As poderosas resistências populares internas nos Estados Unidos contra Trump

26 de Julho por Eric Toussaint


Fotografia de uma manifestação do movimento «No Kings» nos EUA. Geoff Livingston, Flick, CC, https://www.flickr.com/photos/geoliv/54334609786

Um dos elementos essenciais para entender a política internacional de Donald Trump é não considerar os Estados Unidos como um bloco homogéneo apoiando o seu presidente. Ao longo do seu primeiro mandato (2017-2021), bem como do seu segundo mandato, iniciado em janeiro de 2025, Trump deparou-se com resistências internas de uma amplitude considerável. Estas resistências assumiram múltiplas formas: mobilizações de massas, ações sindicais, campanhas eleitorais, movimentos de solidariedade internacional, desobediência civil e o surgimento de candidaturas de esquerda em algumas grandes cidades.



Estas lutas conseguiram, por vezes, travar, alterar ou deslegitimar certas políticas de Trump. Revelaram também a existência, no seio da própria sociedade americana, de um profundo conflito entre um projeto autoritário, nacionalista e reacionário e as aspirações democráticas, igualitárias e internacionalistas.

 As mobilizações das mulheres pelo direito ao aborto

Logo após a chegada de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2017, milhões de mulheres manifestaram-se durante a Women’s March [Marcha das Mulheres], organizada no dia seguinte à sua tomada de posse. Este movimento constituiu uma das mais importantes mobilizações da história dos Estados Unidos. Expressava a rejeição ao sexismo de Trump, às suas declarações misóginas e à sua vontade de pôr em causa os direitos reprodutivos.
A Women’s March de janeiro de 2017 continua sendo uma das maiores manifestações da história dos Estados Unidos, com uma participação estimada entre três e cinco milhões de pessoas. Mostrou imediatamente que a eleição de Trump suscitava uma oposição em massa, particularmente entre as mulheres, as minorias e os movimentos progressistas.
A questão do aborto tornou-se central quando o Supremo Tribunal, incorporando juízes conservadores e conservadoras nomeados por Trump, anulou, em junho de 2022, ainda durante o mandato de Joe Biden, o acórdão Roe versus Wade, que garantia, desde 1973, o direito constitucional ao aborto. Esta decisão provocou uma onda de manifestações em todo o país e contribuiu para uma forte mobilização eleitoral a favor dos candidatos que defendiam o direito ao aborto.
Em reação à anulação, em junho de 2022, do acórdão Roe versus Wade pelo Supremo Tribunal, influenciado por Trump e pelo seu campo político, o eleitorado norte-americano foi chamado a pronunciar-se diretamente sobre o aborto em dezasseis estados entre 2022 e 2024. Em treze desses estados, o campo favorável à manutenção ou à extensão do direito ao aborto saiu vitorioso nas urnas, incluindo em vários estados conservadores como o Kansas, o Kentucky, o Montana, o Ohio, o Missouri e o Arizona [1]. Estes resultados mostram que a vontade de penalizar o aborto não conta com um apoio maioritário uniforme no eleitorado norte-americano e que suscita uma resistência popular significativa, inclusive em bastiões republicanos.
Assim, a defesa dos direitos das mulheres tornou-se um dos principais pontos de cristalização da oposição a Trump e ao trumpismo.

 Mobilizações ecologistas e científicas

A March for Science, organizada em abril de 2017, constituiu uma resposta direta ao ceticismo climático de Trump e aos seus ataques contra as agências científicas federais. Cerca de um milhão de pessoas participaram em manifestações em mais de seiscentas cidades, denunciando a negação dos dados científicos sobre as alterações climáticas.
A People’s Climate March, também em 2017, reuniu cerca de duzentas mil pessoas em Washington e várias centenas de milhares em todo o país. A manifestação contestava a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e as políticas favoráveis às indústrias de combustíveis fósseis.

