sediado em Miami, de 1996 a 2007.

[11“Também com Christine devo confessar que iniciámos uma grande relação há há uns meses e espero que funcione muito bem e que leve a que todo o país acabe por se enamorar por Christine” https://www.youtube.com/watch?v=YpYq6P2CXxQ Original em inglês: https://www.youtube.com/watch?v=Y7bCmNctKsQ

[13Mirta Fernandez, «El mercado ya testea el nuevo dólar y con poco volumen roza los $ 42», Perfil, 28 de setembro 2018 & Fiebre Verde, Página12, 29 de setembro de 2018

Jérôme Duval

membro do CADTM (www.cadtm.org) e da PACD (Plataforma de auditoria cidadã da dívida em Espanha, http://auditoriaciudadana.net/). Autor, com Fátima Martín, do livro Construcción europea al servicio de los mercados financieros, Icaria Editorial 2016; é também co-autor da obra La Dette ou la Vie (Aden-CADTM, 2011), livro colectivo coordenado por Damien Millet e Eric Toussaint que recebeu o Prémio do Livro Político na Feira do Livro Político de Liège em 2011.

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