A Pandemia do Capitalismo, o Coronavírus e a Crise Econômica

Parte 1

23 de Março por Eric Toussaint


(CC - Pixabay)

 Uma crise de saúde pública

A pandemia do coronavírus constitui um gravíssimo problema de saúde pública e o sofrimento humano que a propagação do vírus causará será enorme. Se ela afetar maciçamente os países do Sul Global cujos sistemas de saúde pública, já fracos ou muito frágeis, foram terrivelmente danificados por 40 anos de políticas neoliberais, as mortes serão muito altas. Sem esquecer a dramática situação da população iraniana, vítima do bloqueio decretado por Washington, um bloqueio que também se aplica a introdução de medicamentos e equipamentos médicos.

Os principais meios de comunicação e governos destacam as diferenças nas taxas de mortalidade por idade, mas têm o cuidado de não chamar a atenção para as diferenças de classe e como a mortalidade devida à pandemia do coronavírus irá afetar os seres humanos de acordo com a sua renda e riqueza

Usando o pretexto de uma necessária austeridade fiscal para pagar a dívida pública Dívida pública Conjunto dos empréstimos contraídos pelo Estado, autarquias e empresas públicas e organizações de segurança social. , governos e grandes instituições multilaterais como o Banco Mundial, o FMI e bancos regionais como o Banco Africano de Desenvolvimento generalizaram políticas que deterioraram os sistemas de saúde pública: eliminação de empregos no sector da saúde, precariedade dos contratos de trabalho, supressão de leitos hospitalares, fechamento de postos de saúde locais, aumento do custo tanto dos cuidados de saúde como dos medicamentos, subinvestimento em infraestrutura e equipamentos, privatização de vários sectores da saúde, subinvestimento do sector público na pesquisa e desenvolvimento de tratamentos em benefício dos interesses dos grandes grupos farmacêuticos privados...

Isto é verdade na África, Ásia, América Latina e Caraíbas e nos países do antigo bloco de Leste (Rússia e outras ex-repúblicas da extinta URSS, Europa Central e Oriental).

Mas isto também diz respeito, obviamente, a países como a Itália, França, Grécia e outros países europeus. E nos Estados Unidos, onde 89 milhões de pessoas não têm verdadeira cobertura de saúde, como denuncia Bernie Sanders, o que vai acontecer?

Os principais meios de comunicação e governos destacam as diferenças nas taxas de mortalidade por idade, mas têm o cuidado de não chamar a atenção para as diferenças de classe e como a mortalidade devida à pandemia do coronavírus irá afetar os seres humanos de acordo com a sua renda e riqueza e, portanto, de acordo com a classe social a que pertencem. Se submeter a quarentena ou ter acesso a tratamentos intensivos quando se tem 70 anos é completamente outra coisa se você é pobre ou se você é rico.

Haverá também a divisão entre países que, apesar das políticas neoliberais, mantiveram seus sistemas de saúde pública melhor do que outros e aqueles que foram mais longe em minar a qualidade dos serviços de saúde pública.


 A crise bolsista e financeira

Enquanto a grande mídia e os governos afirmam constantemente que a crise do mercado acionário é causada pela pandemia do coronavírus, eu enfatizei que todos os elementos de uma nova crise financeira estão reunidos há vários anos e que o coronavírus foi a centelha ou o detonador da crise do mercado bolsista, não a causa https://www.cadtm.org/Nao-o-coronavirus-nao-e-responsavel-pela-queda-nos-precos-das-acoes. Embora algumas pessoas vissem isto como uma tentativa de negar a importância do coronavírus, eu mantenho a minha afirmação. A quantidade de material inflamável na esfera financeira chegou à saturação há vários anos e sabia-se que uma faísca poderia e causaria a explosão: não sabíamos quando a explosão ocorreria e o que a causaria, mas sabíamos que estava por vir. Então algo tinha de ser feito para o evitar e não foi feito. Vários autores da esquerda radical anunciaram esta crise, incluindo Michael Roberts https://thenextrecession.wordpress.com, François Chesnais https://pt.wikipedia.org/wiki/François_Chesnais , Robert Brenner https://blubrry.com/jacobin/31593687/jacobin-radio-w-suzi-weissman-robert-brenner-on-the-economy/ . Desde 2017-2018, tenho publicado regularmente artigos sobre o assunto – ver https://www.cadtm.org/Cedo-ou-tarde-surgira-nova-crise-financeira de Abril de 2018. Com o CADTM e outros, temos afirmado a necessidade de uma ruptura radical com o capitalismo.

