Sofia Sakorafa: «Como não nos podem expulsar do euro, tentam que nós nos vamos embora»

14 de Junho de 2012 por Gemma Saura


A deputada mais votada da Syriza nas últimas eleições foi a antiga atleta olímpica que rompeu com a bancada do PASOK quando votou contra o primeiro plano da troika na Grécia. Nesta entrevista, Sofia Sakorafa defende uma auditoria à dívida e uma investigação política ao destino desse dinheiro.

A Syriza é uma coligação de diversos partidos, alguns dos quais defendem uma saída do euro. Não deviam estar unidos num tema tão crucial?

É muito saudável que haja num partido diferentes opiniões. A antítese é o Partido Comunista, onde há apenas uma linha dogmática e ninguém a pode discutir. Na Syriza há muitas opiniões. Discute-se e quando se decide uma linha todos a respeitam.

Até que ponto o euro é uma prioridade para a Syriza?

Queremos ficar na Europa e mudar por dentro os euilíbrios de poder e as duras políticas neoliberais que estão a ser decididas por um núcleo reduzido de políticos. Não iremos tolerar que o crescimento da Alemanha e da França se faça à custa da sobrevivência da Grécia ou outros povos, como Espanha. Estar na zona euro Zona euro Zona composta por 18 países que utilizam o euro como moeda: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letónia (a partir da 1-01-2014), Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Portugal, Eslováquia e Eslovénia. Os 10 países membros da União Europeia que não participam na zona euro são: Bulgária, Croácia, Dinamarca, Hungria, Lituânia, Polónia, República Checa, Roménia, Reino Unido e Suécia. não pode significar sacrificar o povo, que as pessoas morram à fome. A questão agora não é o euro. Estamos a lutar para sobreviver. E se ficar no euro significar a destruição da Grécia, teremos que sair.

Segundo uma sondagem, 78% dos gregos acredita que o Governo tem de fazer o que for preciso para manter o euro.

Não percebo como é que se pode querer permanecer no euro se o preço for um salário de 200 euros ao mês. Mas a Syriza não vai decidir pelo povo. Se a situação se tornar tão difícil e pensarmos que o melhor para a Grécia é sair, pediremos ao povo que se pronuncie nas urnas. Não vamos é dizer uma coisa e depois no Governo fazer outra.

A Syriza diz que a UE não se pode dar ao luxo de expulsar a Grécia do euro, mas na Europa cada vez mais gente acha que essa é a única solução.

Disseram-nos que se não aceitássemos a receita da troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. íamos morrer à fome e que se sairmos do euro não teremos futuro. Somos ameaçados por gente que não tem nenhum cargo na UE, como Schäuble, o ministro das Finanças alemão. E a cada ameaça seguiu-se um desastre. Alguém tem de dizer às pessoas que não existe um mecanismo para expulsar um membro da UE. Como não nos podem expulsar, tentam que nós nos vamos embora.

Porque se negam a renegociar o acordo com a troika, como sugerem agora o PASOK e a Nova Democracia?

O acordo não pode melhorar. O que há para melhorar se a destruição é quase total? Não há dinheiro para pagar as pensões, perderam-se os direitos laborais conseguidos durante séculos pelos povos da Europa… O acordo contradiz os princípios fundamentais da UE, os que falam da proteção dos direitos, da proteção social, a proteção das crianças…

Querem atirar para o lixo os acordos assinados?

Nós não dizemos que antigamente é que era bom. Também queremos reformas, que o país seja mais competitivo, o Estado mais funcional, que haja meritocracia. Mas o memorando destruiu o Estado. Já nada funciona. Os hospitais são um caos, não há funcionários para cobrar impostos. Queremos tempo para nos organizarmos e seguirmos em frente.

Também querem deixar de pagar juros.

Pedimos uma auditoria internacional da dívida. Disseram ao povo grego, que é quem paga, que tem uma dívida. Mas ninguém sabe como se formou o o que é que se está a pagar. Esclarecer qual a parte da dívida que é ilegal ou odiosa. Também deve haver uma investigação política: gastou-se naquilo que se disse? Por exemplo, sabemos que a empresa alemã Siemens conseguiu contratos na Grécia pagando um preço exagerado porque subornou políticos. Tudo isto tem de ser investigado porque foram os gregos a pagar, o mesmo povo que acusaram de ser mandrião e corrupto, de passar o dia a dançar apesar de todas as estatísticas mostrarem que somos os segundos da Europa com mais horas de trabalho.

Não falta autocrítica? Porque toleraram tantos anos a corrupção?

Não percebo por que castigam os gregos pela corrupção dos seus políticos, quando a Europa não castigou o povo alemão depois de uma guerra que matou milhões de pessoas e destruiu o continente. A Europa fez bem, a culpa não era do povo alemão mas dos seus políticos. A menos que a Grécia seja o único país onde há corrupção…

Que outras condições põe a Syriza à troika, para além da auditoria à dívida?

Há cinco pontos. Primeiro, a abolição do memorando, de todos os cortes e reformas laborais que estão a destruir o país. Segundo, a nacionalização dos bancos: a partir do momento em que recebam ajudas públicas, o Estado deve poder ter uma voz no seu conselho executivo, pelo menos até que o dinheiro seja devolvido. Terceiro, a mudança da lei eleitoral. Quarto, a abolição da imunidade para ministros. E quinto, a auditoria.

E se a troika disser não? Têm um plano B?

Vou responder com uma anedota. Uma mulher repara que o marido não dorme há vários dias. Ele diz-lhe que está muito preocupado porque deve dinheiro ao vizinho. Ela abre a janela e grita «Ó vizinho! O meu marido diz que te deve dinheiro. Não to podemos devolver». Fecha a janela e diz: «Agora é o vizinho que não consegue dormir». Isto só se consegue com uma auditoria à dívida. Temos de demonstrar que grande parte da dívida foi contraída de forma ilegal. Até a Alemanha reconhece que a sua economia está a beneficiar da situação grega. Estamos a comprar a 100% do seu preço as obrigações Obrigações Parte de um empréstimo emitido por uma sociedade ou uma colectividade pública. O detentor da obrigação, ou obrigacionista, tem direito a um juro* e ao reembolso do montante subscrito. Também pode, se a sociedade estiver cotada na Bolsa, revender o título em bolsa. do Estado grego que o Banco Central Banco central Estabelecimento que, num Estado, tem a seu cargo em geral a emissão de papel-moeda e o controlo do volume de dinheiro e de crédito. Em Portugal, como em vários outros países da zona euro, é o banco central que assume esse papel, sob controlo do Banco Central Europeu (BCE). Europeu adquiriu a metade do preço. O BCE Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma insitituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
não nasceu para ganhar dinheiro de um país destruído. Não queremos mais especulação Especulação Operação que consiste em tomar posição no mercado, frequentemente contracorrente, na esperança de obter um lucro. com o povo grego.

Sofia Sakorafa

Translated by Luis Branco



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