FSM 2009: A verdadeira esquerda e os movimentos sociais

11 de Fevereiro de 2009 por Ignacio Ramonet


Um grupo de movimentos sociais convocou quatro presidentes latino-americanos para um um diálogo sobre a integração popular da América Latina. Esses presidentes são considerados o bloco da esquerda sul-americana pelo processo de transformação social impulsionados a partir dos seus países. Trata-se de: Hugo Chávez da Venezuela, Evo Morales da Bolivia, Rafael Correa do Equador e Fernando Lugo do Paraguai. O encontro dos presidentes com os movimentos sociais no Fórum Social Mundial (FSM) em Belém (PA) é relatado pelo jornalista e editor do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, em artigo publicado na agência de notícias Alai, 6/2/2009. A tradução é do Cepat.

No ginásio da Universidade do Estado do Pará, Avenida Almirante Barroso, em Belém, no dia 29 de janeiro de 2009, às duas horas da tarde, mais de mil pessoas, militantes e representante dos movimentos sociais e dos movimentos populares de toda a América Latina, com bandeiras, faixas e gritos de alegria, se apinhavam para escutar os verdadeiros presidentes da esquerda latino-americana. O presidente Lula do Brasil não foi convidado. Assistem também ao ato vários bispos brasileiros pertencentes à teologia da libertação, personalidades como Aleyda Guevara, filha de Che, e membros do Conselho Internacional do Fórum Sociail Mundial como Bernard Cassen, François Houtart, Emir Sader e Eric Toussaint.

Um grupo de importantes movimentos sociais – os quais constituem um dos pilares fundamentais do Fórum –, decidiram convidar os quatro presidentes latino-americanos para um «um diálogo sobre a integração popular de nossa América”. Esses presidente são considerados como o “bloco da verdadeira esquerda sul-americana» e se distinguem pelo processo de transformação social impulsionados a partir dos seus países. Trata-se de: Hugo Chávez da Venezuela, Evo Morales da Bolivia, Rafael Correa do Equador e Fernando Lugo do Paraguai.

O primeiro a chegar foi Rafael Correa, minutos depois, chegou Fernando Lugo, os dois com camisas brancas tradicionais de seus países, e ambos acolhidos por uma dilúvio de aplausos. Enquanto esperavam a chegada de Chávez e Morales, alguns músicos interpretaram canções populares latino-americanas. Correa, muito «solto» tomou o micofrone em mãos e se pôs a cantar, mostrando reais talentos musicias e um conhecimento surpreendente das letras de muitas músicas. Em particular, interpretou junto com Marcial Congo, um dos assessores de Fernando Lugo, a célebre Yolanda de Pablo Milanés e, com o próprio Lugo, Hasta siempre Comandante, de Carlos Puebla, acompanhados com entusiasmo por toda a platéia.

Chegam juntos Hugo Chávez e Evo Morales, o primeiro vestindo uma camisa cor verde oliva de estilo militar (mas sem nenhum distintivo castrense) e, o segundo de camisa branca, aplaudidos em pé pelos participantes. Todos se instalam em uma mesa decorada ao fundo por uma grande manta de fundo azul sobre a qual ressaltam belas flores multicolores da Amazônia, com uma grande letreiro: «Solidariedade Internacional».

Os eventos organizdos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) começam sempre pelo que eles chamam de uma mística, ou seja, um momento cultural de representação cênica muito simbólica, de inspiração brechtiana, com cantos, poesias e expressões políticas. Entra em cena, um grupo de mulheres e homens, vestidos de camponeses com bandeiras vermelhas e verdes cantando O povo unido jamais será vencido e repetindo a consigna: A revolução apenas a faz um povo unido e organizado. Depois, mudando totalmente de ritmo, com uma energia contagiosa de revolta e protesto, um grupo neopunk interpreta raps revolucionários e insurgentes.

Após esse prelúdio cultural, começa a parte política.

Dois representantes dos movimentos sociais tomam a palavra para expor sua análise da situação da América Latina e apresentar perguntas aos quatro presidentes. Fala, em primeiro lugar, Camille Chalmers, do Haiti, da organização Jubileu Sul. Relata toda a história dos acontecimentos – resistência ao neoliberalismo, auge dos movimentos sociais, luta contra a ALCA – que permitiu chegar a esta conjuntura atual e a onda de governos populares que estão transformando a América Latina. Intervém na sequência, Magdalena León do Equador, da organização REMTE, que lembra a importância da luta das mulheres e de sua grande contribuição às mudanças atuais. Ambos representantes dos movimentos sociais, pedem aos presidentes que garantam o seu apoio às reinvindicações do movimento popular e que se mantenham fiéis as promessas de seus programas e as esperanças depositadas neles por seus povos.