O coronavírus foi a centelha ou o detonador da crise do mercado bolsista, não a causa

O primeiro grande choque bolsista ocorreu em dezembro de 2018 em Wall Street, e sob pressão de um punhado de grandes bancos privados e da administração Donald Trump, o Federal Reserve dos EUA começou a cortar novamente as taxas e foi aplaudido pelas poucas grandes empresas privadas que dominam os mercados financeiros. O frenesi da alta dos valores bolsistas voltou a aumentar e as grandes corporações continuaram a comprar de volta as suas próprias ações na bolsa para ampliar o fenômeno. Aproveitando a queda das taxas, as grandes empresas privadas aumentaram a sua dívida e os grandes fundos de investimento aumentaram as suas aquisições de todo o tipo de empresas, incluindo empresas industriais, utilizando o endividamento (http://www.cadtm.org/A-montanha-de-dividas-privadas-das-empresas-estara-no-amago-da-proxima-crise).

Testemunhamos um enorme aumento na criação de capital fictício e em cada crise financeira uma grande parte desse capital fictício tem que «desaparecer» porque faz parte do funcionamento normal do sistema capitalista

Depois, mais uma vez em Wall Street, a partir de Setembro de 2019, houve uma crise muito grande de falta de liquidez num mercado financeiro Mercado financeiro Mercado de capitais a longo prazo. Inclui um mercado primário (o das emissões) e um mercado secundário (o da revenda). A par dos mercados regulamentados encontramos mercados fora da bolsa, onde não existe a obrigação de satisfazer regras e condições mínimas. que, no entanto, estava saturado de liquidez. Uma crise de liquidez quando há uma profusão de liquidez é apenas um paradoxo aparente, como expliquei em https://www.cadtm.org/Panico-na-Reserva-Federal-e-retorno-ao-credit-crunch-num-oceano-de-dividas publicado em 25 de setembro de 2019. Tratava-se de uma crise grave e a Reserva Federal interveio maciçamente, injetando centenas de bilhões de dólares no total para tentar evitar que os mercados entrassem em colapso. Também manteve no seu balanço mais de 1,3 triliões de dólares em produtos estruturados tóxicos que tinha comprado aos bancos em 2008 e 2009 porque estava justamente convencido de que se os colocassem no mercado secundário da dívida, os seus preços entrariam em colapso e conduziriam a uma grande crise financeira e a falências de bancos. O Fed fez isso não para defender o interesse geral, mas para defender os interesses do Grande Capital, o 1 % mais rico da sociedade. O BCE Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma insitituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
e os outros grandes bancos centrais (Reino Unido, Japão, Suíça, China...) têm aplicado aproximadamente o mesmo tipo de política e têm uma responsabilidade muito importante na acumulação de materiais inflamáveis na esfera financeira (ver o meu artigo escrito em Março de 2019 http://www.cadtm.org/A-crise-economica-e-os-bancos-centrais)

Em Wall Street houve um primeiro grande choque financeiro em dezembro de 2018 e uma grande crise de falta de liquidez em setembro de 2019

