Ecofeminismos: uma resposta holística a um sistema em crise

2 de Outubro por Camille Bruneau


«O Ecofeminismo Ataca as Raízes da Exploração», um dos atelieres da 6ª universidade de verão do CADTM Europa. Da esquerda para a direita: Camille Bruneau (CADTM Bélgica), Miriam Garcia Torres (Ecologista en Acción) e Ariel Salleh (investigadora activista, Austrália)

Este artigo constitui a introdução do atelier «O Ecofeminismo Ataca as Raízes da Exploração», realizado a 8 de setembro de 2019 na Universidade de Verão do CADTM.
O mesmo atelier também teve lugar no quadro de um ciclo sobre ecofeminismo, preparado pelas associações CADTM e Barricade. (Ver programa completo do ciclo aqui [em francês].)


Porquê este interesse pelo ecofeminismo?

O CADTM não se interessa apenas pela dívida; tenta lutar contra todas as formas de opressão e de dominação. Não basta considerar isoladamente o patriarcado, a dívida ecológica, a dívida pública Dívida pública Conjunto dos empréstimos contraídos pelo Estado, autarquias e empresas públicas e organizações de segurança social. , etc., é essencial entender a forma como esses tipos de opressão se entrelaçam, adoptar uma postura interseccional e descolonizadora, pois as relações sociais de desigualdade, seja ela de género, raça, classe, Norte/Sul, estão estreitamente imbricadas. Ora o ecofeminismo é um movimento, uma luta, uma forma de pensar que tem em conta essa ligação. Não é possível ser anticapitalista e lutar contra o sistema da dívida sem ser feminista ou, melhor dizendo, ecofeminista. Este movimento reúne um conjunto de críticas que adoptamos no seio da rede do CADTM, embora nem sempre consigamos abordá-las de forma conjunta. Por isso sentimos a necessidade de reflectir sobre o ecofeminismo. Este movimento oferece numerosos instrumentos para reflectir, construir alternativas práticas e reafirmar que não é possível combater separadamente a destruição do ambiente e a exploração das mulheres, pois ambas fazem parte da mesma lógica, ambas constituem pilares da acumulação capitalista. Além disso – voltaremos mais adiante a esta questão – o ecofeminismo oferece importantes elementos para a análise e para a abolição das dívidas ilegítimas, porque de facto existe uma ligação entre ecofeminismo e dívida!

O ecofeminismo oferece importantes elementos para a análise e para a abolição das dívidas ilegítimas, porque de facto existe uma ligação entre ecofeminismo e dívida!

Parece-me útil relembrar os laços que existem entre capitalismo e patriarcado – dois sistemas que se reforçam mutuamente. Embora o sexismo, as violências contra as mulheres, já existisse antes de o capitalismo se estabelecer, a chegada do capitalismo reforçou os seus piores traços e sobretudo instituiu uma desvalorização das mulheres e do seu trabalho. Quem se lembra que antes do século XVI as mulheres da Europa trabalhavam, eram maioritárias em certos ofícios, faziam parte das cooperativas de artesãos e artesãs, eram proprietárias de terras, médicas, etc.? Ninguém (ou pelo menos muito pouca gente). De facto, durante a implantação do capitalismo, que decorre num contexto de crise religiosa e política, as mulheres desaparecem da esfera pública; as que resistem são perseguidas, nomeadamente durante a caça às bruxas. Ouve-se frequentemente dizer que as mulheres só começaram a trabalhar no último século. Na verdade, as mulheres menos privilegiadas nunca deixaram de trabalhar.
A transformação dos modos de produção (meios colectivos, assalariados, monetários, etc.) criou uma separação entre o que é considerado «produtivo» (gerando rendimento) e o «improdutivo», e hierarquiza essas actividades, agravando a separação de género. Nesse momento observa-se uma reafirmação das normas patriarcais (as mulheres são vistas como mães e esposas, delicadas, flexíveis, femininas, fracas, …) que contribui para restringir as mulheres a certas actividades pouco valorizadas. O capitalismo, tendo necessidade de desvalorizar para acumular, serve-se dessas normas e acentua-as!

Por conseguinte, o advento do capitalismo reforçou e transformou o patriarcado e colaborou na criação da divisão sexual do trabalho, tal como a conhecemos hoje em dia.

