Deloitte no banco dos réus no caso Bankia

6 de Julho por Jérôme Duval

A 20 de junho, a gigante de auditoria Deloitte sentou-se no banco dos réus no quadro do caso Bankia. A plataforma 15MpaRato acusa-a de “responsabilidade direta” e “fraude massiva”. Por Jérôme Duval.

Os grandes gabinetes de auditoria, também chamados big four, assessoram as multinacionais indicando-lhes os métodos mais eficazes para utilizar da melhor maneira as legislações fiscais dos diferentes países… para fugirem melhor [ao fisco]. “Com os nossos 540 advogados repartidos por todo o território, estamos em condições de analisar essas mudanças [legislativas que tiveram lugar no contexto de crise] e aconselhar os nossos clientes sobre a melhor maneira para que integrem as novas leis nas suas empresas”, explicava François Blin, da Deloitte Espanha, durante uma entrevista em maio de 2011.

Com um preço por auditoria de várias dezenas de milhões de euros para as grandes multinacionais, o mercado é irresistível. Em Espanha, calcula-se que as empresas cotadas no Ibex 35 terão gastado 184,8 milhões de euros em 2015 por serviços de auditoria, de controle de riscos e de assessoria, isto é, 8,44% mais do que no exercício anterior. A Deloitte ficou com a maior fatia do bolo e embolsou assim 108,97 milhões de euros em 2015 (+9,18%), a Ernst & Young obteve 55,17 milhões de euros, e a KPGM, 12,45 milhões.

As duas maiores falências da história recente de Espanha, Bankia - o grupo financeiro saído da fusão da Caja Madrid com outras seis caixas espanholas - e a multinacional Abengoa, têm um ponto em comum: as duas excluíram a Deloitte após os escândalos e os processos judiciais… O Estado, através do Instituto de Contabilidade e Auditoria de Contas (ICAC), dependente do Ministério da Economia, impôs uma multa de 12,4 milhões de euros à Deloitte por ter aprovado os resultados financeiros apresentados por Rodrigo Rato, ex-presidente do Bankia, atualmente a ser julgado por branqueamento de capitais e corrupção. Isto permitiu a entrada do Bankia na bolsa em 20 de julho de 2011.

Em 2012, a Deloitte faturou 490.000 euros ao Bankia por assessorar a equipa de Rodrigo Rato para atingir as exigências europeias em matéria de saneamento bancário. Depois da queda espetacular do Bankia, que provocou perdas de cerca de 3.000 milhões de euros, o Governo organizou o seu resgate com o dinheiro público dos contribuintes. A Deloitte, num claro conflito de interesses, converteu-se em juiz e parte ao ser ao mesmo tempo a sociedade responsável de auditar o banco e a consultora encarregada de certificar as contas. Segundo o ICAC, que impôs a multa, a Deloitte é “responsável por uma infração continuada muito grave ao ter incorrido num incumprimento do dever de independência”.

Banco dos réus

A 20 de junho, o representante legal da Deloitte e Francisco Celma Sánchez, responsáveis pela entrada do Bankia na bolsa, sentaram-se no banco dos réus para responderem aos advogados do 15MpaRato, plataforma cidadã que lançou o caso Bankia e que os acusa de “responsabilidade direta” e de “fraude massiva”.

As revelações dos Panama Papers recordam-nos que o gabinete de Gibraltar que geria as sociedades do ex-presidente do Bankia Rodrigo Rato no estrangeiro, Finsbury Trust & Corporate Services Limited, recorreu ao gabinete Mossack Fonseca em 2013 para liquidar a Westcastle Corporation e a Red Rose Financial Enterprises, as duas empresas offshore do Panamá que Rato utilizou durante mais de duas décadas para esconder a sua fortuna.

Previamente, entre 10 de junho de 2012 e 11 de fevereiro de 2014, Rato, que também foi vice-presidente do Governo e diretor do FMI, teve o cuidado de transferir mais de 3,6 milhões de euros dessas duas sociedades para as suas próprias contas.

A Red Rose Financial Enterprises começou a funcionar em novembro de 2005, quando Rato era ainda diretor do FMI, até que foi oficialmente dissolvida a 12 de julho de 2013. Aconteceu o mesmo com a Westcastle Corporation, que desapareceu a 23 de dezembro de 2014 depois de duas décadas de “serviços”.

As manobras opacas do ex-presidente do FMI, que tentava fazer desaparecer novos rastos suspeitos das suas atividades fraudulentas, constitui o enésimo escândalo que mancha uma personagem ligada à instituição de Washington (FMI), ao Partido Popular, ao Bankia e à Deloitte…

Artigo de Jérôme Duval, traduzido para espanhol por Gladys Martínez e publicado em diagonalperiodico.net. Tradução para português por Carlos Santos para esquerda.net


Autor

Jérôme Duval

membro do CADTM (www.cadtm.org) e da PACD (Plataforma de auditoria cidadã da dívida em Espanha, http://auditoriaciudadana.net/). Autor, com Fátima Martín, do livro Construcción europea al servicio de los mercados financieros, Icaria Editorial 2016; é também co-autor da obra La Dette ou la Vie (Aden-CADTM, 2011), livro colectivo coordenado por Damien Millet e Eric Toussaint que recebeu o Prémio do Livro Político na Feira do Livro Político de Liège em 2011.


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