Testemunhamos um enorme aumento na criação de capital fictício e em cada crise financeira uma grande parte desse capital fictício tem que «desaparecer» porque faz parte do funcionamento normal do sistema capitalista. O capital fictício é uma forma de capital que se desenvolve exclusivamente na esfera financeira, sem qualquer ligação real com a produção. É fictício no sentido de que não se baseia diretamente na produção material e na exploração direta do trabalho humano e da natureza. Como diz o economista francês Jean-Marie Harribey, membro da ATTAC: «As bolhas estouram quando a diferença entre o valor realizado e o valor prometido se torna demasiado grande e quando alguns especuladores compreendem que as promessas de liquidação lucrativa não podem ser honradas para todos, ou seja, quando os ganhos de capital financeiro nunca podem ser realizados por falta de ganhos de capital suficientes na produção» (Jean-Marie Harribey, «La baudruche du capital fictif, lecture du Capital fictif de Cédric Durand», Les Possibles, N° 6 - Printemps 2015, https://france.attac.org/nos-publications/les-possibles/numero-6-printemps-2015/debats/article/la-baudruche-du-capital-fictif.

Reitero que a pandemia do coronavírus não é a causa real e profunda da crise bolsista que estourou na última semana de fevereiro de 2020 e ainda está em curso. Esta pandemia é o detonador, a centelha. Eventos sérios de natureza diferente poderiam ter constituído aquela faísca ou detonador. Por exemplo, uma guerra quente e declarada entre Washington e o Irão ou uma intervenção militar direta dos EUA na Venezuela. A crise bolsista que seguiria teria sido atribuída à guerra e às suas consequências. Da mesma forma, eu teria dito que esta guerra, cujas consequências seriam muito graves, sem qualquer contestação possível, teria sido a centelha e não a causa raiz. Portanto, mesmo que exista uma ligação inegável entre os dois fenômenos (a crise bolsista e a pandemia de coronavírus), isso não significa que não devemos denunciar as explicações simplistas e manipuladoras segundo as quais a culpa é do coronavírus. Esta explicação mistificante é um engodo destinado a desviar a atenção da opinião pública dos 99 % do papel desempenhado pelos políticos em favor do Grande Capital em escala planetária e da cumplicidade dos governos em vigor.

 A crise no sector da produção antecedeu a pandemia do coronavírus

Isso não é tudo. Não só a crise financeira estava latente há vários anos e a alta continuada dos preços dos ativos financeiros era um indicador muito claro disso, como uma crise no setor produtivo tinha começado muito antes da propagação do vírus Covid19 em Dezembro de 2019, antes do fechamento de fábricas na China em Janeiro de 2020 e antes da crise nas bolsas no final de Fevereiro de 2020.

Durante 2019, começou uma crise de superprodução de mercadorias, particularmente no setor automotivo, com uma queda maciça nas vendas de automóveis na China, Índia, Alemanha, Grã-Bretanha e outros países. Isto levou a uma redução na produção de automóveis. Também houve superprodução no setor de máquinas e equipamentos na Alemanha, um dos 3 maiores produtores do mundo neste setor. Houve uma redução muito acentuada no crescimento industrial chinês, que teve consequências graves para os países que exportam equipamentos, automóveis e matérias primas para a China. No segundo semestre de 2019, começou uma recessão no sector da produção industrial na Alemanha, Itália, Japão, África do Sul, Argentina, ... e em vários sectores industriais dos Estados Unidos.

 A evolução da crise financeira e econômica desde 3 de Março de 2020

Durante a última semana de Fevereiro de 2020, as principais bolsas sofreram uma queda muito significativa entre 9,5 % e 12 %, a pior semana desde Outubro de 2008

Lembramos, durante a última semana de Fevereiro de 2020, as principais bolsas mundiais (nas Américas, Europa e Ásia) sofreram uma queda muito significativa entre 9,5 % e 12 %, a pior semana desde Outubro de 2008.

Retomando onde parei em 4 de março de 2020 http://www.cadtm.org/Nao-o-coronavirus-nao-e-responsavel-pela-queda-nos-precos-das-acoes, no dia seguinte a Reserva Federal dos EUA, o Fed, decidiu baixar sua taxa básica de juros em 0,5 %.


