Na Grécia começou a corrida contra-relógio

16 de Julho de 2012 por Roxanne Mitralias


Na Grécia fizemos muitas manifestações, fizemos imensas greves – mesmo aqueles que não costumavam fazê-las -, reunimo-nos nas praças entre jovens, reformados, desempregados, pequenos comerciantes – mas deixámo-nos gazear com milhares de bombas lacrimogénias e fomos batidos a golpes de matraca - , tentámos auto-organizarmo-nos para podermos comer, para nos curarmos, para nos deslocarmos, negociando directamente com os camponeses, fazendo todo o tipo de trocas e até criando novas moedas. E enfim fomos votar. Ou melhor, tentámos votar. Por duas vezes.

Mas na Grécia também tivemos medo, também desesperámos e enraivecemos, muitas vezes sem o compreender. Por que seremos nós o laboratório da Europa neoliberal?

A Troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. , a igreja, os armadores, os políticos corruptos e seus amigos mafiosos de grande escala utilizaram todos os meios para nos fazer medo. Criaram bodes expiatórios transformando os estrangeiros em inimigos, estigmatizaram as prostitutas fazendo crer que elas seriam responsáveis pelo aumento de casos de sida. Utilizaram a intimidação – como no caso do banco que aconselhou os seus empregados a não votar contra as políticas de austeridade pois perderiam o emprego -, mentiram ao inverter as sondagens para pôr em primeiro lugar a direita, fizeram chantagem dentro e fora do país martelando a ameaça: “ou aceitas passar fome ou sais do euro”. E conseguiram, por enquanto, ganhando as eleições de 17 de Junho passado. 2,5% separam a Nova Democracia, a direita, de Syriza, a coligação de esquerda radical.

Agora é a corrida contra-relógio entre os pro-memorando e os anti-memorando. A população está a beira do abismo: estamos diante de uma crise sanitária, alimentar, económica e social, mas também ecológica: já não há medicamentos, os cuidados de saúde públicos cada vez mais caros, 900 euros para um parto, 4000 por uma cirurgia. Filas de espera intermináveis para alguns legumes, invasões de supermercados, salários por pagar para centenas de milhares de gregos, os impostos e os preços sempre a aumentar. O desemprego ou a emigração para os jovens. E também os imigrantes e os militantes de esquerda que sofrem ataques violentos e incessantes das milícias neonazis da Aurora Dourada, filhas aterrorizadoras dos memorandos e desta sociedade em colapso.

Agora é a corrida contra-relógio. Porque eles vão tentar o mais depressa possível liquidar o nosso património, os nossos recursos mineiros, as nossas ilhas, a nossas florestas, a energia solar cuja exploração cedem gratuitamente aos seus amigos depois de destruir a regulamentação que os impedia. E porque se preparam ataques anti-sociais sem precedentes.

É por isso que na Grécia é preciso usar de todas as chances à nossa mão: está na altura de associar a oposição de esquerda no parlamento a um movimento social forte. Precisamos de levantar barreiras contra o que se anuncia, pois temos que nos opor à liquidação do nosso país, temos que deixar de pagar esta dívida ilegítima que consome 80% do orçamento, deixar de pagar as despesas extravagantes e inúteis dos governantes corruptos, deixar de aceitar o peso destes memorandos mortíferos. Para construir na Grécia e na Europa novas solidariedades, para iniciar mudanças ecológicas e sociais urgentes, só há uma maneira: coordenarmo-nos a nível europeu, lutar em conjunto contra todas estas injustiças e, em primeiro lugar, contra a dívida.

Tomada de posição de Roxanne Mitralias, membro do CADTM, membro da iniciativa grega de Paris, no dia 23 de Junho em reunião do colectivo francês para a auditoria cidadã à dívida pública Dívida pública Conjunto dos empréstimos contraídos pelo Estado, autarquias e empresas públicas e organizações de segurança social. .

(tradução de Leonor Areal)



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