A exploração através do trabalho é essencial no capitalismo; mas o que numerosos marxistas e outros analistas ignoraram nas suas análises foi a existência de relações de género no seio das relações assalariadas e de classe. Por outras palavras, ignoraram que a exploração também consiste em trabalho gratuito (que não deixa de ser trabalho) e que portanto existe uma exploração específica e acrescida no caso das mulheres.

É claro que existe trabalho assalariado, repleto de discriminações (desigualdade salarial, canalização das mulheres para sectores mal pagos e ditos «femininos», trabalho a tempo parcial, etc.). Mas há também o trabalho gratuito, que consiste em cuidar dos outros, em apoiar, em fazer trabalho doméstico, … que torna possível a reprodução social e as condições de vida.

As mulheres, ao encarregarem-se de metade do trabalho mundial por menos de 10 % dos rendimentos, são na verdade «o verdadeiro proletariado».

Frequentemente a abordagem das feministas mais institucionais ou «civilizacionais» – assim lhes chama Françoise Verges – consiste em defender a igualdade «homens-mulheres» no trabalho. Esta é sem dúvida uma questão importante e uma boa razão para lutar, mas não é um fim em si mesma; o trabalho não é necessariamente uma fonte de emancipação. Esta prioridade de luta pode mesmo tornar-se perigosa, pois fecha os olhos a outras relações de dominação. De facto, não nos parece interessante ter a possibilidade de nos tornarmos «iguais aos homens» quando isso significa explorar, ter um salário chorudo, dar ordens, «emancipar-se» em prejuízo de outras pessoas menos favorecidas, como sejam as mulheres do Sul, as imigrantes, as precárias, aquelas – geralmente vindas de países do Sul – a quem damos trabalhos domésticos ou precários ou os trabalhos mais penosos.

O que verificamos nos últimos anos, com a globalização neoliberal, é uma reorganização do trabalho de produção e de reprodução, com base na apropriação do trabalho das mulheres do Sul, a fim de assegurar a reprodução [social] e o conforto das populações das metrópoles. Mais uma vez, são os grupos mais marginalizados, a quem o capitalismo destruiu os meios de subsistência, que são encarregues, sob a forma de trabalho gratuito ou mal pago (no sector dos cuidados domiciliares, dos serviços, das tarefas domésticas), da reprodução social e da sociedade, à qual se atribui muito pouco valor. Ao emanciparem-se enquanto «mulheres», fechando os olhos a outras relações de força, estão apenas a deslocar os eixos de dominação.
Portanto o que é necessário não é garantir o acesso das mulheres a postos e esferas do poder, a altos salários, mas sim destruir as estruturas de poder e redistribuir de forma radical o trabalho de produção e reprodução.
Verificamos que o modelo actual atribui poder e valor a valores, ditos «masculinos», de competitividade e torna invisíveis os cuidados domiciliares, a reprodução – actividades estas essenciais à vida e aparentemente efectuadas de maneira «natural» pelas mulheres. Da mesma forma, o capitalismo torna invisível e retira todo o valor ao outro pilar da reprodução da vida sobre a Terra: as capacidades de regeneração da Natureza. A Natureza, igualmente desde o século XVI, a partir do momento em que é imposta uma modernidade baseada em dualismos (homem versus mulher, cultura versus natureza, produtivo versus improdutivo, civilizado versus selvagem, …) é também considerada uma entidade feminina, inferior, inerte, selvagem, que por isso pode ser explorada em proveito da ordem capitalista, patriarcal, extractivista e colonial.

A vontade de controlar tudo quanto é produtor e reprodutor é portanto o centro duma ânsia de poder, juntamente com o controlo político e económico.

O que o ecofeminismo nos traz de novo […] é a ligação entre a exploração das mulheres e a exploração da natureza

Resumindo, o que o ecofeminismo nos traz de novo – pondo de parte o facto de muitas vezes lhe ser dada uma conotação mística, como se as mulheres e a natureza fossem unas na sua essência – é a relação entre a exploração das mulheres e a exploração da natureza. Estas duas formas de dominação obedecem a lógicas e discursos semelhantes e resultam do complexo heteropatriarcal capitalista e extractivista. Por outras palavras, o drama ecológico não resulta apenas do capitalismo, mas também de uma lógica patriarcal que justifica a desvalorização e a exploração de tudo quanto é considerado «feminino».