 Os bancos centrais como bombeiros incendiários

No 3 de março de 2020, o Fed decidiu fixar sua taxa de base em um intervalo de 1 % a 1,25 %, um corte de 0,50 %, o maior dos últimos anos, já que o Fed anteriormente baixava sua taxa por patamares de 0,25 %. Perante a queda contínua dos mercados bolsistas e, em particular, dos bancos à beira da falência, o Fed decidiu reduzir novamente as taxas em 15 de Março de 2020, agindo ainda com mais força do que em 3 de Março. Desta vez, baixou a sua taxa em 1 %. Portanto, desde 15 de março, a nova taxa de juros-base do Fed está em uma faixa de 0 a 0,25 %. Os bancos são, portanto, encorajados a aumentar suas dívidas.

Os bancos que se comprometem a não reduzir o volume dos seus empréstimos ao setor privado [...] podem obter financiamento substancial do BCE a uma taxa negativa de -0,75 %. Tal significa que são remunerados e subsidiados quando contraem empréstimos junto do BCE.

Os bancos que se comprometem a não reduzir o volume dos seus empréstimos ao setor privado [...] podem obter financiamento substancial do BCE a uma taxa negativa de -0,75 %. Tal significa que são remunerados e subsidiados quando contraem empréstimos junto do BCE.

O Fed não só baixou as taxas de juro Juro Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada. , como voltou a injetar uma enorme quantidade de dólares no mercado interbancário novamente porque os bancos, mais uma vez, já não confiam mais uns nos outros e estão relutantes em emprestar dinheiro uns aos outros. O presidente do Fed disse que o Fed planeja injetar mais de US$ 1 trilhão de liquidez nos mercados de curto prazo nas próximas semanas, incluindo o mercado de «Repo», onde já interveio maciçamente entre setembro e dezembro de 2019. O mercado de «Repo» é o mecanismo pelo qual os bancos se financiam por um curto período de tempo: entregam títulos que possuem e se comprometem a recomprá-los rapidamente. Por exemplo, eles depositam títulos do Tesouro dos EUA ou títulos corporativos com classificação AAA por 24 horas em operações compromissadas (ou seja, como garantia ou colateral para o seu empréstimo). Em troca desses títulos, eles obtêm dinheiro a uma taxa de juros próxima ou igual à taxa de referência estabelecida pelo Fed, que, como acabamos de ver, está próxima de 1 % desde 3 de março de 2020 e 0 % desde 15 de março de 2020.

O Banco Central Banco central Estabelecimento que, num Estado, tem a seu cargo em geral a emissão de papel-moeda e o controlo do volume de dinheiro e de crédito. Em Portugal, como em vários outros países da zona euro, é o banco central que assume esse papel, sob controlo do Banco Central Europeu (BCE). Europeu (BCE), liderado por Christine Lagarde, cuja taxa de referência é de 0 %, anunciou em 12 de Março de 2020 que iria aumentar as suas compras de títulos financeiros privados (obrigações Obrigações Parte de um empréstimo emitido por uma sociedade ou uma colectividade pública. O detentor da obrigação, ou obrigacionista, tem direito a um juro* e ao reembolso do montante subscrito. Também pode, se a sociedade estiver cotada na Bolsa, revender o título em bolsa. e produtos estruturados) e de títulos públicos (títulos soberanos). Também irá aumentar o volume de empréstimos vantajosos a médio e longo prazo concedidos aos bancos.

Os bancos que se comprometem a não reduzir o volume dos seus empréstimos ao sector privado (se não cumprirem as suas promessas, não há previsão de multa) podem obter financiamento substancial do BCE a uma taxa negativa de -0,75 %. Tal significa que são remunerados e subsidiados quando contraem empréstimos junto do BCE.

Como mencionado acima, no domingo, 15 de março, em pânico mais uma vez pelo que havia acontecido na semana anterior, o Fed convocou seu comitê diretor com pressa e sem esperar pela data normal da reunião reduziu sua taxa de juros para 0 % (sua taxa base está na faixa de 0 % a 0,25 %). O Fed também anunciou que iria começar a comprar novamente produtos estruturados dos bancos, os famosos MBS (Mortgage Backed Securities), que estiveram no centro da crise financeira de 2007-2008. Anunciou que vai comprar 200 bilhões de dólares deles.

