Série : Os Estados ao serviço dos bancos sob o pretexto «Too big to fail» (parte 6)

Os grandes bancos privados dopados com LTRO

29 de Dezembro de 2014 por Eric Toussaint


A partir de 2012, os bancos com excesso de liquidez compraram massivamente títulos de dívida pública Dívida pública Conjunto dos empréstimos contraídos pelo Estado, autarquias e empresas públicas e organizações de segurança social. dos seus países (a aquisição de títulos de dívida pública soberana não necessita de fundos próprios Fundos próprios Capitais colocados ou deixados pelos accionistas à disposição duma empresa. Há que distinguir entre fundos próprios em sentido restrito, também chamados capital próprio, e os fundos próprios em sentido lato, que incluem também as dívidas subordinadas de duração ilimitada. , porque se considera que esses títulos não representam qualquer risco. Isso permite reduzir o capital na proporção do balanço total do banco – ou dos ativos totais, o que é o mesmo [1]). Tomemos como exemplo o caso espanhol. Os bancos espanhóis pediram emprestado ao BCE Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma insitituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
300 mil milhões de euros, a 3 anos, à taxa de 1 %, no âmbito do LTRO. [2] Uma parte desse montante permitiu-lhes aumentar as suas compras de títulos de dívida, emitidos pelas autoridades espanholas. A evolução é, de facto, impressionante: em finais de 2006, os bancos espanhóis adquiriam títulos públicos do seu país por apenas 16 mil milhões de euros. Em 2010, obtinham-nos por 63 mil milhões de dólares. Em 2011, mantiveram as compras. Os títulos espanhóis na sua posse equivaliam a 94 mil milhões. Graças ao LTRO, as suas aquisições explodem literalmente e o montante que detinham duplica no prazo de alguns meses, chegando a 184,5 mil milhões de euros em 2012. [3] Trata-se de uma operação muito rentável para os bancos: ao mesmo tempo que pediam emprestado a 1 %, compravam títulos espanhóis a 10 anos, com juros que variavam entre 5,5 e 7,6 %, no segundo semestre de 2012. No início de 2014, os bancos espanhóis contraíam empréstimos a 0,25 %, e, em seguida, emprestavam ao Estado espanhol a cerca de 4 %. Em junho de 2014, pediam emprestado a 0,15 % e emprestavam a cerca de 3 %. Em novembro de 2014, contraíam empréstimos junto do BCE a 0,05 % e emprestavam a cerca de 2,1 % à Espanha. [4].
Observemos, de seguida, o exemplo de Itália. Entre finais de dezembro de 2011 e março de 2012, os bancos italianos pediram emprestado ao BCE 255 mil milhões de euros no âmbito do LTRO. [5] Apesar de, em finais de 2010, os bancos italianos adquirirem títulos públicos do seu país a 208,3 mil milhões de euros, o montante sobe para 224,1 mil milhões no final de 2011, poucos dias após o início do LTRO. Em seguida, usam massivamente os empréstimos que recebem do BCE para comprarem títulos italianos. Em setembro de 2012, compram-nos por 341,4 mil milhões de euros. [6] Como no caso espanhol, trata-se de uma operação muito rentável: pedem emprestado a 1 % e compram títulos italianos a 10 anos, conseguindo juros que variam entre 5 e 6,6 % no segundo semestre de 2012. Em março de 2014, os bancos italianos pedem emprestado a 0,25 % ao BCE e emprestam a 3,4 % ao Estado italiano. A partir de junho de 2014, pedem emprestado a 0,15 % e emprestam a cerca de 3 % a Itália. Em novembro de 2014, pedem emprestado ao BCE a 0,05 % e emprestam a Itália a 2,3 %. [7]
O mesmo fenómeno ocorreu na maioria dos países da zona euro Zona euro Zona composta por 18 países que utilizam o euro como moeda: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letónia (a partir da 1-01-2014), Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Portugal, Eslováquia e Eslovénia. Os 10 países membros da União Europeia que não participam na zona euro são: Bulgária, Croácia, Dinamarca, Hungria, Lituânia, Polónia, República Checa, Roménia, Reino Unido e Suécia. . Deu-se uma relocalização de parte dos ativos dos bancos europeus nos seus países de origem. Na realidade, constata-se que, entre 2012 e 2014, a parcela de dívida pública de um país possuída pelas instituições financeiras do mesmo país aumentou significativamente. Esta evolução tranquilizou os governos da zona euro, em particular os de Espanha e de Itália, porque constataram que teriam menos problemas se vendessem aos bancos os títulos públicos que emitiam. O BCE parecia ter encontrado a solução. Emprestando massivamente aos bancos, salvava-os de uma situação crítica e evitava que alguns Estados se lançassem em novos planos de resgate bancário. [8] O dinheiro emprestado aos bancos era em parte utilizado para comprar títulos de dívida pública aos Estados da zona euro, o que fez travar o aumento das taxas de juro Juro Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada. dos países mais vulneráveis e provocou mesmo uma baixa das taxas nalguns países.
