25 de Junho por Juan Tortosa

Manifestação NoG7 em Genebra, a 14 de junho de 2026. Foto: Juan Tortosa, CADTM Suisse, CC.
Respondendo ao chamado da Coligação NOG7, cerca de 60.000 pessoas mobilizaram-se contra o G7, a 14 de junho de 2026, em Genebra. Um enorme sucesso, apesar da política de intimidação e restrição das liberdades imposta pelas autoridades, a polícia e os meios de comunicação.
A Coligação NOG7 de Genebra é composta por mais de 60 organizações e colectivos, entre os quais a Greve Feminista, BDS, os movimentos antifascistas, os sindicatos dos serviços públicos (SSP) e interprofissionais (SIT), o CADTM, o sindicato dos estudantes, o centro autónomo de Silure, SolidaritéS, etc., que são os principais elementos da coligação. Nesta coligação também participam colectivos da vizinha França, e mantemos uma colaboração estreita com a Coligação NOG7 do lado francês.
Decidimos não aceitar um eventual pedido de integração da coordenação do Partido Socialista e dos Verdes, por serem duas organizações que fazem parte do governo do cantão [equivalente ao município ou freguesia portugueses, ou ao distrito ou bairro brasileiros] e da cidade de Genebra. Pior ainda, o chefe da polícia de Genebra é membro do Partido Socialista, e nós queremos permanecer totalmente independentes. Tendo em vista o desenrolar da manifestação e o papel desempenhado pela magistrada socialista na opressão e na repressão, antes e durante a manifestação, fizemos bem em traçar essa linha de demarcação.
Do lado francês também foi constituída uma coligação nacional, nomeadamente com a ATTAC, NPA-A, Debt for Climate, La France Insoumise, etc. Além disso, antes de 14 de junho, formou-se uma coligação regional, com a mesma composição da nacional, mas com uma rpesença mais forte dos sindicatos FSU e CGT, do distrito da Alta-Savóia. Estes dois últimos sindicatos esforçaram-se até ao último minuto por organizar uma cidade e uma manifestação em França, o que foi contestado pela maioria dos outros colectivos, que acharam que não valia a pena dispersar forças e que melhor seria convergir em Genebra. Consequentemente, quase não se registou nenhuma actividade fora das fronteiras suíças.
As liberdades de manifestação, de reunião e, em geral, as liberdades democráticas não só foram espezinhadas em Genebra, mas também pelas autoridades francesas e pela procuradora do departamento [divisão administrativa equivalente ao distrito em Portugal, ou ao município ou ao estado brasileiros], já conhecida pela repressão sangrenta de Saint-Souline. As autoridades da Alta Saboia, em França, tinham proibido qualquer manifestação, actividade e até aluguer de salas aos altermundialistas do NOG7.
Este ano, o G7 (reunião dos 7 países mais industrializados do mundo) teve lugar em Evian-les-Bains, nas margens do lago Léman, na região francesa, mas na proximidade de Genebra, de 15 a 17 de junho. A Coligação NOG7, em sintonia com a Greve Feminista, decidiu este ano fazer convergir a mobilização contra o G7 e o 14 de Junho.
O 14 de Junho é uma jornada histórica para o movimento feminista na Suíça. Todos os anos, no aniversário da primeira greve feminista de 1991, são organizadas manifestações e outras actividades. Em 1981 foi consagrada na Constituição federal suíça uma disposição específica sobre a igualdade dos sexos. Dez anos depois, nada tinha mudado. A ideia de fazer uma greve veio das operárias de relojoaria do vale de Joux. A 14 de junho de 1991 realizou-se a primeira greve nacional desde 1918, sob o slogan «Quando as mulheres cruzam os braços, o país perde pé». A força e o orgulho feminstas ficaram patentes!
Como diziam as camaradas da Greve Feminista (GF), nada mais natural do que convocarmos e organizarmos a manifestação.
