Série: 1944-2024, 80 anos de intervenção do Banco Mundial e do FMI, já chega!(Parte 2)

ABC do Fundo Monetário Internacional (FMI) 2.0

10 de Dezembro de 2024 por Eric Toussaint


O Banco Mundial e o FMI têm 80 anos. 80 anos de neocolonialismo financeiro e de imposição de políticas de austeridade em nome do pagamento da dívida. 80 anos já bastam! As instituições de Bretton Woods devem ser abolidas e substituídas por instituições democráticas ao serviço uma virada ecológica, feminista e antirracista. Na ocasião do 80º aniversário das instituições de Bretton Woods, publicamos todas as quartas-feiras uma série de artigos que descrevem em pormenor a história e os danos causados por estas duas instituições.


  1. As origens das instituições de Bretton Woods
  2. O Banco mundial ao serviço dos poderosos num clima de caça às bruxas
  3. Os conflitos entre a ONU e a dupla Banco Mundial/FMI desde as origens até aos anos setenta
  4. SUNFED versus Banco Mundial
  5. Porquê o Plano Marshall?
  6. Porque não é reproduzível a anulação da dívida alemã de 1953 no caso da Grécia e dos países em desenvolvimento?
  7. A Supremacia dos Estados Unidos no Banco Mundial
  8. Banco Mundial/FMI : o apoio às ditaduras
  9. O Banco Mundial e as Filipinas
  10. O apoio do Banco Mundial à ditadura turca (1980-1983)
  11. O Banco Mundial e o FMI na Indonésia: Uma intervenção emblemática
  12. As mentiras teóricas do Banco Mundial
  13. Coreia do Sul e o milagre desvendado
  14. A armadilha do endividamento
  15. O Banco Mundial apercebe-se da chegada da crise da dívida externa
  16. A crise da dívida mexicana e o Banco Mundial
  17. O Banco Mundial e o FMI: As agências financeiras dos credores
  18. Os presidentes Barber Conable e Lewis Preston (1986-1995)
  19. A operação de sedução de James Wolfensohn (1995-2005)
  20. A Comissão Meltzer sobre as Instituições Financeiras Internacionais no Congresso dos Estados Unidos em 2000
  21. As contas do Banco Mundial
  22. De Paul Wolfowitz (2005-2007) a Ajay Banga (2023-...): os homens de mão do presidente dos EUA continuam à frente do Banco Mundial
  23. O Banco Mundial e o FMI deitaram mão a Timor-Leste, um estado oficialmente nascido em maio de 2002
  24. Crise climática ecológica: os aprendizes de feiticeiro do Banco Mundial e do FMI
  25. O ajuste estrutural e o consenso de Washington não foram abandonados
  26. Os empréstimos envenenados do Banco Mundial e do FMI ao Equador
  27. Equador: A resistência contra as políticas fomentadas pelo Banco Mundial, o FMI e os outros credores entre 2007 e 2011
  28. De Rafael Correa a Guillermo Lasso via Lenín Moreno
  29. O Banco Mundial não antecipou a chegada da primavera árabe e defende a continuação das políticas que produziram as revoltas populares
  30. O Banco Mundial, o FMI e os direitos humanos
  31. Para acabar com a impunidade do Banco Mundial
  32. ABC do Banco Mundial 2.0
  33. ABC do Fundo Monetário Internacional (FMI) 2.0

Versão anterior : ABC do Fundo Monetário Internacional (FMI) 

Assim como o Banco Mundial, o FMI foi criado em 1944 em Bretton Woods. Seu objetivo oficial era estabilizar o sistema financeiro internacional por meio da regulamentação do movimento de capitais. Posteriormente, tornou-se a principal instituição internacional responsável pela imposição de políticas neoliberais brutais em todo o mundo. É um órgão antidemocrático que atende aos interesses das grandes potências e das grandes empresas privadas. A concessão condicional de crédito a países em dificuldades é um de seus principais meios de pressão. Em 2024, 191 países eram membros.