Mas isso não impediu a continuação das vendas massivas de ações na bolsa de valores; todas as bolsas mundiais mergulharam na segunda-feira, 16 de março de 2020. A queda em Wall Street atingiu um novo recorde de um dia: -12 %.

 Os mercados bolsistas continuaram a cair

Vários dias negros, ou seja, vários crashes bolsistas, ocorreram na segunda quinzena de fevereiro e durante a primeira quinzena de março de 2020

Vários dias negros, ou seja, vários crashes bolsistas, ocorreram na segunda quinzena de fevereiro e durante a primeira quinzena de março de 2020, apesar das intervenções maciças dos bancos centrais no Norte e no Sul do planeta, no Oeste e no Leste.

As sessões da bolsa de valores foram literalmente caóticas. Em numerosas ocasiões nas últimas semanas, as sessões tiveram de ser interrompidas durante 15 a 30 minutos, numa tentativa de travar as vendas cada vez mais maciças e evitar o desastre. Essas interrupções, durante as quais as autoridades da bolsa ativaram o circuit-breacker (de acordo com o jargão deles), aconteceram em várias ocasiões em Wall Street, no Brasil e na Europa, ao ponto de alguns comentaristas se perguntarem por que as autoridades não simplesmente fecharam as bolsas.

Na quinta-feira, 12 de março de 2020, um dos dias mais sombrios dos últimos tempos, a queda foi impressionante: - 12,28 % em Paris, - 10,87 % em Londres, - 11,43 % em Frankfurt, - 14,21 % em Bruxelas e Milão um recorde - 16,92 %! Em Nova York, o Dow Jones perdeu - 9,99 %, o Nasdaq - 9,43 % e o S&P500 - 9,51 %. Os mercados bolsistas da Ásia, América Latina e África também deram um mergulho.

Na segunda-feira, 16 de março, apesar da decisão do Fed de baixar sua taxa de juros para 0 %, numa tentativa de agradar ao Grande Capital e acabar com o queda no escuro, a venda maciça de ações continuou: em Nova York, o S&P500 caiu 12 %, o mercado acionário brasileiro caiu 13 %. As bolsas europeias voltaram a cair: Londres perdeu 4 %, Paris e Frankfurt perderam mais de 5 %, Milão - 6 %, Bruxelas - 7 %, Madrid - 8 %. Na Ásia-Pacífico: o Nikkei em Tóquio caiu 2,5 %, as bolsas chinesas perderam entre 3 e 4 %, a bolsa indiana caiu 8 %, a bolsa australiana perdeu 9,5 %. O descalabro continua.

Entre 17 de fevereiro e 17 de março de 2020 incluso, as bolsas de valores sofreram uma verdadeira purga

Em menos de um mês, entre 17 de fevereiro e 17 de março de 2020 incluso, as bolsas de valores sofreram uma verdadeira purga (veja a infografia): em Nova York, o Dow Jones Industrial perdeu 32 %, a S&P500 das 500 maiores empresas perdeu 24 % do seu valor. Em Londres, o Footsie caiu 31 %, em Frankfurt, o Dax caiu 37 %! Em Bruxelas, o Bel 20 mergulhou 41 %. O CAC 40 perdeu 36,5 %. A bolsa de Madrid (IBEX 35) perdeu 38 %, a bolsa de Lisboa (PSI20) perdeu 31,5 %. O mercado acionário brasileiro perdeu 28 %, e o mercado acionário de Buenos Aires perdeu mais de 30 %. A bolsa de valores indiana perdeu 25,5 %. A Bolsa de Valores da África do Sul (JSE) perdeu 35 %. RTS, a Bolsa de Mosco, perdeu 40 %. O BIST 100 da Turquia mergulhou 28 %. Em Tóquio, o Nikkei perdeu 28 %. Em Hong Kong, o Hang Seng perdeu 21 %. Em Sydney, o ASX australiano perdeu 26 %. Apenas a Bolsa de Valores de Xangai está limitando as perdas: - 7 %. Se a bolsa de Xangai é melhor do que qualquer outra bolsa do mundo, é graças ao apoio fornecido, sob injunção do governo, por empresas estatais chinesas e fundos públicos. Eles foram ordenados a comprar sistematicamente ações na bolsa de valores em meio à crise do coronavírus enquanto outros estavam vendendo.

