Eric Toussaint, emissor de alertas

8 de Outubro de 2013 por Jean Ziegler


Este texto foi extraído do posfácio do livro de Éric Toussaint Procès d’un homme exemplaire, Al Dante, Marseille, 2013.

Na nossa Europa da consciência homogeneizada, do consenso confuso, da razão de Estado triunfante, a ideia de uma rutura com a ordem mortífera do mundo é considerada utópica e até, mais comummente, delirante. Um revolucionário é considerado, na melhor das hipóteses, um tipo original, simpático, uma espécie de espírito vagabundo, um iluminado inofensivo, um marginal pitoresco; ou, na pior das hipóteses, um agitador preocupante, um depravado, um louco. As oligarquias do capital financeiro globalizado governam o planeta, com a sua ideologia legitimadora: um economicismo estrito, um chauvinismo pesporrente, uma doutrina dos direitos humanos discriminatória. Estou a exagerar? Os Estados Unidos, a França, a Bélgica, a Inglaterra, a Suíça e outros países ocidentais abrigam dentro das suas fronteiras democracias reais, vivas, respeitadoras das liberdades e das exigências de felicidade dos seus cidadãos. Mas, nos seus impérios neocoloniais, perante os povos periféricos que dominam, essas mesmas democracias ocidentais praticam aquilo que Maurice Duverger denomina fascismo exterior: em muitos países do hemisfério sul, há cerca de 50 anos, todos os indicadores sociais (exceto o indicador demográfico) são negativos. A desnutrição, a pobreza, o analfabetismo, o desemprego crónico, as doenças endémicas, a destruição da família são consequências diretas das condições desiguais de troca, da tirania da dívida. As democracias ocidentais praticam o genocídio pela indiferença. Régis Debray constata: «Os homens livres precisam de escravos». [1] A frágil prosperidade do Ocidente tem esse preço!

Os povos dos países pobres matam-se a trabalhar para financiarem o desenvolvimento dos países ricos. O Sul financia o Norte, nomeadamente as classes dirigentes dos países do Norte. A forma mais poderosa de domínio do Norte sobre o Sul é hoje o garrote da dívida.

Os fluxos de capital sul-norte são excedentários comparando com os fluxos norte-sul. Os países pobres pagam anualmente às classes dirigentes dos países ricos muito mais dinheiro do que recebem sob a forma de investimento, de ajuda à cooperação, de ajuda humanitária ou da dita ajuda ao desenvolvimento.

Não são necessárias metralhadoras, napalm, blindados para escravizar e subjugar os povos. A dívida cumpre essa função.

A dívida externa é uma arma de destruição maciça. Subjuga os povos, destrói as suas veleidades de independência, garante a permanência do domínio planetário das oligarquias do capital financeiro.

Em 2013, a cada cinco segundos, uma criança com menos de dez anos morria de fome. 57 mil seres humanos morrem de fome diariamente. Cerca de mil milhões dos 7 mil milhões de seres humanos que somos sofrem de desnutrição permanente e grave. Isto acontece num planeta que poderia, de acordo com a FAO, alimentar normalmente (2200 quilocalorias por indivíduo adulto, por dia) 12 mil milhões de seres humanos.

A África é o continente que – proporcionalmente à sua população – possui o maior número de pessoas com fome: 36,2% em 2012. Em termos absolutos é a Ásia que prevalece nessa dramática contabilidade. O garrote da dívida externa impede os países mais pobres de realizarem o investimento mínimo, que a sua agricultura precisa com urgência.

Os 54 Estados africanos, dos quais 37 são países quase exclusivamente agrícolas, com terras vastas e férteis, mas subpovoadas, tiveram de importar, em 2012, 24 mil milhões de dólares de alimentos, devido à falta de investimento na agricultura. Faltam sementes selecionadas, fertilizantes minerais e animais, há 250.000 animais de tração no continente e menos de 85.000 tratores. A enxada e a faca de mato continuam a ser, em 2013, os principais utensílios de produção.

Apenas 3,8% da terra arável a sul do Saara é irrigada. O resto é agricultura de sequeiro, com todos os riscos mortais que os perigos do clima implicam.

O FMI administra a dívida dos países pobres.

Os mercenários do FMI são os bombeiros do sistema financeiro mundial. No entanto, há ocasiões em que não hesitam em ser incendiários...

Em tempos de crise grave, intervindo em praças financeiras exóticas, garantem, acima de tudo, que nenhum especulador internacional perca a sua aposta inicial. The Economist, que não é propriamente um agitador de esquerda, escreve: «… So when sceptics accuse rich country governments of beeing mainly concerned with bailing out western banks when financial crisis strikes in the world, they have a point» («Quando alguns cépticos acusam os governos dos países ricos de estarem, sobretudo, preocupados em evitar perdas aos bancos ocidentais durante as crises, têm razão.») [2].

Para a manutenção, reprodução, reforço dessa ordem canibal do mundo, Jacques De Groote desempenha, há décadas, um papel fundamental: como diretor-executivo do FMI, diretor do Banco Mundial, conselheiro do predador Joseph Désiré Mobutu, etc.

De Groote encontra-se agora perante o Tribunal Penal da Confederação Helvética, em Bellinzona, com mais seis coacusados checos. De acordo com a acusação do Ministério Público Federal, respondem pelos crimes de «branqueamento de capitais agravado e fraude».
Da carreira tumultuosa, sulfurosa, de Jacques De Groote, Eric Toussaint fez um livro fascinante, com uma escrita brilhante, com documentação completa e precisa.

Eric Toussaint é um autor mundialmente conhecido e um conselheiro procurado precisamente por muitos governos que tentam livrar-se das suas dívidas «odiosas». As suas obras científicas são uma autoridade no mundo inteiro, inclusive junto do FMI e do Banco Mundial. La bourse ou la vie. La finance contre les peuples (1998), 60 questions, 60 réponses sur la dette, le FMI et la Banque mondiale (2002, reed. 2008), Banque mondiale: le coup d’Etat permanent. L’agenda caché du consensus de Washington (2006), La dette ou la vie (2011), etc., são obras indispensáveis para compreender o funcionamento da presente ordem económica planetária, criada pelas oligarquias do capital financeiro.

No seio dessa obra científica rica e abundante, Procès d’un homme exemplaire ocupa um lugar especial. Jean-Paul Sartre estabelecia, para o trabalho intelectual, uma distinção entre obras científicas, analíticas, eruditas e «livros de intervenção». Nesses últimos, o investigador torna-se um emissor de alertas. Procès d’un homme exemplaire é um livro de intervenção.

No momento em que escrevo estas linhas, o veredicto do Tribunal Penal, em Bellinzona, ainda não é conhecido. É preciso, portanto, no que diz respeito a Jacques De Groote – mesmo que pareça difícil – respeitar escrupulosamente a presunção de inocência.

O livro de Eric Toussaint levanta, no entanto, desde já, questões inquietantes. Como foi possível uma personagem como De Groote manter impunemente, durante mais de vinte anos, no seio do FMI, as suas questionáveis atividades? De que tipo de proteção, de que tipo de cumplicidade gozou?

Este formidável livro dá as respostas.

Tradução: Maria da Liberdade
Revisão: Rui Viana Pereira



Jean Ziegler é autor de Destruição em Massa. Geopolítica da Fome, Editora Cortez, 2013.

Notas

[1Régis Debray, in Le Tiers monde et la gauche, obra colectiva, Editions du Seuil, 1979, p. 79.

[2«A Plague of Finance», The Economist (Londres), 29 setembro 2001. http://www.economist.com/node/796127

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