Falam os presidentes:

Rafael Correa – Equador

"Mais do que uma época de mudanças, estamos vivendo uma mudança de época. Quem imaginaria, que em 2001, quando começou os Fórum, que quatro presidentes participariam do Fórum Social Mundial em 2009. Em dez anos, a América Latina viveu uma mudança profunda. Agora se tem muitos governos progressistas, enquanto que, em 2001, apenas se tinha Chávez, como um ’cavaleiro solitário’ (The Lone Ranger ).

Nós, os novos presidentes, somos o reflexo das mudanças dos povos da América Latina. Nós nutrimo-nos dos Fóruns Sociais, e nutrimo-nos também de nossas lutas, das lutas de nossos companheiros desde Martí até Fidel, passando por tantos outros, entre eles Alfaro.

Estamos vivendo a nossa Segunda Independência. E, esta, coincide com a grave crise mundial do neoliberalismo, com o colapso do neoliberalismo de Davos. Não se trata somente de uma crise econômica, mas ela é o resultado da cobiça, do egoísmo e do individualismo erigidos como norma de vida da ideologia neoliberal. É uma ideologia disfarçada de ciência.

É o momento de se opor ao neoliberalismo, o Socialismo do Século 21. O que é o socialismo do século 21? Uma série de compromissos: Intervenção do Estado na Economia; Planificação; Supremacia do trabalho humano sobre o capital; O valor de uso, mais importante do que o valor de troca; a dívida ecológica, a equidade de gênero; a equidade para os povos originários; a autocrítica; a convicção de que não há receitas; a convicção de que o Socialismo do Século 21 não é único, nem estático. Não acreditamos em dogmas, nem em fundamentalismos; propõe-se um viver melhor com um objetivo: um maior bem-estar para os mais pobres do planetas.Uma nova concepção de desenvolvimento.

Mas, para realizar o socialismo do Século 21, temos que aprofundar algumas de nossas iniciativas e avançar em nossa integração: o Banco do Sul, PetroSul, Unasur. Criar uma moeda regional, o Sucre.

Mais integração, é mais garantia para os nossos processos de mudança e progresso. É preciso substituir definitivamente a Organização dos Estados Americanos (OEA), cuja sede se faz em Washington. Não excluiu o Chile de Pinochet, mas expulsou Cuba de Fidel Castro. É chegada a hora de mudar a OEA.

O neoliberalismo entrou em colapso e muitas instituições internacionais também entraram em colapso com ele, entre elas, a OEA. O Fórum Social Mundial é parte da solução de que o mundo necessita".

Fernando Lugo - Paraguai

"A América Latina está mudando. E essa mudança nos têm mudado também. Estamos aprendendo com os movimentos sociais. Eu me lembro das viagens de ônibus para ir do Paraguai até o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e mais tarde ao Fórum que se realizou em Caracas. Fomos aprender, escutar e impregnarmo-nos das experiências dos demais. Nós somos hoje a expressão da vontade mudança do movimento popular, do movimento social, do movimento camponês e do movimento indígena. Graças ao movimentos social, a América Latina está vivendo esse momento de mudança.

Esta época exige um esforço criativo para construir uma sociedade mais justa e mais fraterna. Nossos países devem integrar-se para defender as decisões que estamos tomando em favor dos nossos povos.

Eu não saíria de Belém tranquilo se não dissesse aqui que devemos encontrar uma solução justa com o Brasil sobre a questão do tratado de Itaipu. Não acreditamos que um tratado leonino, assinado quando haviam ditaduras em nossos países possa continuar vigente. Nossos amigos brasileiros não podem dizer que não são justas nossas reinvindicações de mudanças no tratado. Tem que ser um tratado de igual para igual. Não pode ser desigual. É a concepção de integração que defendemos.

Eu peço a vocês que trabalhem também na integração dos movimentos sociais da América do Sul, para que cessem alguma injustiças históricas. Por exemplo, eu acredito que é injusto que a Bolívia não tenha direito a um acesso ao mar. O mesmo eu digo para o Paraguai, nós também temos direito ao acesso ao mar.

A integração, repito, é a criatividade nas iniciativas para construir uma América do Sul mais justa, mais solidária na qual encontre fim as velhas injustiças. As vezes me dizem que é preciso ter paciência. Eu digo que na América Latina, depois de tanto sofrimento e de injustiças, o que devemos ter é impaciência. Porque estamos impacientes de edificar por fim na América Latina o que queremos. Necessitamos do apoio dos movimentos sociais e de toda a esquerda mundial aqui representada no Fórum Social Mundial. E queremos agradecer ao Fórum tudo o que nos têm trazido, porque aqui temos bebido das idéias, dos programas, das análise para propor a mudança em nossos países".

Evo Morales - Bolivia

"Eu cheguei a pensar que vocês haviam se esquecido de mim. Porque no Fórum Social Mundial, eu sempre vim participar e também sempre me convidaram, mas desde que estou presidente, já não me convidaram mais. E eu pensava que já não os interessava. Assim, agradeço este convite que aguardava faz muito tempo.