«A convocatória a diversos colectivos feministas para se encontrarem em Genebra é límpida sobre a confluência natural e foi correspondida por milhares de manifestantes que marcharam no bloco feminista. Este combate é também queer e feminista. As políticas defendidas e adoptadas pelos países do G7 assentam em uma visão patriarcal e autoritária que agrava e perpetua as opressões. Elas alimentam as violências de género, os feminicídios e as discriminações contra as pessoas LGBTIQ+.Apelamos a que o nosso empenho seja interseccional e que a nossa luta feminista seja sempre contra o capitalismo, o fascismo e o imperialismo. Denunciamos a forma como essas potências, com a cumplicidade da Suíça, tiram proveito das guerras e dos genocídios, nomeadamente no Sudão, na Palestina e no Congo, fechando as suas fronteiras às populações que fogem dessas violências.A 14 de junho, unamo-nos na luta! É através da resistência que conseguiremos construir uma sociedade justa e inclusiva. A 14 de junho marchemos contra o poder virilista que alimenta as violências sexista e sexuais, assim como as LGBTIQ+fobias. Marchamos pela solidariedade internacional com os povos em luta pelos seus direitos e contra as guerras das quais os países do G7 se aproveitam impunemente. Marchamos por uma sociedade inclusiva, contra o racismo e as políticas migratórias mortíferas. Unamo-nos, marchemos juntos, orgulhosos e fortes, pelas nossas irmãs, pelos nossos filhos, pelos nossos camaradas, por nós.»
A ideia de vem das operárias da relojoaria do vale de Joux. A 14 de junho de 1991 fez-se a primeira greve nacional desde 1918, sob o slogan «Quando as mulheres cruzam os braços, o país perde pé». Fortes, orgulhosas, feministas e indignadas!
A coligação reuniu a coordenação geral uma vez por mês; nos últimos dois meses, as reuniões foram quinzenais. Havia também um secretariado composto pelas principais organizações da coligação (Silure, Greve Feminista, SolidaritéS, Soulèvement de la terre Genève, BDS, os Antifascistas), assim como grupos de trabalho (finanças, media, manifestação, grupo internacional, grupo citadino, cantina, acampamento, fronteiras, serviço de autoprotecção da manifestação, etc.). Foi também criada uma coordenação dos vários grupos de trabalho. O grupo internacional manteve contacto privilegiado com a coligação francesa.
Foi escrito um apelo NOG7 que cada organização deveria subscrever para se tornar membro da coligação, assim como um texto de «intenções». Numa das reuniões da coordenação geral foi decidida a aceitação ou não de uma nova organização no seio da coligação.
O apelo é muito claro e radical no plano político: https://nog7ge.noblogs.org/ . Faz referência ao período actual de militarização, de guerras, de crescimento do fascismo e da extrema direita, de destruição da vida e de dominação dos corpos, de genocídio em Gaza, e aborda os seguintes pontos: o que é o G7, porquê devemos opor-nos a ele, lutar contra o fascismo, o imperialismo e a guerra contra os povos, e a necessidade de construir a resistência internacionalista.
Tínhamos solicitado às autoridades de Genebra um parque, bem como várias salas, a fim de organizar várias actividades urbanas incluindo conferências e outras actividades. Foram proibidas e anuladas todas as actividades em espaços abertos que tinham sido concedidas na universidade e nas escolas superiores. Pior ainda, as autoridades académicas proibiram a realização de qualquer conferência sobre o NOG7 nas suas instalações, e proibiram também o corpo docente de se pronunciar sobre o assunto ou intervir numa conferência sobre o assunto numa das salas da universidade ou das escolas superiores.
Apesar de todas estas restrições, conseguimos obter uma sala em Genebra, bem como em diversos locais alternativos.
As 16 conferências e o plenário de abertura (intitulado «Construir a resistência contra o imperialismo»):
Os temas dos ateliers foram variados: lutas estudantis, imperialismo e fascismo fóssil, imperialismo capitalista e dominação dos povos, informação política sobre as redes sociais, combate ao Palantir e ao capitalismo de vigilância, guerra e extractivismo, pós-G7: construir o multilateralismo dos povos, o imperialismo suíço, mundo do trabalho, transformação ecossocial, maternidades políticas: questões e experiências militantes, destruição ecológica e grandes projectos inúteis, a armadilha militarista, criminalização do antifascismo, lutas anti-racistas, greve (como radicalizar as nossas lutas), terror masculinista (como ripostar?).