Em resumo, entre 17 de fevereiro e 17 de março, todas as bolsas de valores do mundo sofreram perdas muito significativas, comparáveis ou superiores às ocorridas durante as grandes crises bolsistas anteriores de 1929, 1987 e 2008.


Infografia: % de variação nas principais bolsas mundiais entre 17 de Fevereiro e 17 de Março de 2020

Fonte: Cálculo do autor com base na CNN e Boursorama.
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 Quem opera vendas massivas de ações?

Os principais mercados bolsistas são dominados por uma centena de grandes grupos privados, seus acionistas fazem parte do 1 % ou mesmo 0,1 %. Estes grandes grupos privados desempenham um papel importante no desencadeamento da crise bolsista e na sua propagação.

Entre eles estão cerca de trinta grandes bancos, uma dúzia de grandes fundos de investimento – entre os quais BlackRock, Vanguard, State Street e Pimco desempenham um papel fundamental; acrescentemos o GAAF – Google, Apple, Amazon, Facebook –, grandes conglomerados industriais, uma pequena dezena de grandes empresas petrolíferas, alguns grandes fundos de pensão...

Os principais mercados bolsistas são dominados por uma centena de grandes grupos privados, seus acionistas fazem parte do 1 % ou mesmo 0,1 %. Estes grandes grupos privados desempenham um papel importante no desencadeamento da crise bolsista e na sua propagação

Este punhado de grandes capitalistas e as sedes das suas empresas estão altamente interligados porque há sistematicamente participações cruzadas (ou seja, um banco pode ser acionista de empresas industriais e vice-versa e, claro, fundos de investimento como o BlackRock detêm participações em todas as grandes empresas privadas – ver caixa). Perceberam que a festa estava prestes a terminar e que era hora de, no final de fevereiro de 2020, colher a diferença entre o que tinham pagado nos últimos dois ou três anos para comprar ações e o pico da festa na bolsa de valores no início de 2020. Eles começaram a vender e conseguiram um preço muito bom no início. Então, após um efeito semelhante ao das ovelhas, todos os principais acionistas e todos os players dos mercados financeiros começaram a vender, obtendo um bom lucro Lucro Resultado contabilístico líquido resultante da actividade duma sociedade. O lucro líquido representa o lucro após impostos. O lucro redistribuído é a parte do lucro que é distribuída pelos accionistas (dividendos). antes da queda dos preços se tornar tal que o preço de venda das ações caiu abaixo do nível antes do início da bolha. Entretanto, os maiores e mais rápidos obtiveram ganhos consideráveis.

O importante para um grande acionista é vender quando o preço ainda não caiu muito, e, portanto, vender o máximo possível o mais rápido possível. Eles também usam software programado para vender ações assim que um movimento de venda atinge um certo nível, resultando em dias com quedas consideráveis seguidos de uma recuperação no dia seguinte, porque aqueles que venderam no dia anterior no início da queda podem sentir que vale a pena comprar ações de volta a um preço que é 5 % ou 10 %, ou até 20 %, inferior ao preço ao qual eles venderam no início da sessão no dia anterior.

Isto explica a sucessão de dias negros, seguidos por dias ascendentes. O que é certo é que apesar das retomadas momentâneas, a tendência geral é para uma verdadeira purga. A bolha da bolsa está estourando diante dos nossos próprios olhos.