 Uma liderança não democrática

A organização do FMI é semelhante à do Banco Mundial: cada país nomeia um governador para o representar, geralmente o ministro das Finanças ou o governador do banco central Banco central Estabelecimento que, num Estado, tem a seu cargo em geral a emissão de papel-moeda e o controlo do volume de dinheiro e de crédito. Em Portugal, como em vários outros países da zona euro, é o banco central que assume esse papel, sob controlo do Banco Central Europeu (BCE). . Reúnem-se no Conselho de Governadores, a instância soberana do FMI, uma vez por ano, em outubro. Este conselho toma as decisões mais importantes (admissão de novos países, preparação do orçamento, etc.).

Para efeitos da gestão quotidiana das missões do FMI, o Conselho de Governadores delega os seus poderes num Conselho de Administração composto por 24 membros. Oito países – os mesmos que no Banco Mundial – têm o privilégio de nomear um administrador: EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Arábia Saudita, China e Rússia [1]. Os outros 16 administradores são nomeados por grupos de países cuja composição pode diferir ligeiramente dos do Banco Mundial.

O terceiro órgão diretor é o Comité Monetário e Financeiro Internacional (CMFI), que agrupa os 24 governadores com assento no Conselho de Administração. Reúne-se duas vezes por ano (primavera e outono) e tem a função de aconselhar o FMI sobre o funcionamento do sistema monetário internacional.

O Conselho de Administração elege um diretor-geral a cada cinco anos. A contrapartida da regra tácita em vigor no Banco Mundial manda que esse posto seja reservado a um europeu. De 1987 a 2000, esse cargo foi entregue ao francês Michel Camdessus, que se demitiu no seguimento da crise do Sudeste Asiático. O FMI tinha ido em socorro dos credores que fizeram investimentos especulativos e tinha imposto medidas económicas que provocaram o desemprego de mais de 20 milhões de pessoas, provocando fortes protestos populares e a desestabilização de vários governos. Coube ao espanhol Rodrigo Rato ocupar o posto de diretor em 2004, vindo a demitir-se em 2007 para integrar o serviço internacional do Banco Lazard, [2] em Londres. Em 2017 foi condenado pela Justiça espanhola a quatro anos de prisão, por desvio de fundos do banco Bankia. Sucede-lhe em 2007 o francês Dominique Strauss-Khan, ex-ministro socialista das Finanças, obrigado em 2011 a demitir-se, após ter sido denunciado como agressor sexual por uma empregada da cadeia de hotéis Sofitel. [3] Em julho-2011 é substituído pela francesa Christine Lagarde, até aí ministra das Finanças. Christine Lagarde compareceu perante a Justiça no caso Crédit Lyonnais, que custou caro aos contribuintes franceses. Lagarde abandonou o cargo em 2019 para se tornar diretora do Banco Central Europeu Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma instituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
e há muito a contar sobre o FMI sob a sua direcção. Após a partida de Christine Lagarde, os Europeus e Washington se acertaram de novo para colocar uma pessoa europeia à cabeça da instituição: Trata-se de Kristalina Georgieva, economista búlgara e ex-diretora administrativa do Banco Mundial de janeiro de 2017 a setembro de 2019, ocupou por três meses a presidência interina do Grupo Banco Mundial. No início de seu mandato no FMI, Kristalina Georgieva foi questionada por seu trabalho à frente do Banco Mundial. Ela foi acusada de pressionar os autores do relatório Doing Business para favorecer a classificação da China. O relatório de auditoria, elaborado pelo escritório de advocacia WilmerHale a pedido do Banco Mundial, critica em particular a “pressão exercida pela CEO Georgieva e seu assessor, Sr. Djankov, para fazer alterações específicas nos pontos concedidos à China a fim de melhorar sua classificação, precisamente no momento em que o país deveria estar desempenhando um papel fundamental na campanha de aumento de capital do Banco” [4].
Apesar disso, ela foi confirmada como diretora-geral do FMI e reeleita em 2024.

