Golpe de Estado contra a democracia

5 de Dezembro de 2011 por Jérôme Duval

A austeridade contra a democracia

Vacilante, a democracia faz triste figura e tende a naufragar; em pano de fundo, um bipartidarismo institucionalizado ao serviço dos credores. Toda a Europa caminha para uma mesma política de austeridade desejada pelos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Banco central Estabelecimento que, num Estado, tem a seu cargo em geral a emissão de papel-moeda e o controlo do volume de dinheiro e de crédito. Em Portugal, como em vários outros países da zona euro, é o banco central que assume esse papel, sob controlo do Banco Central Europeu (BCE). Europeu. Apesar de o exemplo grego provar que a austeridade não funciona (pelo menos para a população grega), quando finalmente se abrem as urnas de voto, são aplicadas as mesmas políticas, seja quem for o eleito. O povo já nada escolhe. A política económica é tecida de antemão pelos credores, como na Irlanda ou em Portugal, na véspera das eleições. A Troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. (Comissão Europeia, Banco Central Europeu Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma insitituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
e Fundo Monetário Internacional) impõe suas políticas; ao candidato vencedor nas eleições cabe aplicá-las, enganando o eleitor sobre alguma inexistente diferença entre os partidos, em matéria de economia.

Na Espanha, Mariano Rajoy, herdeiro de Aznar, não se atreveu a divulgar as futuras medidas de austeridade, que lhe prejudicariam a campanha eleitoral. Mal acabou de ser eleito, ainda a ser pressionado para revelar a composição do seu governo e antes mesmo de tomar posse |1|, ei-lo já a reunir com os grandes banqueiros espanhóis - Isidro Fainé da Caixa, Francisco González do segundo banco espanhol, o BBVA, e Rodrigo de Rato, presidente do Bankia e ex-director geral do FMI... Os grandes bancos credores da dívida espanhola seguram as rédeas, Mariano Rajoy gesticula.

Trata-se sem qualquer dúvida de uma ditadura que se vai impondo, como na Grécia, onde a extrema direita fascista (partido Laos) se imiscui no poder, sem mandato recebido das urnas. Entretanto assistimos ao licenciamento de responsáveis políticos que, em vez de serem julgados pelas suas políticas antissociais, as quais jamais mencionaram nos programas eleitorais, são salvos da vingança do povo, depois de terem feito o trabalho sujo. Aconteceu com Berlusconi, que encontrou uma saída airosa, apesar de muitos, com certeza, preferirem vê-lo atrás das grades pelo muito que fez sofrer o povo, condenado também a reembolsar todo o dinheiro que desviou e roubou do contribuinte italiano.

Banco Central Europeu, Itália, Grécia, a dança das cadeiras dos ex-responsáveis da Goldman Sachs

Um paladino da privatização, à testa do Banco Central Europeu

Custe o que custar, incluindo sacrifícios humanos inauditos, a ideologia capitalista ávida de lucros reforça sua dominação em toda a Europa. Durante o mês de novembro de 2011, muitos responsáveis pela débâcle financeira europeia foram empossados, mesmo sem terem sido eleitos. Mario Draghi acaba de ser nomeado para o Banco Central Europeu; Lucas Papadémos caiu de pára-quedas na chefia do Estado grego; e Mario Monti substitui formalmente um Berlusconi já excessivamente impopular para dirigir a Itália. Nenhum desses personagens jamais recebeu um voto, nenhum se comprometeu a cumprir um programa, nada de campanha eleitoral que permitisse discussão ou debate. Mas sobre cada um deles pesa uma parte da responsabilidade pela crise que pretendem resolver, nomeadamente por terem feito parte da atmosfera sulfurosa do banconorte-americano Goldman Sachs, rei das burlas astronómicas. Mario Draghi, enquanto vice-presidente europeu do Goldman Sachs Internationale, Lucas Papadémos, enquanto presidente do Banco Central da Grécia, e Mario Monti, enquanto conselheiro internacional do Goldman Sachs, todos três provocaram, em diferentes graus, a crise europeia, ajudando a falsificar as contas da dívida grega e especulando sobre ela |2|. Carregam pesadas responsabilidades na criação da crise em curso na Europa; por isso, deveriam ser demitidos dos cargos que ocupam e responder pelos seus actos perante a justiça.

Na Grécia, o falsificador das contas apresenta-se para saneá-las

Apesar de ter tentado a todo custo manter-se no poder e adiar as eleições gerais, motivo pelo qual propôs um referendo ao povo grego, que clamava pela sua demissão, Georges Papandreou teve de curvar-se sob pressões que vinham de todos os lados, até de dentro de seu próprio governo. Não esqueçamos que um mês apenas depois de Papandreou ter sido eleito em outubro de 2009, Gary Cohn, número 2 de Goldman Sachs, desembarcou em Atenas, acompanhado de investidores, entre os quais John Paulson, que reaparecerá no centro do que ficou conhecido como «o escândalo Abacus»… |3|

Favorito do mundo dos negócios, dos banqueiros e parceiros internacionais, Lucas Papadémos deixa a vice-presidência do Banco Central Europeu para tornar-se novo primeiro-ministro da Grécia, sem ter sido eleito. Foi presidente do Banco Central Grego entre 1994 e 2002 e, nesse cargo, participou da operação de adulteração das contas perpetrada por Goldman Sachs. Note-se que o gestor da dívida grega é um tal Petros Christodoulos, ex-corretor do Goldman Sachs.