O valor de mercado dos ativos três maiores fundos de investimento, BlackRock, Vanguard e State Street, caiu 2,8 trilhões de dólares em pouco menos de um mês

O mergulho nos mercados bolsistas tem sido tão grande que, no final, os principais grupos que lançaram o processo de vendas massivas estão vendo seus ativos encolherem. Eles podem ter feito ganhos especulando na baixa e depois na alta, mas nesta fase da crise, o valor total dos seus ativos caiu drasticamente. O Financial Times fornece uma estimativa, para os três maiores fundos de investimento, BlackRock, Vanguard e State Street, de perda em valor de mercado dos seus ativos de 2,8 trilhões de dólares em pouco menos de um mês (Financial Times, «World’s three largest fund houses shed $2,8tn of assets» https://www.ft.com/content/438854a8-63b0-11ea-a6cd-df28cc3c6a68 , publicado em 15 de março de 2020). 2.800 bilhões de dólares são 10 % a mais do que o PIB PIB
Produto interno bruto
O produto interno bruto é um agregado económico que mede a produção total num determinado território, calculado pela soma dos valores acrescentados. Esta fórmula de medida é notoriamente incompleta; não leva em conta, por exemplo, todas as actividades que não são objecto de trocas mercantis. O PIB contabiliza tanto a produção de bens como a de serviços. Chama-se crescimento económico à variação do PIB entre dois períodos.
anual da França. Segundo o jornal financeiro, enquanto no início do ano os ativos detidos pela BlackRock tinham atingido o valor astronômico de 7,4 triliões de dólares, o mergulho dos mercados bolsistas reduziu-os em 1,4 triliões de dólares. Além disso, o valor bolsista da BlackRock caiu 28 % em um mês, em 15 de março de 2020. Os ativos da Vanguard tinham atingido US$ 6,2 trilhões e foram reduzidos em US$ 800 bilhões entre fevereiro e 15 de março de 2020.

BlackRock

BlackRock é ao nível mundial o maior fundo mútuo de investimento Fundo mútuo de investimento
Fundo de investimento aberto
Fundos de investimento que reúnem dinheiro de vários investidores. Os administradores do fundo administram o dinheiro em obediência a um documento que descreve como deve ser aplicado. Chama-se mutual funds nos EUA, investment funds na Grã-Bretanha, fonds de placement mutuel em França.
. A BlackRock opera globalmente com 70 escritórios em 30 países e tem clientes em 100 países. Em janeiro de 2020, a BlackRock administrava ativos no total de 7.400 bilhões de dólares. A partir de 17 de março de 2020, o valor dos ativos da BlackRock sofreu uma redução de US$ 1.400 bilhões. Ainda no início de 2020, os seus ativos estavam divididos em duas categorias principais: 55 % em ações, 34 % em obrigações e o restante era marginal. Geograficamente, os Estados Unidos representavam 61 % do total de ativos, a Europa 31 % e a Ásia 8 %. Em 2012, exerceu seu direito de voto em 14.872 assembleias de acionistas, incluindo 3.800 nos Estados Unidos.

Durante a crise bancária de 2008, a BlackRock comprou um departamento importante do banco britânico Barclays (antes disso tinha comprado parte do Merrill Lynch). Em 2014, a BlackRock era o maior acionista do maior banco americano JP Morgan (com 6,1 % do capital), o maior acionista da Apple (com 5,1 %), Microsoft (com 5,5 %), Exxon Mobil (5,4 %), Chevron (6,2 %), Royal Dutch Shell (4,9 %), Procter & Gamble (5,4 %), General Electric (5,5 %) e Nestlé (3,7 %). Foi o segundo maior acionista da empresa Warren Buffet, a Berkshire Hathaway (a BlackRock detém 6,8 % do seu capital). Foi também o segundo maior acionista do Google (5,8 %), Johnson & Johnson (5,6 %), do quarto maior banco americano, Wells Fargo (5,4 %) e de Petrochina (6,8 %). BlackRock foi o terceiro maior acionista do Walmart (2,6 %) e da Roche (2,0 %). Foi também o quarto maior acionista da Novartis (3,0 %). As 17 empresas acima mencionadas têm uma posição dominante nos seus respectivos setores. Estas 17 são as maiores empresas em termos de capitalização de mercado a nível mundial. Deve-se acrescentar que a BlackRock é proprietária de uma empresa de gestão de risco chamada Aladdin, que assessora empresas financeiras com ativos que totalizam 11 trilhões, e que possui ações da Moody’s e da McGraw Hill, proprietária da Standard & Poor’s, duas das principais agências de classificação de risco do mundo.