Em 2024, o FMI tinha uma equipe de 3.100 altos funcionários oriundos de 162 países, na sede de Washington na sua maioria. O «número 2» do FMI é sempre um representante dos EUA, cuja influência no seio da instituição é preponderante. Aquando da crise asiática de 1997-1998, Stanley Fischer secundou Michel Camdessus em diversas ocasiões. Na crise argentina de 2001-2002, Anne Krueger desempenhou um papel muito ativo. De 2006 a 2011, John Lipsky, ex-economista-chefe do JP Morgan, um dos principais bancos de negócios norte-americano, teve um papel de primeiro plano. Tinha prevenido desde março de 2010 que os governos dos «países desenvolvidos com défices públicos elevados devem começar desde já a preparar as suas opiniões públicas para as medidas de austeridade que serão necessárias a partir do próximo ano» [5]. Dez anos mais tarde, é forçoso constatar que a agenda neoliberal foi efectivamente instalada, nomeadamente sujeitando ao controlo do FMI a Grécia, a Irlanda e Portugal desde 2010. O FMI também prosseguiu a sua acção nefasta numa série de países do Sul. Em 2018 concedeu o seu maior montante de crédito ao regime neoliberal de Mauricio Macri, na Argentina, dócil aliado dos EUA. Isto levou a um enorme fiasco. Felizmente as receitas impostas pelo FMI a países como o Equador ou o Haiti provocaram enormes mobilizações populares em 2019 (no Equador as medidas tiveram de ser abandonadas tanta a pressão das ruas). Posteriormente, o FMI aproveitou a nova crise da dívida internacional nos países do Sul Global, que começou em 2022, para impor um grande número de planos de austeridade nos cerca de cem países que haviam solicitado seus empréstimos de emergência. Isso levou a grandes protestos populares na Nigéria e no Quênia em 2024. No Quênia, o governo teve de recuar e abandonar as medidas mais impopulares.

 Um funcionamento baseado no modelo da empresa privada

Desde 1969, o FMI possui a sua própria unidade de conta que regula as suas atividades financeiras com os países membros: os Direitos Especiais de Saque (DES; em inglês Special Drawing Rights, SDR). Foi criada, a fim de assegurar o sistema de reservas mais eficaz, num momento em que o sistema instituído em Bretton Woods – baseado em taxas de câmbio fixas e assente no padrão ouro-dólar – estava a falhar. Nada disto impediu o sistema de Bretton Woods de se afundar, após a decisão de Nixon de suprimir a livre conversão do dólar norte-americano em ouro em 1971. Com o sistema de taxas de câmbios flutuantes, o SDR tornou-se sobretudo um bem de reserva entre muitos outros. Segundo o FMI: «O SDR não é uma moeda nem consiste num crédito sobre o FMI. Representa em contrapartida um crédito virtual sobre as moedas livremente utilizáveis dos países membros do FMI.» [6] Sendo de início equivalente a 1 $US, passou mais tarde a ser avaliado quotidianamente [7] a partir de um cabaz de moedas fortes (o dólar americano, o yen, o euro, a libra esterlina e, desde 2016, o renminbi chines). Em 2023, a administração do FMI aprovou um aumento substancial de SDRs, que beneficiou principalmente os países mais ricos [8].

Em contraste com uma instituição democrática, o FMI funciona quase exclusivamente como uma empresa. Todos os países que se tornam membros do FMI têm de depositar uma quota-parte de entrada, tornando-se assim acionistas no capital próprio Capital próprio Soma do capital social (angariado pelos accionistas ou sócios) e dos lucros não distribuídos (reservas). da instituição. Essa quota-parte é calculada em função da importância económica e estratégica do país. 25 % desse valor tem de ser depositado em DTS ou numa das divisas que o compõem (ou em ouro, antes de 1978) e o resto em moeda local do país.