História e temas principais do ecofeminismo

Vou apresentar-vos as características e os temas principais dos ecofeminismos, ou pelo menos a leitura que deles faço, tendo em conta que se trata de um movimento bastante plural. Tal como não existe um feminismo uniforme, também não existe um ecofeminismo único.

O ecofeminismo começa a emergir a partir da década de 1970, mas pode dizer-se que é um movimento bastante mais antigo, nomeadamente nos países do Sul. [1] Reemergiu em muitos outros lugares, com reivindicações semelhantes mas também com sob formas diversas. Além da ligação entre a exploração das mulheres e a da natureza, que já referi, pouco a pouco outras ligações se estabeleceram e vários temas vieram à tona: a guerra, o militarismo e a energia nuclear, o veganismo e o anti-especismo, a agro-indústria e as sementes, os medicamentos e a farmacologia, etc. Todas as injustiças frequentemente geradas no seio desses domínios foram interpretadas como manifestações de uma cultura sexista que dá prioridade aos valores militaristas, masculinos e também eurocêntricos.

É portanto uma crítica aos dualismos hierarquizados, ao antropocentrismo, que põe o que é humano acima da natureza, ao androcentrismo, que valoriza o masculino em detrimento do chamado «feminino», e ao eurocentrismo e respectivo modelo de desenvolvimento, à sua visão duma modernidade que nega a relação que todos os seres humanos podem potencialmente manter com os não humanos.

Assim, o ecofeminismo põe em causa os principais pilares económicos e culturais do Ocidente: a dominação do homem sobre a natureza e a dominação violenta sobre a mulher. Estas dominações imbricam-se com outras relações de desigualdade que constituem a base da nossa civilização: a discriminação baseada nas diferenças étnicas, de sexo, de classe, de espécie.
Para Vandana Shiva, o que o Ocidente designa «desenvolvimento» e «subdesenvolvimento» fazem parte de um único «mal-desenvolvimento» e por isso é necessário descolonizar tanto o Norte como o Sul. É completamente insensato que apenas seja atribuído valor ao que deriva do que é considerado produção. Por exemplo, uma floresta viva mantida por uma comunidade aborígene não é tida como contribuindo para o crescimento, mas a sua destruição, sim.

O ecofeminismo é frequentemente acusado de essencialismo, ou seja, de defender que na essência as mulheres estariam mais próximas da natureza. É claro que isto faz saltar as feministas construtivistas materialistas, que acham imperioso desconstruir a ideia de «natureza feminina»! De facto é em nome dessa ideia que as mulheres são exploradas, quanto a isso não restam dúvidas, mas trata-se de uma crítica fácil que caricatura o ecofeminismo, e é pena que assim seja. De facto, para imensas ecofeministas, trata-se precisamente de denunciar a natureza socialmente construída da suposta relação entre as mulheres e a natureza, e de apontar como, a partir dessa ideia, se pode trabalhar para a emancipação, para a salvaguarda da vida na Terra e do papel das mulheres nessa questão.

É certo que muitas vezes são as mulheres as mais afectadas pela destruição da Natureza; por isso são elas quem mais facilmente se mobiliza (saúde das crianças, agricultura, água, etc.), mas isso não significa que os homens não estejam também presentes, que não possam, que não devam sentir-se próximos da Natureza, ou que as mulheres estejam necessariamente mais próximas dela.

Trata-se de nos reapropriarmos e de revalorizarmos o que foi socialmente construído como feminino e de nos reapropriarmos – reclaim – do que nos foi roubado enquanto mulheres (poder, saber, história …)

