Declaração de Manolis Glezos a propósito da visita à Grécia da chanceler alemã Angela Merkel

9 de Outubro de 2012 por Manolis Glezos


Por ocasião da visita da chanceler Angela Merkel à Grécia consideramos que é o nosso dever recordar, tanto a ela quanto ao primeiro-ministro grego que:

1. A grande e poderosa Alemanha não tem o direito de eximir-se dos seus deveres, privando a Grécia do que lhe é devido na base do Direito Internacional, ao mesmo tempo que também não se permite que a Grécia abdique dos seus direitos.

2. As violações do Direito Internacional e dos princípios humanos da honra e da moral trazem o perigo de ver repetirem-se os fenómenos que submeteram a Europa a sangue e fogo. O reconhecimento dos crimes nazis constitui uma garantia elementar de que tais monstruosidade não se voltem a repetir.

O nosso povo não esqueceu e não deve esquecer. Hoje, não pede vingança, mas sim justiça. Desejamos que os alemães também não tenham esquecido. Porque os povos que não recordam a sua memória histórica estão condenados a repetir os mesmos erros. E parece que Angela Merkel conduz o seu país, e inclusive a parte mais sensível do povo, a juventude, por esse caminho escorregadio, já que ao dirigir-se aos jovens do seu partido não duvidou em dizer que “a ajuda à Grécia deve estar ligada aos deveres da Grécia”. E sobre os deveres da Alemanha?

Esperávamos que a chanceler tivesse dado mostras de uma atitude análoga à dos aliados em relação à Alemanha quando, em 1953, a suspensão dos pagamentos da dívida e a ajuda económica que lhe ofereceram contribuíram para o desenvolvimento e a reconstrução da Alemanha. A Grécia de então não esteve ausente daquele esforço.

Não temos a intenção de convidar a chanceler para um jantar. Mas convidamo-la a visitar o Campo de Tiro de Kaisariani [1] para que veja ainda hoje, 67 anos depois do fim da guerra, que a relva continua a não crescer no lugar onde tanto sangue foi derramado. A terra não se esquece. E os homens também não têm o direito de esquecer.

É o momento de unir a nossa voz à do presidente do partido da Esquerda alemã (Die Linke), B. Rixinger, que a propósito da chegada a Angela Merkel à Grécia, lhe pede que ouça aqueles que resistem aos cortes brutais que ameaçam aprofundar a polarização do país e adverte-a de que a Grécia está em risco de catástrofe humanitária.

Já estamos a pagar esta polarização no meu país com o surgimento da Aurora Dourada. Vamos ficar de braços cruzados, à espera de ver também as consequências da catástrofe humanitária? Nessa altura será demasiado tarde não só para a Grécia, como também para a Europa inteira.

Manolis Glezos, 90 anos, é o símbolo vivo da resistência contra a ocupação nazi. A 30 de maio de 1941, foi um dos dois jovens que retiraram a enorme bandeira nazi que tremulava na Acrópole. Condenado à morte em repetidas ocasiões durante e depois da guerra civil, M. Glezos passou no total mais de onze anos na cadeia. Hoje é deputado pelo Syriza (Coligação de Esquerda Radical).

Tradução de Luis Leiria



Notas

[1No dia 1 de maio de 1944, no Campo de Tiro de Kaisariani, um subúrbio de Atenas, 200 ativistas políticos gregos foram executados pelos ocupantes nazis como vingança pela morte do general alemão Franz Krech, que caíra numa emboscada da resistência dias a

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