Tal como no caso do Banco Mundial, a quota-parte de um país determina o número de direitos de voto no seio do FMI, que correspondem a 250 votos mais um voto por cada tranche de 100 000 DTS de quota-parte. É assim que o Conselho de Administração concede um lugar preponderante aos EUA (mais de 16,5 % dos direitos de voto). A título de comparação, em janeiro de 2020 o grupo encabeçado pela Mauritânia, constituído por 23 países africanos, representava 339 milhões de pessoas (ou seja 8 milhões mais que os Estados Unidos da América) e possuía apenas 1,62 % dos direitos de voto (ou seja menos de um décimo dos direitos de voto dos EUA).

Em 2016, sob pressão dos países emergentes, entrou em vigor uma reforma sobre a transferência dos direitos de voto, mas na realidade tratou-se apenas de uma farsa.

Tabela 1: Repartição dos direitos de voto entre os administradores do FMI em novembro de 2024 [9]

País%Grupo presidido por%Grupo presidido por%
EUA 16,49 Bélgica 5,46 Brasil 3,06
Japão 6,14 Espanha 4,53 Índia 3,05
China 6,08 Indonesia 4,20 Polonia) 2,93
Alemanha 5,31 Itália 4,12 Egipto 2,58
Reino Unido 4,03 Republica de Corea 3,78 Argelia 2,44
França 4,03 Canadá 3,37 Moçambique 1,83
Rússia (+ Síria) 2,68 Lituania 3,28 Argentina 1,59
Arábia Saudita 2,01 Turquia 3,22 Republica do Congo 1,40
Costa do Marfim 1,40

Fonte: FMI

Com tal sistema, não é difícil ver que os países do Norte conseguem facilmente reunir a maioria dos direitos de voto e portanto comandar o FMI.
O poder que os países do Norte detêm é desmesurado, em comparação com o dos países do Sul, cujos direitos de voto são ridiculamente reduzidos, tendo em conta o volume das populações que representam.
No início de novembro de 2024, o FMI decidiu criar um 25º cargo de Diretor Executivo. Esse cargo vinha sendo discutido há cerca de quinze anos e seria atribuído á África Subsaariana. Essa é uma boa notícia para a África? Será que os órgãos dirigentes do Fundo darão mais atenção a ela?
Digamos de cara que se trata de uma falsa boa notícia. O conjunto dos países da África Subsaariana estavam divididos em dois grupos (com exceção de Gana, que estava em um terceiro grupo) que tinham 4,63% do poder de voto. Agora eles estão divididos em três grupos em vez de dois, e têm 4,61% dos votos. Portanto, o percentual de votos da África no Conselho do FMI não aumentou, na verdade, diminuiu um pouco.
Antes da criação desse novo cargo, o grupo presidido pela Tanzânia incluía 23 países e tinha 3,02% dos votos; o grupo presidido pelo Congo Brazzaville incluía 23 países e tinha 1,61% dos votos. Isso perfaz um total de 4,63% dos votos no FMI. O grupo presidido por Moçambique agora inclui 14 países com 1,83% dos votos, o grupo presidido pela Costa do Marfim inclui 14 países com 1,40% dos votos e o grupo presidido pelo Congo inclui 17 países com 1,40% dos votos. Isso perfaz um total de 4,61% dos votos no FMI.

Os Estados Unidos, por si sós, têm direito a um Diretor Executivo que, quando vota, representa 16,49% dos votos em uma situação em que votos importantes exigem 85% dos votos. Os Estados Unidos são, portanto, o único país com direito a veto.

Se consideramos o caso da França ela tem 4,03% dos votos, apenas um pouco menos do que todos os países da África Subsaariana reunidos. A Alemanha sozinha tem 5,31% dos votos, o que é consideravelmente mais do que todos os países da África Subsaariana juntos.