O CADTM participou em dois ateliers: «O Imperialismo Suíço» e «Imperialismo capitalista e dominação dos povos». As salas encheram-se nessas duas conferências, tal como no conjunto das conferências. As mesas redondas totalizaram quase 2200 participantes, segundo as contas oficiais. Foram distribuídos 9000 exemplares da gazeta NOG7! (o jornal da coligação NOG7 publicou um só número).
Cada atelier foi da responsabilidade de uma ou mais organizações. Por exemplo, o sindicato SolidaritéS participou na construção de três ateliers a solo e colaborou com outros colectivos em outras duas conferências.
Para terminar em beleza no sábado à noite, um super-serão de concertos em um lugar mítico dos meios alternativos de Genebra.
Por fim, saudamos o trabalho excepcional da nossa cantina autogerida, que distribuiu mais de 1700 refeições e 1200 sanduíches durante o fim de semana.
O percurso da manifestação tinha sido negociado com as autoridades desde novembro. Vimo-nos confrontados com a intransigência da ministra da polícia, membro do Partido Socialista, e das autoridades de Genebra.
O percurso requerido pela nossa coligação não foi aceite. Era nossa intenção atravessar a ponte sobre o Reno na sua foz no lago e terminar num parque na margem esquerda. A recusa foi categórica: eles não queriam que nos aproximássemos das ruas onde se situam as multinacionais e as lojas de luxo. A baixa da cidade parecia uma cidade barricada, a maior parte das montras e algumas janelas foram protegidas com pranchas. Assistimos a um bombardeio mediático e político vindo das autoridades e da direita contra eventuais violências. Todas as suas declarações faziam referência às mobilizações contra o G8 em 2003, durante as quais algumas lojas de luxo foram danificadas, à margem das grandes manifestações e actividades organizadas pelo comité franco-helvético «G8 Ilegítimo».
O número de participantes ultrapassou as previsões mais optimistas da Coligação NOG7. Contávamos com cerca de 10.000 pessoas, pensando que, se conseguíssemos atingir esse número, já seria uma grande vitória, tendo em conta as intimidações. Nas minhas contas, fomos cerca de 60.000, ou seja, tantos quanto os manifestantes de 2003 que partiram do Jardim Inglês; os outros 60 mil tinham vindo do lado francês.
A Greve Feminista continua a ser o movimento social mais forte, o mais enraizado socialmente e o mais capaz de mobilizar. O seu cortejo foi sem dúvida o mais numeroso. As suas reivindicações são radicais e anticapitalistas. É um bom sinal para a mobilização de 14 de junho de 2027.
a solidariedade com o povo palestiniano foi expressa por um grande grupo. Os curdos, na sua diversidade, também desempenharam um papel importante na manifestação.
O bloco Le Vivant Se Défend reuniu o conjunto dos movimentos ecologistas. Foi um bloco muito animado, colorido e de maioria feminina.
No entanto há a lamentar a fraca presença dos sindicatos suíços, assim como a presença limitada e pouco mais que simbólica dos sindicatos franceses. Os grandes sindicatos (CGT, FSU, CFDT, etc.) não apelaram à mobilização em Genebra. A situação nas fronteiras também não ajudou. Tampouco houve apelo internacional à reunião em Genebra.
Dias antes da grande manifestação, Genbra encontrava-se em estado de sítio: milhares de polícias e militares vindos de outras regiões da Suíça convergiram na cidade de Calvino, apoiados pela polícia francesa, que teve autorização para intervir no cantão. Segundo os jornais, houve pessoas que foram controladas cinco vezes por dia, carrinhas policiais em grande número, suíços germânicos que não falavam francês.
Ao longo do percurso foram instaladas grades nos «pontos sensíveis», por onde os manifestantes tinham de passar de forma ordenada.
A meio do percurso, algumas acções contra uma Tesla e dois bancos, levadas a cabo por grupos ditos Black Bloc, serviram de desculpa às forças da repressão para utilizarem por diversas vezes granadas lacrimogéneas contra a manifestação, pondo em perigo as crianças e seus familiares. De todas as vezes o cortejo reagiu muito bem, com calma, para se proteger e prosseguir a manifestação.
Acabada a manifestação, no mesmo parque onde se tinha iniciado, a polícia interveio brutalmente e cercou uma parte dos manifestantes. Mais de 300 pessoas ficaram cercadas até ao amanhecer; uma vintena delas foi levada para a esquadra de polícia, teendo sido libertadas horas depois.