Percebe-se perfeitamente que, do ponto de vista dos interesses da população dos países em causa, dever-se-ia adotar uma abordagem completamente diferente: o BCE deveria emprestar diretamente aos Estados a menos de 1 % ou mesmo sem juros. Dever-se-ia também socializar os bancos, colocando-os sob controlo dos cidadão. Em vez disso, o BCE colocou os bancos privados sob observação, concedendo-lhes uma linha de crédito ilimitada com taxas de juro muito baixas. Os bancos fizeram diferentes usos desse maná do financiamento público. Como vimos, por um lado, compraram títulos soberanos de países que, como Espanha e Itália, foram obrigados a oferecer-lhes remunerações elevadas (entre 5 e 7,6 % a 10 anos em 2012, entre 3,4 e 4 % no primeiro trimestre de 2014, entre 2,1 e 2,3 % em novembro de 2014).
Por outro lado, colocaram uma parte do crédito que lhes foi concedido pelo BCE... no BCE! Entre 300 a 400 mil milhões foram depositados pelos bancos, todos os dias, no BCE a uma taxa de 0,25 %, no início de 2012. Em fevereiro de 2014, mais de 50 mil milhões foram depositados, por dia, no BCE a 0 %. Em junho de 2014, o BCE decidiu finalmente que os bancos, que lhe entregavam diariamente dinheiro para o manterem em segurança, deveriam pagar uma taxa de 0,10 % (alguns meses mais tarde, a taxa subiu para 0,20 % [9] ). Oficialmente, a medida visa também levar os bancos a emprestarem o dinheiro que possuem às PME e às famílias, em vez de o entregarem ao BCE. Constata-se, no entanto, que isso não aconteceu. Os empréstimos às PME e às famílias estagnaram ou estão em queda, dependendo do país.
Porque razão os bancos confiam a sua liquidez ao BCE? Porque é uma maneira de mostrarem aos outros banqueiros e aos outros fornecedores privados de crédito (Money Market Funds, fundos de pensão, companhias de seguros), aos seus credores em geral, aos seus acionistas, às autoridades de supervisão... que dispõem de cash em permanência para fazerem face às bombas ao retardador que possuem nas suas contas. Se não tivessem esse cash disponível, os seus potenciais credores afastar-se-iam ou imporiam taxas muito elevadas. Os detentores de ações revenderiam e os seus preços entrariam em colapso.
Com o mesmo objetivo de tranquilizar os credores privados e compradores das suas ações em Bolsa, os bancos compram também títulos soberanos dos Estados que não representam risco a curto ou médio prazo: Alemanha, Holanda, França... Mostram-se tão desejosos, que esses Estados podem dar-se ao luxo de lhes venderem títulos a 2 anos, a uma taxa de 0 % ou mesmo ligeiramente negativa (se tivermos em conta a inflação, o rendimento real é ainda mais negativo). Para obter crédito a 10 anos, a Alemanha pagava, no início de 2014, juros de 1,6 %; em julho de 2014, esse valor era de 1,4 %; no início de agosto de 2014 passou para 1,2 %; em meados de Novembro de 2014, para 0,8 %. São taxas historicamente baixas. Os juros pagos pela Alemanha e por outros países considerados financeiramente sólidos diminuíram significativamente devido à política do BCE e ao agravamento da crise nos países da periferia. Tem-se assistido a uma fuga de capitais da periferia europeia para o centro.
Os títulos alemães são tão fiáveis e procurados, que, em caso de necessidade de cash, podem ser revendidos de um dia para o outro, sem perda. Os bancos adquirem-nos, não para ganharem dinheiro, mas para terem em permanência no BCE, ou sob a forma de títulos de facto líquidos, uma quantidade de dinheiro disponível, de modo a darem uma impressão (muitas vezes falsa) de solvência e de capacidade de lidarem com eventuais imprevistos. Os bancos realizam enormes lucros emprestando à Espanha, à Itália e a outros países mais enfraquecidos da UE. Isso contrabalança os baixos rendimentos dos títulos alemães (se bem que, pedindo emprestado a 0,05 % e emprestando a 0,8 %, ainda consigam obter benefícios não negligenciáveis).
Segundo Eric Dor, diretor de estudos económicos na IESEG School of Management, os bancos europeus mostram-se tão atraídos por títulos de dívida pública de Estados europeus que esses títulos representam agora várias vezes os seus fundos próprios. A partir de dados fornecidos pela EBA, autoridade europeia de supervisão bancária, Dor elaborou uma tabela que indica o nível de exposição dos bancos aos títulos soberanos. O ratio utilizado compara o volume de títulos de dívida pública possuído pelos bancos dum determinado país e os seus fundos próprios. [10]