Também deve ser destacado que dois países muito importantes da África Subsaariana perderam uma proporção significativa de seus direitos de voto com a reforma anterior, datada de 2010 e implementada a partir de 2016. A África do Sul perdeu 21% de seus direitos de voto e a Nigéria perdeu 41% (ver Patrick Bond,The BRICS New Development Bank & Sub-Imperialism: Working within, not against, global financial power).

Tabela 2: Direitos de voto de alguns administradores do FMI em função da população do pais ou do grupo representado

País ou grupoPopulação estimada em 2023 (milhões)Direitos de voto no FMI em novembro 2024 (%)
Grupo presidido pela Índia 1 624,4 3,05
China 1 410,7 6,08
Grupo presidido pela Republica do Congo 487 1,40
Grupo presidido pela Costa do Marfim 405,1 1,40
Grupo presidido pela Mozambique 297,9 1,83
EUA 335 16,49
Rússia (+Síria) 167 2,68
Japão 124,5 6,15
França 68,2 4,03
Arábia saudita 37 2,01

Fonte: FMI; Nações Unidas

 Uma diferença com o Banco Mundial

Ao contrário do que sucede no Banco Mundial, são as quotizações dos Estados que permitem ao FMI constituir reservas destinadas a serem emprestadas aos países com défice temporário. Esses empréstimos são condicionados à assinatura de um acordo que dita as medidas que o país deve tomar. O dinheiro é disponibilizado por tranches, após verificação da aplicação efectiva das medidas exigidas.

Regra geral, um país em dificuldades pode pedir empréstimos ao FMI anualmente, até ao limite de 100 % da sua quota-parte e ao todo até 300 %, salvo em caso de urgência. O empréstimo é de curto prazo e o país deve reembolsar o FMI logo que a sua situação financeira esteja restabelecida.

Deve-se observar também que o FMI cobra sobretaxas de juros sobre os empréstimos que concede aos países que recorrem aos seus serviços. A taxa de juros cobrada pelo FMI quando aplica uma sobretaxa pode chegar ao patamar muito alto de a 8%.

 Mais crítica fica a situação para as populações, mais a influência do FMI cresce

O FMI se tornou um importante detentor de ouro (o terceiro do mundo, em outubro de 2024, logo após os EUA e à Alemanha), pois vários países pagaram a sua quota em metal precioso. Por outro lado, em 1970-1971, a África do Sul, país que o FMI achou perfeitamente aceitável apesar das contínuas violações dos direitos humanos durante o regime do apartheid, vendeu-lhe enormes quantidades de ouro.

Quando, no início do século 21, todos os seus grandes clientes o reembolsaram de forma antecipada ou deixaram de apelar a ele, o FMI atravessou um momento financeiro delicado e, em abril de 2008, o seu Conselho de Administração aprovou a venda de 403 toneladas de ouro, pelo valor de 11 mil milhões $US, a fim de engordar a caixa. Embora estas reservas não tenham intervenção nos empréstimos do FMI, conferem-lhe uma estabilidade e uma estatura essenciais aos olhos dos atores financeiros internacionais.

Após uma nítida queda dos montantes emprestados pelo FMI aos países membros, a crise internacional que estourou em 2007-2008 serviu de pretexto para voltar ao ataque, fazer novos empréstimos – nomeadamente aos países europeus – e impor em contrapartida medidas antissociais draconianas e uma austeridade dramática para os povos.