Feitas as contas, todas estamos de acordo quanto ao facto de as mulheres e a natureza serem exploradas de forma semelhante. Ariel Salleh deu um grande passo ao encontro de um terreno comum: quando se fala de acção Acção Valor mobiliário emitido por uma sociedade em parcelas. Este título representa uma fracção do capital social. Dá ao titular (o accionista) o direito, designadamente, de receber uma parte dos lucros distribuídos (os dividendos) e participar nas assembleias gerais. política, não interessa se se trata de um facto ontológico, isto é, de essência, de natureza ou de um acidente histórico da ordem da construção social; o que conta é como a maioria das mulheres em todo o Mundo pensa e trabalha, e o facto é que a maioria foi educada a fazê-lo adoptando as normas e valores «femininos».
A ideia de essencialismo estratégico avançada por Émilie Hache, uma das ecofeministas francesas da actualidade, também é interessante. Há muito que as mulheres são inferiorizadas, sendo-lhes atribuído um papel e uma identidade associada à natureza – sendo ambas exploráveis. E isto justifica que tudo quanto era associado ou pertencia às mulheres era desvalorizado, roubado, pilhado. Trata-se portanto de nos reapropriarmos e revalorizarmos o que foi socialmente construído como feminino e de nos reapropriarmos – reclaim – do que nos foi roubado enquanto mulheres (poder, saber, história …). Reapropriarmo-nos do «feminino», transformá-lo, revalorizar a fim de recuperar a autoestima. Concretamente, isto passa por exemplo pela revalorização das práticas de cuidados domésticos, de solidariedade, que devem ser assumidas por homens e mulheres.


Ecofeminismo e dívida

Vejamos agora um aspecto que me interessa particularmente: a importância do ecofeminismo no combate contra as dívidas ilegítimas.

A ligação com a dívida ecológica parece ser sem dúvida a mais evidente: trata-se de ver por um lado qual a dívida para com «a terra» e «a natureza» e por outro lado a dívida do Norte aos países do Sul, medida pela quantidade de recursos pilhados.

Outra ligação com a dívida diz respeito ao facto de as violências praticadas sobre as mulheres e a natureza derivarem também do sistema da dívida, que justifica os projectos extractivistas, a destruição da agricultura alimentar, em nome do reembolso da dívida.

A perspectiva ecofeminista permite também incluir a dimensão feminista, ecológica e anticolonial no debate sobre a dívida pública e a ofensiva neoliberal, e outros argumentos para a sua anulação

Mas acima de tudo a leitura ecofeminista permite clarificar as diferentes formas de dívida e em especial a lógica que as une (cf. a intervenção de Ariel Salleh). A perspectiva ecofeminista permite incluir a dimensão feminista, ecológica e anticolonial no debate sobre a dívida pública e a ofensiva neoliberal, e outros argumentos para a sua anulação.

A dívida, como o CADTM não se cansa de repetir há muito tempo, é uma das principais armas do sistema capitalista e patriarcal. As mulheres são particularmente afectadas pelas grandes medidas impostas: privatizações, cortes nos serviços públicos, liberalização, redução dos salários e dos direitos do trabalho, bem como a aposta na exportação. Enquanto principais trabalhadoras e beneficiárias dos sectores afectados pelos cortes, enquanto trabalhadoras das terras açambarcadas, enquanto guardadoras de saberes pilhados, mães e esposas que compensam com o seu trabalho não pago o recuo dos serviços públicos, enquanto mulheres do Sul que têm de enfrentar a destruição dos seus meios de subsistência em benefício de projectos mineiros ou da agro-indústria, enquanto vítimas de violências e de migrações forçadas, agravadas pelas crises e pelos planos de ajustamento estrutural … tudo isso sabemos e continuamos a denunciar.

A leitura ecofeminista permite ainda valorizar outras coisas, colocar no centro das preocupações a vida e os cuidados domésticos. Uma das ideias que considero interessantes e às quais não é dada a devida atenção é a do ecofeminismo como alternativa aos cortes orçamentais, como resposta à austeridade. Ao retomar outros valores – como a vida, os cuidados domiciliares, as capacidades regeneradoras – na lista de prioridades da organização social, o ecofeminismo volta a pôr em causa a nossa compreensão da economia, e portanto da dívida, do que é realmente importante, de quem deve a quem, e isto leva-nos a encarar outros tipos de soluções.



Correcções: Anouk Renaud
Tradução: Rui Viana Pereira

Notas

[1O movimento Chipko dos Himalaias, durante o qual as mulheres resistiram ao corte de árvores (abraçando-se ou prendendo-se a elas), reapareceu em força nos anos 70. em 1730, Amrita Devi perdeu a vida ao tentar impedir o corte de árvores e foi seguida por 350 aldeãs. Estas continuaram a resistir até à proibição da desflorestação da região.

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