Grécia : uma capitulação portadora de ameaças mortíferas

7 de Setembro de 2015 por Yorgos Mitralias

Carlos ZGZ - Flickr/cc

O que é mais aflitivo na situação grega actual é que o conjunto dos dirigentes da esquerda grega não parecem compreender a profundida da catástrofe já instalada pela capitulação do governo de Tsipras face aos credores do país. Com efeito, a campanha eleitoral continua com as suas invectivas e recriminações habituais, sem nenhuma referência a esta catástrofe, e menos ainda às suas consequências a médio e longo prazo. Mais grave ainda, sem que ninguém faça a mínima das referências às tarefas concretas e urgentes que a catástrofe impõe à esquerda grega e aos seus militantes.

Todavia, é impossível que a confusão da actual paisagem da esquerda grega passe desapercebida já que até magoa a vista. De um lado, a hemorragia no actual Syrisa “geneticamente modificad” passa os piores receios dos promotores dessa “normalização”. Dia após dia, centenas de quadros, deputados, membros do Bureau Político, do Comité Central, da direcção ds Juventude, da fracção sindical e de outros órgãos do partido batem com a porta e afastam-se, denunciando violentamente a “traição” do governo Tsipras.

Se a esmagadora maioria dos que batem com a porta do partido aderem à Unidade Popular recentemente constituída, o mesmo não acontece com os milhares e milhares de “anónimos” que saem discretamente, completamente desorientados, desiludidos ou mesmo encolerizados. O resultado disso está já na frente dos nossos olhos: o afundamento do Syrisa nas sondagens e a verdadeira ressurreição da direita tradicional da Nova Democracia que ambiciona já vencer este Syriza precocemente envelhecido e desconsiderado.

Do outro lado, a Unidade Popular dos dirigentes da Plataforma de Esquerda do Syriza que fez a cisão não parece inspirar nem as massas decepcionadas nem as outras forças políticas que se opõem aos Memoranda e que, “normalmente”, a deveriam integrar. O campismo exorbitante do seu principal dirigente (Lafazanis) misturado como um certo hegemonismo das forças de extrema-esquerda com menos força eleitoral (Antarsya e outras), afasta eventuais parceiros e acentua não apenas a dispersão eleitoral da esquerda contra o memorandum mas também o desencorajamento geral que empurra as pessoas de esquerda e sobretudo os que se tinham juntado ao Syriza nas últimas eleições, a voltar as costas à política e aos partidos e a fecharem-se sobre si mesmos.

Se se acrescentar a isto o facto do PC grego (KKE) ter feito da Unidade Popular e de Lafazanis o seu principal inimigo que ataca dia e noite com expressões de uma rara violência, e que Antarsya decidiu apresentar listas próprias às próximas eleições, compreende-se melhor porque a palavra “repugnância” domina as discussões entre as pessoas de esquerda e os (ex) eleitores do Siryza. Portanto, dado que tudo indica que depois das eleições este Siryza “geneticamente modificad” fará parte de um governo de coligação com um ou mais partidos neo-liberais (Tsipras acabou de apontar o PASOK como possível parceiro governamental), e que tal governo terá como programa a aplicar o terceiro – e o mais duro – dos Memorandum, tudo se compõe para a “repugnância” quase generalizada dê lugar a um pesadelo “todos iguais” e “todos corruptos” que – evidentemente – é a paisagem ideal para a extrema-direita. No caso grego, a Aurora Dourada já bem implantada e em ascensão.

Este “distanciamento” da esquerda grega de qualquer sensibilidade não nos deve espantar se nos lembrarmos que esta mesma esquerda (salvo raras excepções) não compreendeu a ameaça mortal que constitui a Aurora Dourada neonazi a não ser após as suas vitórias eleitorais! Na realidade, os dirigentes do Siryza nunca compreenderam que o seu próprio sucesso eleitoral não era outra coisa que não a outra face da moeda do sucesso da Aurora Dourada, pois as enormes fracturas de que ambos os partidos foram o resultado, bem como a ilustração da procura desesperada de soluções radicais, nos extremos da carta política do país, por parte de grande parte da população pauperizada, radicalizada e em cólera.

Os dirigentes do Syriza nunca compreenderam nada disto e, por isso, imaginaram que o sucesso se devia às suas … extraordinárias capacidades políticas e outras. Este enorme mal entendido não tinha grande importância prática enquanto tudo ia bem e a dinâmica ascensional do Syriza continuava. Mas, agora na hora da verdade, os ajustes de contas com a história e os amanhãs que já não cantam ditam outras coisas. Nesta sociedade grega que, há bastante tempo, se parece como duas gotas de água à Alemanha da República de Weimar em agonia, o próximo movimento do pendulo político poderá muito bem conduzir à extrema-direita! Tanto mais que a esquerda radical no governo acabou de dar mostras da sua incapacidade de resposta às expectativas da população e que a sociedade grega tradicionalmente muito conservadora volte aos seus velhos reflexos que fizeram que a Aurora Dourada … não tenha caído do céu.

A conclusão é também um aviso. Só a tomada de consciência da extensão excepcional da catástrofe provocada pela capitulação do Syriza e do seu governo poderia conduzir ao que resta da esquerda radical grega definir – muito depressa – as tarefas que correspondem à urgência do momento. A hora não é de triunfalismos mas antes de análise rigorosa da situação criada depois da capitulação de 13 de Julho e das consequências que tem, que vai ter, na condução política e social das populações, e sobretudo das classes médias arruinadas e radicalizadas na Grécia. Nesta óptica, todo o sectarismo que conduz ao atual esfrangalhamento extremo das forças da esquerda radical equivale a um verdadeiro suicídio que faz a cama à extrema-direita neonazi. Do mesmo modo, qualquer atitude conciliadora a respeito da esquerda que capitulou e está em processo de se social-democratizar equivale também a um suicídio, pois deixa o terreno livre à extrema-direita que pode bem verificar a veracidade da sua palavra de ordem principal “todos iguais-todos corruptos”.

Em suma, aplica-se agora mais que nunca a injunção de Gramsci de aliar “o pessimismo da razão ao optimismo da vontade” que deveria guiar a esquerda radical grega…


Tradução: Antonio Dores

Autor

Yorgos Mitralias

O jornalista, Yorgos Mitralias é membro fundador do Comitê contra a Dívida Grega, organização afiliada do Comitê para a Anulação da Dívida dos Países do Terceiro Mundo (CADTM) e da Campanha grega para a auditoria da dívida.


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