Grécia: a coligação de esquerda radical ganha em todas as grandes cidades e na faixa etária dos 18-35 anos

A suspensão do pagamento da dívida e a anulação dos planos de austeridade foram as bandeiras centrais da campanha do Syriza

8 de Maio de 2012 por Eric Toussaint


1. Os resultados

O Syriza, coligação da extrema esquerda, torna-se o segundo «partido» e passa dos anteriores 4,5% nas eleições de 2009 para 16,8% dos votos (52 deputados em vez de 13). É o partido mais votado em todas as grandes cidades. É a lista que recebeu mais sufrágios na faixa etária dos 18 aos 35 anos.

O partido socialista (PASOK) perdeu 2/3 dos votos que tinha obtido em 2009 (passa de 44% para 13,2%; perde 119 deputados, passando de 160 para 41 lugares no parlamento!). O PASOK paga com língua de palmo em termos de votos a sua política de austeridade, a sua submissão aos interesses das grandes empresas privadas e da Troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. .

A Nova Democracia, principal partido da direita e que fez parte do governo a partir de Dezembro de 2011, partido mais votado nestas eleições, também perdeu uma enorme parte dos seus votos – passa de 33,5% para 18,9%. Em termos de lugares no parlamento, melhora em virtude de uma regulamentação escandalosa da lei eleitoral grega, que atribui um bónus burocrático de 50 deputados ao partido mais votado. Desta forma a Nova Democracia, que perdeu 40% dos seus votos, ganha 17 deputados (passa de 91 deputados a 108). Além disso convém recordar que na véspera das eleições de 6 de Maio a Nova Democracia apenas tinha 71 deputados, por ter sofrido numerosas deserções. O PASOK por seu lado viu fugir 31 deputados entre 2010 e 2012, em protesto contra a sua orientação política. Embora a Nova Democracia apenas tenha 2,1% mais que o Syriza, obtém mais do dobro dos lugares no parlamento (108 para Nova Democracia contra 52 para Syriza).

A Aurora Dourada, grupúsculo neonazi com grupos de choque, conseguiu entrar para o parlamento. Passou de praticamente nada para 7% dos votos e 21 deputados. Vai dispor de fundos públicos para se consolidar.

O partido comunista KKE progride muito lentamente (passando de 7,5 a 8,5%, ganha deputados, aumentando os anteriores 21 para 26).

A Esquerda Democrática (DIMAR – cisão do Syriza em 2010-2011) obtém 6% dos votos e 19 deputados.

Os Verdes não obtém o limiar de votos necessário para ter deputados (3%). O mesmo acontece com o partido de extrema direita Laos, que pagou cara a sua participação no governo (tinha 17 deputados nas últimas eleições).

O Antarsya (coligação de extrema esquerda) parece ter estagnado nos 1,1%.

À esquerda do PASOK: Syriza + PC (KKE) + Dimar = 97 lugares, em vez dos anteriores 34 lugares resultantes das eleições de 2009. Parece ser o resultado mais importante à esquerda do Pasok desde 1958.

Aurora Dourada, partido de extrema direita, obtém 21 lugares em vez dos anteriores 17 do Laos em 2009 (o Laos não alcança o limiar dos 3% – os seus eleitores decidiram castigá-lo pela participação no governo de Dezembro-2011 a Janeiro-2012).

2. Comentários parciais

O resultado dos neonazis é muito preocupante (ver análise do contexto e sua rápida evolução, por Yorgos Mitralias).

O principal facto resultante deste escrutínio é o resultado do Syriza, que é muito positivo, uma vez que esta coligação pôs à cabeça das suas propostas/reivindicações: a suspensão imediata e incondicional do pagamento da dívida grega durante 3 a 5 anos, a anulação das medidas de austeridade impostas desde 2010, a ruptura dos acordos com a Troika, a nacionalização duma parte considerável do sector bancário, a necessidade de constituir um governo de esquerda para pôr estas medidas em prática. Vários deputados do Syriza apoiam activamente a auditoria cidadã da dívida grega e a necessidade de anular as dívidas ilegítimas. Falamos nomeadamente de Sofia Sakorafa, que rompeu com o Pasok em 2010 para protestar contra a austeridade. Veremos se o Syriza mantém esta orientação depois do seu enorme sucesso eleitoral. O que é muito encorajador é que uma parte importante do eleitorado apoiou as suas propostas radicais. Veremos se o Syriza está à altura deste formidável apoio popular. A tarefa não será fácil, porque até agora o KKE, com o qual seria necessário realizar uma aliança, recusou peremptoriamente, acusando o Syriza de pseudo-revolucionário e remetendo-se a um isolamento impante.

Ver os resultados definitivos das eleições em:
http://www.guardian.co.uk/news/datablog/interactive/2012/may/06/greece-elections-results-map

O mapa dos círculos eleitorais publicada pelo Guardian é muito útil. O leitor pode clicar em cada círculo eleitoral para ver os resultados.

Ver também os resultados de 2009 e 2012 em: http://fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89lections_l%C3%A9gislatives_grecques_de_2012

Traduccão : Rui Viana Pereira + Rodrigo Avila



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Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015. Após a sua dissolução, anunciada a 12/11/2015 pelo novo presidente do Parlamento grego, a ex-Comissão prosseguiu o trabalho sob o estatuto legal de associação sem fins lucrativos.

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