Portugal

Tudo para o buraco da banca

27 de Novembro de 2013 por Nuno Teles


Hoje, o sistema bancário nacional está completamente dependente do apoio público. O seu financiamento é garantido através do Eurosistema a taxas de juro de referência de 0,25%. A sua capitalização teve que ser empreendida pelo Estado, em 5,6 mil milhões de euros, devido à incapcidade dos seus accionistas. E, no entanto, ao contrário da narrativa governamental a banca continua enfraquecida. Na sua actividade, os quatro maiores bancos nacionais totalizaram 1200 milhões de prejuízos até Setembro.

As causas são fáceis de identificar: com a austeridade e recessão que assola o nosso país o numero de empresas e famílias incapazes de cumprir com os seus contratos de crédito não pará de subir. Assim, com a continuação da austeridade e crise no futuro não é expectável qualquer reversão desta tendência. Os balanços da banca continuarão a degradar-se, consumindo o capital entretanto injectado pelo estado e bloqueando qualquer extensão de crédito à economia portuguesa.

Os empréstimos públicos realizados no processo de recapitalização Recapitalização Reconstituição ou aumento de capital duma sociedade para reforçar os fundos próprios, postos em cheque por perdas. No quadro do resgate dos bancos nos Estados europeus, o mais frequente, os Estados recapitalizaram os bancos sem impor condições e sem exercer o poder de decisão que lhes confere a participação no capital bancário. são apresentados como tendo preços acima do mercado. Esta afirmação não faz qualquer sentido. Não existe mercado, e logo não há nenhum preço de mercado, já que a banca não se conseguia financiar através de agentes privados. Ainda assim, importa notar que os juros pagos pela banca por estes empréstimos do Estado são dedutíveis no IRC da banca paga ao estado. Ou seja, na verdade estes juros têm um desconto real de 25% (taxa nominal do IRC) naquilo que é pago ao Estado.

Finalmente, os representantes do Estado nos bancos intervencionados não têm poder para reconfigurar o modelo de negócio atual da banca que, por exemplo, faz uso do financiamento barato do BCE Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma insitituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
para comprar dívida portuguesa no mercado secundário a uma taxa de juro Juro Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada. muito superior, no que são lucros seguros feitos à custa dos portugueses. Medidas como o eventual corte nas remunerações das administrações da banca, além de mero número demagógico (os salários auferidos não têm qualquer limite em valor), serve só para criar uma cortina de fumo sobre o que é preservação a todo custo do poder financeiro em Portugal.



Nuno Teles, economista e co-autor do Ladrões de Bicicletas

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