Tabela 3. Evolução dos créditos Créditos Montante de dinheiro que uma pessoa (o credor) tem direito de exigir a outra pessoa (o devedor). concedidos pelo FMI e dos reembolsos recebidos entre entre 2000 et 2024

Volume total das créditos concedidos pelo FMI para o conjunto dos países membros (bilhões de $US)Créditos desembolsados no ano (bilhões de $US)Reembolsos recebidos pelo FMI no ano (bilhões de $US)
2000 65,6 10,2 24,3
2001 79,6 32,8 21,6
2002 93,7 35,3 24,3
2003 95,6 28,2 29,4
2004 82,6 6,6 22,7
2005 46,2 3,6 43,0
2006 18,2 3,8 33,3
2007 13,1 1,7 7,5
2008 28,6 18,7 4
2009 56,2 29,3 2,3
2010 80,4 28,2 5,3
2011 123,1 45,9 5,4
2012 127,4 21,2 19,8
2013 119,8 19 29,7
2014 100,2 14,9 37,7
2015 76,2 12,3 38,5
2016 74,1 8,5 12,2
2017 61,3 7,6 22
2018 82,2 33,8 14,4
2019 97,8 25,4 12,3
2020 140,8 49,1 8,7
2021 138,3 12,3 18,5
2022 150 36,3 28,6
2023 147,5 27,6 37,8

Source : FMI

A tabela acima mostra claramente que o volume de empréstimos concedidos pelo FMI caiu literalmente entre 2003 e 2007, de mais de 90 mil milhões de dólares para apenas 13,1 mil milhões em 2007. Com a crise financeira de 2008 no Atlântico Norte e os seus efeitos recessivos na economia mundial em 2009, o stock de empréstimos do FMI começou a subir novamente e ultrapassou os 100 mil milhões de dólares anuais entre 2011 e 2014. Seguiu-se um declínio entre 2015 e 2017. O crescimento do crédito foi retomado em 2018 com o enorme empréstimo concedido ao governo neoliberal de Mauricio Macri na Argentina, durante a presidência de Donald Trump. O aumento dos empréstimos do FMI acelerou fortemente após a pandemia de coronavírus em 2020, os efeitos da invasão da Ucrânia em 2022 e o aumento das taxas de juro Juro Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada. decidido pelos principais bancos centrais ocidentais (Reserva Federal dos EUA, Banco Central Europeu, Banco de Inglaterra, etc.). Em 2023, os reembolsos ao FMI (37,8 mil milhões de dólares) excederam claramente os novos empréstimos concedidos (27,6 mil milhões de dólares). Em suma, quanto pior for a situação económica das populações, maior será a influência do FMI.
O FMI utiliza situações desesperadas para alargar a influência do capitalismo neoliberal. Contrariamente ao que por vezes afirma, nunca anula as dívidas. Quando o FMI ou o Banco Mundial se vangloriam de ter anulado uma dívida, na realidade recorreram a um fundo especial criado pelos países membros do FMI ou do Banco Mundial. Conclusão: 1) os países que contribuem para estes fundos contabilizam-nos como Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD), o que por vezes os leva a reduzir outras despesas de APD; 2) o FMI não anula a dívida porque, quando uma parte da dívida de um país em dificuldades é reestruturada, é reembolsada pelo fundo especial contribuído pelos países membros.

 FMI, o bombeiro pirómano

As missões do FMI encontram-se definidas nos seus estatutos: «promover a cooperação monetária internacional, garantir a estabilidade financeira, facilitar as trocas internacionais, contribuir para um nível elevado de emprego e estabilidade económica e fazer recuar a pobreza» [10].

Na realidade, a política do FMI contradiz os seus estatutos. A instituição não favorece a criação de níveis elevados de emprego e de rendimentos reais. Por influência do Tesouro dos EUA e com o apoio de outros países do Norte, as iniciativas do FMI tornaram-no o principal agente que impera sobre as orientações políticas e económicas dos países membros. Para isso não hesita em ultrapassar os seus direitos.

Foi assim que o FMI favoreceu a liberalização completa dos movimentos de capitais – uma das principais causas das crises financeiras que fustigam os países do Sul. Esse alívio de todos os meios de controlo dos movimentos de capitais favorece a especulação Especulação Operação que consiste em tomar posição no mercado, frequentemente contracorrente, na esperança de obter um lucro. e contradiz a secção 3 do artigo 6.º dos estatutos do FMI: «Os Estados membros podem tomar as medidas necessárias para regulamentar os movimentos internacionais de capitais».