Como mais uma indicação da influência da BlackRock, podemos levar em conta o número de ligações telefônicas que Tim Geithner, secretário do Tesouro dos EUA após a crise de 2008, durante a administração de Barack Obama, teve com Larry Fink, chefe deste fundo de investimento. Tim Geithner teve 49 telefonemas com Larry Fink entre 1 de janeiro de 2011 e 30 de junho de 2012. Durante o mesmo período, ele teve 17 ligações com Jamie Dimon, chefe do JP Morgan, 13 com Lloyd Blankfein, chefe da Goldman Sachs, 5 com Brian Moynihan, chefe do Bank of America e com James Gorman, chefe da Morgan Stanley...

Vale a pena mencionar que a BlackRock foi mandatada pela Troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) para auditar os bancos gregos em 2014.

Em 2016, a BlackRock era acionista de 18 empresas do CAC 40 (Atos, BNP Paribas, Vinci, Saint-Gobain, Société Générale, Sanofi, Michelin, Safran, Teleperformance, Total...).

A BlackRock também detém 5 % do grupo bancário Santander, o banco líder em Espanha.

Em 2019, a BlackRock detinha 4,81 % do maior banco alemão, o Deutsche Bank, o que o tornava o maior acionista.

Apesar das tentativas da BlackRock de se apresentar como um investidor sustentável, a BlackRock é o maior investidor mundial em usinas elétricas a carvão, possuindo ações em 56 empresas de usinas elétricas a carvão.

Através das empresas nas quais é o maior acionista, a BlackRock possui mais reservas de petróleo, gás e carvão do que qualquer outro investidor. As suas reservas totais chegam a 9,5 giga toneladas de emissões de CO2, ou 30 % do total das emissões relacionadas com a energia a partir de 2017. Em 10 de janeiro de 2020, um grupo de ativistas climáticos correu para os escritórios de Paris da BlackRock France para pintar as paredes e pisos com avisos e acusações sobre a responsabilidade da empresa na atual crise climática e social.

Em 14 de janeiro de 2020, o CEO da BlackRock, Laurence Fink, disse que a sustentabilidade ambiental seria um objetivo-chave para as decisões de investimento. A BlackRock anunciou que venderia US$ 500 milhões em ativos relacionados ao carvão e criaria fundos que evitariam estoques de combustíveis fósseis, o que mudaria radicalmente a política de investimentos da empresa.

A BlackRock detém participações nas principais empresas fabricantes de armas dos Estados Unidos.


Fim da Primeira Parte

Na parte 2, eu tratarei:

  • A queda das ações dos bancos
  • Os bancos estão indo muito mal, ao contrário do discurso oficial.
  • A queda do preço do petróleo
  • O início do estouro da bolha no mercado obrigacionista privado. O mergulho nos preços dos títulos de dívida privada e a subida acentuada dos rendimentos e dos prêmios de risco.
  • A muito boa saúde dos títulos da dívida pública. Os seus preços estão subindo. Os governos das economias dominantes estão se financiando com uma taxa de juros negativa.
  • Depois examinarei as propostas de medidas a serem tomadas e a necessidade de romper com o sistema capitalista. Uma verdadeira revolução é necessária para mudar radicalmente a sociedade em seu modo de vida, seu modo de propriedade, seu modo de produção. Esta revolução só terá lugar se as vítimas do sistema se tornarem auto-activas, auto-organizadas e derrubarem o 1 % dos centros de poder para criar um verdadeiro poder democrático. É necessária uma revolução ecológica e socialista, autogestionária e feminista.

Tradução: Alain Geffrouais

Revisão: Rui Viana Pereira



Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015. Após a sua dissolução, anunciada a 12/11/2015 pelo novo presidente do Parlamento grego, a ex-Comissão prosseguiu o trabalho sob o estatuto legal de associação sem fins lucrativos.

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