Já não cabe duvidar da perda de soberania da Grécia: no seguimento das missões periódicas da Troika (BCE, CE, FMI) que visitavam os ministérios na capital, haverá agora uma missão permanente, domiciliada em Atenas, para implantar, controlar e supervisionar a política económica do país. O governo que se porte bem! Para melhor firmar o jugo, a Troika prevê um novo plano de endividamento, uma vez que o primeiro memorando (cerca de 110.000 milhões de euros, em maio de 2010), anticonstitucional, pois não foi aprovado pelo Parlamento, não foi totalmente reembolsado. A garra da dívida fecha-se inexoravelmente sobre o povo grego.

Na Itália, depois de uma década de decadência da democracia, o conselheiro da Coca Cola aplica o golpe de misericórdia

Ao longo de quase nove anos na presidência do Conselho, o império Berlusconi, terceira fortuna da Itália |4|, marcou profundamente a vida política. O seu reinado marca a decadência e a agonia de uma democracia exaurida. Coberto de ridículo pela imprensa internacional graças aos seus casos de alcova, soterrado sob histórias infindáveis de corrupção e com a popularidade em queda livre, Berlusconi renuncia à presidência do Conselho, dia 12 de novembro de 2011, para não ter de convocar eleições antecipadas. No dia seguinte, o presidente italiano Giorgio Napolitano nomeia o ex-comissário europeu Mario Monti para que assuma imediatamente. Poucos dias antes, dia 9/11/2011, Napolitano já nomeara Monti senador vitalício. Monti obtém larga maioria na Câmara de Deputados no dia 18/11/2011 (556 votos contra 61, de 617 votantes). Sem se intimidar ante o cúmulo de funções, já primeiro-ministro, autonomeia-se também ministro da Economia. Mario Monti não tem qualquer legitimidade para impor qualquer política de austeridade aos italianos. Houve um putsch!

Conselheiro para negócios internacionais do Goldman Sachs desde 2005 (na qualidade de membro do Research Advisory Council do Goldman Sachs Global Market Institute), Mario Monti foi nomeado comissário europeu para o mercado interno em 1995, depois comissário europeu para a Concorrência em Bruxelas (1999-2004). É presidente da Universidade Bocconi em Milan, membro da direcção do poderoso Clube Bilderberg, do think tank neoliberal Bruegel fundado em 2005, do præsidium Friends of Europe, outro influente think tank com sede em Bruxelas, e conselheiro da Coca Cola. Em maio de 2010, chegou à presidência do departamento Europa da Trilateral, um dos mais poderosos cenáculos da elite oligárquica internacional.

Como escreveu Giulietto Chiesa no jornal de esquerda Il Fatto Quotidiano |5|, veio para «reeducar» os italianos na religião da dívida. Dentro do governo cercou-se de banqueiros; o seu ministro dos Assuntos Estrangeiros, Giulio Terzi di Sant’agata, foi conselheiro político da OTAN, antes de ser embaixador em Washington. Para rematar, um novo superministério encarregado do Desenvolvimento Económico, da sInfraestruturas e dos Transportes foi entregue a Corrado Passera, PDG do banco Intesa Sanpaolo.

Por todos os lados, os interesses privados da oligarquia financeira ultraconservadora e amiga de Washington estão postos acima e antes dos interesses das populações. Esses governos fantoches obedecem aos diktats da finança, forçando os cidadãos a pagar uma dívida injusta pela qual não são responsáveis e que jamais lhes valeu qualquer benefício. A salvação só poderá vir de baixo. Façamos nossa a palavra de ordem dos gregos: «Não devemos, não vendemos, não pagamos!» |6|

Coletivo de tradutores Vila Vudu , Tlaxcala revisto por Rui Viana Pereira


Notas

|1| Tomada de posse prevista para dia 20 de dezembro. Como é uso no reino, o rei deverá ser o primeiro a ser informado sobre o governo.

|2| Goldman Sachs recebe remuneração do governo grego pelo serviço de aconselhamento bancário, ao mesmo tempo que especula com a dívida do país. Provavelmente passa-se o mesmo com o banco comercial JP Morgan, que auxilia a Itália a optimizar as contas (Marc Roche, La Banque, comment Goldman Sachs dirige le monde, Albin Michel, 2010, p.19).

|3| Ibid, p.23.

|4| 118ª fortuna do mundo, a família Berlusconi detém 7.800 milhões de dólares (Forbes).

|5| Giulietto Chiesa, «E’ il governo Napolitano-Monti-Goldman Sachs», 12/11/2011, Il Fatto Quotidiano. Versão francesa, Courrier International, 14/11/2011, «Super Mario, l’homme qui roule pour la BCE».

|6| Apelo Sol - Syntagma

Autor

Jérôme Duval

membro do CADTM (www.cadtm.org) e da PACD (Plataforma de auditoria cidadã da dívida em Espanha, http://auditoriaciudadana.net/). Autor, com Fátima Martín, do livro Construcción europea al servicio de los mercados financieros, Icaria Editorial 2016; é também co-autor da obra La Dette ou la Vie (Aden-CADTM, 2011), livro colectivo coordenado por Damien Millet e Eric Toussaint que recebeu o Prémio do Livro Político na Feira do Livro Político de Liège em 2011.


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