Aqui estão os meus professores. Nos Fóruns, eu aprendi e fui compreendido. Se nós chegamos à presidência é, em parte, graças ao Fórum Social Mundial. Porque daqui tiramos idéiais, estabelecemos contatos e redes. Agradeço e quero solidarizar-me com o Movimento dos Sem Terra e com o movimento índigena do Brasil, da Amazônia e de todo a América.

Eu peço também o apoio dos movimentos de esquerda ao nosso processo. Nós podemos cometer erros, e estamos dispostos a corrigir e debater para melhorar o nosso processo, mas a direita quer derrotar essa caminhada, quer interrompê-lo. Na Bolívia, há grupos que não aceitam a nossa eleição e as mudanças que estamos levando à frente, grupos racistas. Mas, com o apoio dos movimentos sociais bolivianos temos conseguido avançar.

Não apenas a imprensa de direita nos ataca, também a Igreja Católica, ou melhor a hierarquia da Igreja. Mas, nós decidimos que os serviços públicos são inegociáveis, decidimos que a vida e a luta pela paz não é negociável, a defesa do meio ambiente e do planeta Terra não é negociável. Pedimos mudanças. E pedimos que nos apóiem para avançar nessas mudanças. Mas também decidimos que para mudar a sociedade, cada de um de nós tem que começar a mudar, começando por si mesmo. Se cada um de nós muda, toda sociedade continuará mudando".

Hugo Chávez - Venezuela

"Gostaria de começar citando Fidel Castro, que é como o pai de todos nós. Falando, já em 2001, sobre o Fórum Social Mundial, Fidel disse que ‘este Fórum é como a expressão das gerações emergentes’. E o subcomandante Marcos, que para além de revolucionário é poeta, disse que o ‘Fórum é com um ninho de sonhos’. Quando estes Fóruns começaram, em 2001, eu já era presidente fazia dois anos, desde 2 de fevereiro de 1999. Já se vão dez anos que marcam o nascimento de uma época. Já, o povo venezuelano se levantou, em 1989, contra o neoliberalismo. Foi um dos primeiros povos que derramou o seu sangue para impedir a imposição desse nefasto modelo neoliberal.

A vida do Fórum, até agora, tem coincidido quase exatamente com os mandatos do presidente do Estados Unidos, George W. Bush, um personagem abominável que deveria ser julgado por Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Com o novo presidente dos EUA, Barack Obama, estamos aguardando, observando sua atuação, o seu governo, que no momento vive com um grave problema interno com a crise economica e financeira. Uma crise que apenas pode ser superada pela via do socialismo. Aqui, por ocasião de um precedente Fórum em Porto Alegre, ao qual fui convidado, declarei pela primeira vez o caráter socialista da revolução bolivariana.

Pedimos a Obama respeito. Porque ele já começou mal, fazendo declarações e dizendo que ‘Chávez é um obstáculo’. Mas, repito, estamos esperando, vamos ver como age. Aplaudimos o fechamento da prisão de Guantánamo, mas muito mais pode ser feito, devolver o território da base de Cuba ao seu povo, ou pelo menos, retirar as tropas da base, desmilitarizá-la. Aí sim seria um sinal positivo. Um sinal de boa vizinhança com toda a América Latina.

Aqui, um novo mundo está nascendo. E quem tem olhos que veja. A Utopia de Tomás Morus – o dizia Bolívar – está aqui, na América Latina, a utopia de um mundo melhor, de um novo mundo está nascendo aqui. Mas, é como um bebê, necessita de proteção e apoio. E a Venezuela está dispota a aportar todo o seu apoio aos processos de transformação social em curso. E trabalhar na consolidação de todos os processos de integração da América do Sul. Porque a integração dos países, dos povo e dos movimentos sociais nos farão mais fortes, mais resistentes, mais progressistas ».

Como conclusão:

Joao Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST):

"Os governos de esquerda latino-americana aqui representados devem avançar ainda mais em mudanças estruturais. Falar de ‘transformação social’ e de ‘processos de mudança’ é ótimo, mas não devem ser apenas discursos. É preciso que aconteçam mudanças estruturais. Para que não se haja recuos. É preciso nacionalizar os bancos. O Estado deve tomar o controle dos mecanismos financeiros.

É preciso construir uma moeda sul-americana que nós propomos que se chame ‘maíz’, porque é o símbolo da soberania alimentar dos povos originários. É preciso fazer uma verdadeira reforma agrária para garantir a soberania alimentar de nossos povos com uma agricultura de um novo tipo, respeitosa com o meio ambiente, e não orientada exclusivamente para exportação. É preciso construir um novo modelo econômico. É preciso democratizar os meios de comunicação.

Os movimentos sociais sempre apoiarão os governos da verdadeira esquerda sul-americana que se comprometam e avancem na realização dessas mudanças estruturais, indispensáveis para construir o socialismo do Século 21 que todos precisamos".

IHU/Unisinos – 11/2/2009 – www.unisinos.br/_ihu



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