A Coligação NOG7 de Genebra e francesa publicou vários comunicados saudando o sucesso da enorme manifestação, dando conta também dos «graves comportamentos das forças de segurança durante o domingo, a Coligação condena os muitos tiros de gás lacrimogéneo, nomeadamente contra a parte do cortejo reservada às famílias e às crianças. Da mesma forma, a Coligação condena veementemente a detenção escandalosa de 549 pessoas, que se prolongou por quase 10 horas».
Apesar da repressão, estamos muito satisfeitos com o aspecto massivo, com o convívio, com a diversidade e a radicalidade da manifestação. Foram 60.000 pessoas que não se deixaram impressionar pelas mensagens e informações de intimidação. Esta sensação de vitória é um excelente trampolim para as mobilizações e desafios que se avizinham.
1. Conseguimos manter a unidade da Coordenação NOG7, apesar da diversidade dos seus membros, com pontos de vista diferentes sobre diversos assuntos. Decidimos continuar para além da manifestação de 14 de junho.
2. O fim de semana foi animado e colorido com as manifestações feministas: em Lausana, no sábado 13 de junho, fomos mais de 15.000; em Zurique, cerca de 50.000 pessoas responderam ao chamado da Greve Feminista para festejar o 14 de junho. O 14 de junho de 2027 será um grande encontro para o movimento feminista e a esquerda no seu todo. Foi lançado um apelo nacional à greve de cuidados. Começaremos a prepará-la logo após a rentrée, em setembro.
3. Os atentados às liberdades democráticas durante todo o período de negociações com o Conselho de Estado genebrino, a procuradora e as autoridades francesas (fomos enganados durante meses): Em Genebra, o projecto legislativo do PLR (direita) para proibir qualquer manifestação durante o período de mobilização contra o G7, a repressão durante a manifestação e as horas seguintes, são uma amostra das tendências autoritárias que imperam na nossa região e em muitas outras partes da Europa. Nos tempos que correm, o capitalismo mortífero não admite ser contestado. A classe dominante sabe que o capitalismo está à beira de falir, mas debate-se até ao último minuto para preservar os privilégios dos mais abastados. Devemos reafirmar o nosso anticapitalismo e fazer da defesa das liberdades democráticas e da luta contra a repressão um dos nossos eixos de intervenção prioritários no futuro.
A título de conclusão provisória. Uma questão se levanta: o pavio do altermundialismo ter-se-á acendido? Esta mobilização massiva prenuncia um período de mobilização contra o crescimento do fascismo, do virilismo, do autoritarismo, das guerras e dos imperialismos? Como diz a minha camarada Jane Leonie da ATTAC França, «as mobilizações como o NO G7 recorda que já existem outras maneiras de habitar o mundo, de produzir, de decidir, de cuidar, de partilhar as riquezas e de organizar a vida colectiva. Estas experiências são por enquanto fragmentárias, inacabadas ou minoritárias, mas constituem pontos de apoio para imaginarmos outras sociedades libertas das lógicas de dominação que caracterizam o capitalismo contemporâneo».
O pavio do altermundialismo foi visível no desfile da Greve Feminista, nas secções contra o extractivismo, na solidariedade internacional com Cuba e contra o militarismo, nos diversos desfiles anticapitalistas, etc. Podemos afirmar que outros mundos já estão aí presentes, e outros emergem. Face às tendências destrutivas actuais, o desafio não se restringe à resistência, é também necessário promover sociedades capazes de acolherem a pluralidade de mundos, de preservarem as condições da vida. Temos de evitar a barbárie trazida pelo fascismo fóssil e construir alternativas ecossocialistas e ecofeministas, como fizemos no VII Encontro Ecossocialista Internacional, em Bruxelas em meados de maio de 2026.
Os próximos meses o dirão, mas uma coisa é certa: continuaremos a combater o capitalismo e o fascismo fóssil mortífero. Temos projectos ecossocialistas a propor e construir; trata-se de uma necessidade urgente, não podemos esmorecer! O 14 de junho será uma etapa muito importante nesse caminho, anotem-no nas vossas agendas. Esperamos por vós na Suíça.
Juan Tortosa é membro da Coligação NO G7 Genebra, do CADTM suíço e de SolidaritéS.
Tradução de Rui Viana Pereira