Source des données EBA, calculs IESEG

(Legende tableau: “Montante líquido de dívida soberana Dívida soberana Dívida de um Estado ou garantida por um Estado. em percentagem dos fundos próprios CET1”; Bélgica, Chipre, Alemanha, Itália, Letónia, Holanda, Luxemburgo, Malta, Áustria, Reino Unido, Espanha, Portugal, Eslovénia, Suécia, França, Irlanda, Polónia, Hungria, Noruega, Dinamarca, Finlândia)

Fonte dos dados: EBA; cálculos: IESEG

Podemos constatar através desta tabela que a exposição líquida dos bancos belgas às dívidas soberanas eleva-se, em média, a 424 % dos seus fundos próprios, de longe a taxa mais elevada da União Europeia. Chipre aparece depois da Bélgica, a uma boa distância (341 %), seguido pela Alemanha (306 %) e pela Itália (304 %). [11]
Atenção, comparando o volume de derivados e de outros produtos estruturados, que se encontram nos balanços dos bancos, com os seus fundos próprios, deparamo-nos com ratios ainda mais preocupantes. [12] São sempre esses ratios que constituem o maior perigo para os bancos, perigo que os bancos mantêm.
É também verdade que a compra pelos bancos de títulos soberanos aumentou na sequência da política levada a cabo pelo BCE via LTRO.
Ao mesmo tempo que, em 2010-2011, os governos e o BCE mentiam à opinião pública, dizendo que os problemas dos bancos eram provocados por países como a Grécia e outros países periféricos, que ameaçava ser incapazes de pagar as suas dívidas, a política do BCE criou condições para esses bancos comprarem, ainda mais massivamente do que anteriormente, títulos da dívida pública, incluindo dos países da periferia. Na próxima crise, podemos estar certos que retomarão o refrão sobre o papel da dívida pública como causadora dos problemas dos bancos e da economia em geral.

Tradução: Maria da Liberdade
Revisão: Rui Viana Pereira



Éric Toussaint, docente na Universidade de Liège, preside ao CADTM Bélgica e é membro do conselho científico da ATTAC França. É autor dos livros Bancocratie, Aden, 2014, http://cadtm.org/Bancocratie; Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marselha, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010.

Notas

[1Este dispositivo deve ser relacionado com a ponderação dos ativos tendo em conta o risco que representam. Expliquei o assunto em http://cadtm.org/Os-Bancos-fazem-bluff-legalmente publicado a 24 de junho de 2013; http://cadtm.org/Bancos-boletim-de-saude-traficado, publicado a 1 de setembro de 2013. Ver também o meu livro Bancocratie, Aden, Bruxelas, capítulos 8 e 9. Para adquirir

[2Financial Times, «Banks plot early repayment of ECB crisis loans», edição de 15 novembro de 2012, p. 25.

[5Financial Times, ibid.

[7Ver http://www.bloomberg.com/quote/GBTPGR10:IND,
consultado a 18 novembro de 2014.

[8No entanto, convém não esquecer que as autoridades espanholas e italianas tinham recapitalizado fortemente vários bancos importantes em 2012-2014; o mesmo aplica-se à Grécia, Chipre, Portugal, Áustria, Holanda e Irlanda.

[10«Esse material estatístico permite calcular a exposição total de cada sistema bancário nacional às dívidas soberanas, independentemente do seu país de emissão. É particularmente interessante comparar essas exposições com os níveis totais de fundos próprios dos bancos em causa», in Eric Dor, «Les banques belges sont championnes d’Europe de l’exposition au risque souverain», 5 de novembro de 2014.

[11Ver a notícia da agência Belga redigida por Eric Walravens «Les banques belges championnes d’Europe de l’exposition au risque souverain», publicada a 5 de novembro de 2014

[12Ver Éric Toussaint, Bancocratie, ADEN, 2014, capítulos 16 e 17.

Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015. Após a sua dissolução, anunciada a 12/11/2015 pelo novo presidente do Parlamento grego, a ex-Comissão prosseguiu o trabalho sob o estatuto legal de associação sem fins lucrativos.

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