Supervisão, ajuda financeira e assistência técnica constituem os três domínios de intervenção do FMI. No entanto, as consultas anuais aos países membros e as recomendações dos seus peritos não lograram que o FMI previsse e evitasse as grandes crises após 1994. As políticas ditadas pelo FMI foram ao ponto de as agravar.

«Os governos do G7, em particular o dos EUA, utilizaram o FMI como instrumento para realizar os seus desígnios políticos. […] Numerosos estudos sobre os efeitos dos empréstimos do FMI não conseguiram estabelecer um elo significativo entre os empréstimos do FMI e o aumento da riqueza ou do rendimento. O reembolso dos credores, com o apoio do FMI aquando das crises recentes, foi especialmente prejudicial e teve efeitos terríveis sobre os países em desenvolvimento. Pessoas que tinham trabalhado duramente para saírem da pobreza assistiram à destruição dos seus feitos, à perda das suas poupanças e à falência das suas pequenas empresas. Os trabalhadores perderam o emprego, frequentemente sem receberem qualquer indemnização por despedimento que permitisse amortecer o choque. Os proprietários nacionais e estrangeiros de bens reais sofreram fortes perdas, enquanto os bancos credores estrangeiros foram protegidos.»
Comissão consultiva do Congresso dos EUA sobre as instituições financeiras internacionais (IFI Advisory Commission), dita Comissão Meltzer, 2000.

Nos últimos anos, as políticas do FMI têm consistido nomeadamente em acabar com os subsídios públicos aos produtos básicos (combustíveis, géneros alimentares) e a serviços de primeira necessidade (transportes públicos) ou em impor medidas antissociais no sistema de segurança social; provocaram levantamentos populares, por exemplo na Nicarágua (abril de 2018), no Sudão (verão de 2018 e em 2019), no Equador (outubro de 2019), no Quenia e na Nigeria em 2024. Decididamente as políticas do FMI não mudaram.

O autor agradece Maxime Pierrot pelo trabalho de releitura e a ajuda na pesquisa dos dados.


Tradução: Rui Viana Perreira e Alain Geffrouais

Notas

[1Sendo a Síria associada a Rússia

[2O Banco Lazard especializou-se no aconselhamento financeiro e na gestão de ativos. Intervém nomeadamente junto dos Estados com dificuldades financeiras. A título de exemplo, interveio na Grécia em 2015, com o conhecido «sucesso»; aconselhou também o regime predador do Congo-Brazzaville.

[3O escândalo DSK ou escândalo do Sofitel de Nova Iorque. Ver Éric Toussaint & Damien Millet, « FMI : la fin de l’histoire ? », CADTM, 20 maio 2011.

[5Notícia Reuters, «Le FMI plaide pour des mesures d’austérité dès l’an prochain», 21-03-2010.

[7Em 20-12-2019, 1 $US era igual a 0,72 SDR http://www.imf.org/external/np/fin/data/param_rms_mth.aspx

[8Banque de France, «Droits de tirage spéciaux émis par le FMI et enjeux de leur recyclage vers les pays les plus vulnérables», Bulletin de la Banque de France n°248, publicado 14/09/2023, https://publications.banque-france.fr/droits-de-tirage-speciaux-emis-par-le-fmi-et-enjeux-de-leur-recyclage-vers-les-pays-les-plus (consultado 6/12/2024)

[9Ver «IMF Executive Directors and Voting Power»: http://www.imf.org/external/np/sec/memdir/eds.aspx

Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.

Outros artigos em português de Eric Toussaint (388)

Na mesma rubrica

CADTM

COMITE PARA A ABOLIÇAO DAS DIVIDAS ILEGITIMAS

8 rue Jonfosse
4000 - Liège- Belgique

+324 56 62 56 35
info@cadtm.org

cadtm.org