Portugueses na rua contra a Troika, o governo e o regime

5 de Março de 2013 por Maria da Liberdade


Milhão e meio de portugueses [1] de todos os grupos sociais e estratos etários saíram, este sábado, 2 de Março de 2013, à rua num movimento de censura às receitas da Troika (Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE)e Fundo Monetário Internacional (FMI)), às políticas neo-liberais do governo de centro-direita e ao regime que dizem já não os representar. Os números são avançados pelo movimento apartidário “Que se Lixe a troika, organizador das manifestações que se espalharam por quarenta cidades do país [2] e por várias outras no estrangeiro.

Foi um protesto pacífico, um desfile cantado, ao som de “Grândola, Vila Morena”, a cantiga-senha da Revolução do Cravos de 1974, que pôs fim a 48 anos de regime autoritário. Foi uma manifestação sem distúrbios, tendo sido detidas apenas duas pessoas, após o protesto, no Porto, junto à estação de metro da Trindade, suspeitas de pintarem edifícios bancários e monumentos. Foram, no entanto, libertadas sem acusação formada, após algumas horas de um estranho inquérito policial feito em parte incerta.

Os portugueses mostraram, em massa, o seu descontentamento face à ditadura financeira da Troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. , dando uma lição de cidadania, de democracia participativa e de soberania popular ao governo e aos funcionários do CE, do BCE Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma instituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
e do FMI que se encontram, no momento, no país, a efetuar a 7ª avaliação do “Memorando de (Des)Entendimento” (a ver pela dimensão das manifestações!) que foi assinado por Portugal em 2011. Demostrando que a apatia, a obediência e os brandos costumes, que agradam ao governo [3], não são uma fatalidade do povo português [4], o refrão “o povo é quem mais ordena” e o pregão de Abril “o povo unido jamais será vencido” foram entoados, repetidas vezes, por uma população que perdeu a paciência perante o falhanço das políticas de austeridade e das experiências laboratoriais, não legitimadas e impostas pelo governo e pela Troika. O governo falhou em toda a linha. O país bateu no fundo e ameaça implodir: o produto não cresce; a recessão dobra o previsto [5]; a riqueza diminui; o défice aumenta [6]; o desemprego atinge os 17,6% [7]; 24% dos portugueses vive no limiar da pobreza [8]; os cortes sociais batem o record europeu [9]; o ministro da saúde admite que o Serviço Nacional de Saúde (SNS), a pérola de Abril, pode acabar [10], apesar de os impostos e os juros da dívida dispararem e de o povo pagar cada vez mais um fosso que pode não ter fundo. Apesar do descalabro, o governo anunciou, entretanto, que é preciso cortar mais 4 mil milhões de euros para reformar o Estado nos próximos dois anos, crescendo o temor de novo ataque ao SNS, à escola pública, aos pensionistas e aos funcionários públicos, depois de, no ano passado, terem sido feitos cortes nos ordenados e nas pensões sem aviso eleitoral prévio.

Foram todas essas realidades sofridas, ameaças políticamente assumidas e repressões veladas que desencadearam o tsunami transversal, inorgânico e orgânico, deste sábado, em Portugal. Surgiram muitas marés de indignação: pequenas manifestações setoriais de profissionais da saúde, da educação, de reformados, de militares, de deficientes, de ativistas arco-íris, de feministas, de desempregados, de precários, de estudantes, de movimentos sociais, de todos os tipos e feitios, pela democracia participativa, contra a dívida. Surgiram pais, filhos, netos, avós, primos, tios, debutantes que resolveram saltar do sofá, artistas, músicos, bandas algazarra, cidadãos isolados para se sentirem acompanhados. Todos abraçaram o grande protesto, gritando “Esta dívida não é nossa”, é do “banqueiro”, “basta de viver à rasca!” nesta “Grândola, Vila Morena” que, segundo a cantiga, é “terra de fraternidade”. E foi essa grande fraternidade que o povo fez passar e que o governo deve ouvir e assimilar, pondo fim a políticas falhadas e a erros sucessivos de comunicação, de falta de diálogo e de desatenção às reivindicações dos cidadãos. É preciso perceber que o povo segue já por outro caminho. É que o verbo é criador e criativo e o povo encontrou-se, está vivo e resolveu “grândolar”. Talvez a harmonia do povo inspire, nesta segunda-feira, o fragilizado governo e o seu ministro das finanças, em Bruxelas, onde pretendem pedir mais um adiamento, mais tempo para suavizar os alegados cortes que prometem fazer. Talvez um Victor Gaspar legitimado pelo povo, esquecesse os credores, pensasse nos portugueses, suspendesse o pagamento e cortasse na dívida. Talvez recordasse às “Merkels” desta Europa, citando a Deutsche Welle, que a “História alemã mostra que não há milagre económico sem perdão de dívida” [11] e que o projeto europeu nasceu inspirado nos valores da solidariedade e da igualdade, não havendo “dois pesos e duas medidas” [12].

Talvez com os olhos postos na crise político-social que se vive no sul da Europa, berço da civilização e da globalização (Portugal, Espanha, Grécia, juntando agora a sintomática crise política italiana), a Europa, no seu todo, perceba que o modelo neo-liberal e capitalista de democracia vigente já não resolve, desrespeita o equilíbrio de poderes e está desvirtuado por representantes cada vez mais próximos de credores fictícios e cada vez mais afastados do verdadeiro credor que é o povo que deixou de se sentir representado.



Notas

[2Portugal tem 10,774,885 habitantes em 2013, dados retirados de http://www.por7ugal.net/

[11http://www.dw.de/hist%C3%B3ria-alem%C3%A3-mostra-que-n%C3%A3o-h%C3%A1-milagre-econ%C3%B4mico-sem-perd%C3%A3o-de-d%C3%ADvida/a-16630965. Ver também Toussaint Eric, Grécia-Alemanha : quem deve a quem ? (1) A anulação da dívida alemã : Londres, 1953 http://cadtm.org/Grecia-Alemanha-quem-deve-a-quem-1

[12Toussaint Eric, Allemagne-Grèce : deux poids, deux mesures - Voici 60 ans, l’annulation de la dette allemande http://cadtm.org/Allemagne-Grece-deux-poids-deux

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