 Mobilizações contra as armas de fogo

Após o tiroteio em Parkland, na Flórida, em fevereiro de 2018, o movimento «March for Our Lives» mobilizou entre um e dois milhões de pessoas, principalmente jovens. Realizaram-se mais de oitocentas manifestações nos cinquenta estados. Este movimento contestava o apoio de Trump ao lobby das armas, a National Rifle Association (NRA), e contribuiu para tornar a regulamentação das armas de fogo uma questão política de grande importância.

 As greves do pessoal da educação

As greves dos professores em 2018 e 2019 marcaram um ponto de virada nas lutas sociais americanas. Mais de quinhentos mil membros do corpo docente e do pessoal escolar participaram em movimentos de greve em vários estados, inclusive estados conservadores. Estas mobilizações exigiam aumentos salariais, um melhor financiamento da educação pública e uma redução das desigualdades escolares.

 Black Lives Matter e a luta contra o racismo sistémico

O movimento Black Lives Matter, que surgiu na sequência da violência policial contra afroamericanos, atingiu o seu auge em 2020, após o homicídio de George Floyd por um agente da polícia em Minneapolis. O movimento Black Lives Matter representou a maior onda de mobilização da história recente dos Estados Unidos. Após o assassinato de George Floyd, em maio de 2020, realizaram-se manifestações em mais de duas mil cidades e localidades. Alguns estudos estimam que entre quinze e vinte e seis milhões de pessoas participaram em pelo menos uma manifestação, o que faria deste o maior movimento de protesto da história dos Estados Unidos.
O Black Lives Matter conseguiu avanços importantes: o questionamento das práticas policiais, a remoção de símbolos racistas em várias cidades e a integração do tema do racismo estrutural no debate político nacional.
Trump reagiu adotando uma postura de confronto. Qualificou alguns manifestantes e algumas manifestantes de «delinquentes» e ameaçou mobilizar o exército contra as manifestações. Esta resposta reforçou a perceção de um presidente que apoia um aparelho policial militarizado e se recusa a reconhecer a existência do racismo sistémico.
O movimento Black Lives Matter conseguiu, no entanto, avanços importantes: o questionamento de certas práticas policiais, debates sobre o financiamento da polícia, a remoção de símbolos racistas em várias cidades e a integração do tema do racismo estrutural no debate político nacional.

 Após 6 de janeiro de 2021

O assalto ao Capitólio por apoidores de Trump, a 6 de janeiro de 2021, provocou uma onda de mobilizações em defesa da democracia. Realizaram-se manifestações em numerosas cidades americanas para denunciar a tentativa de contestar o resultado das eleições presidenciais de 2020 e para exigir a proteção das instituições democráticas.

 A solidariedade com a Palestina

A questão palestiniana tornou-se outro importante campo de resistência interna. Durante o primeiro mandato de Trump, o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel em 2017, seguido da transferência da embaixada norte-americana, suscitou uma forte oposição numa parte da sociedade norte-americana.
Esta oposição intensificou-se a partir de 2023 com a guerra genocida travada por Israel contra Gaza, guerra que recebeu o apoio ativo da administração democrata de Joe Biden. O movimento continuou durante o segundo mandato de Trump. Centenas de milhares de pessoas protestaram nas grandes cidades americanas para denunciar o apoio militar e diplomático dos Estados Unidos a Israel.
Os campus universitários desempenharam um papel central. Os estudantes organizaram acampamentos, ocupações e ações de desinvestimento visando empresas ligadas à indústria militar israelita. Apesar de uma repressão muitas vezes brutal, estas mobilizações contribuíram para fazer avançar o debate público: pela primeira vez em décadas, uma parte significativa da juventude americana questiona abertamente o apoio incondicional de Washington a Israel.
As mobilizações de solidariedade com a Palestina assumiram uma dimensão sem precedentes a partir de 2023. No pico das mobilizações, centenas de milhares de pessoas saíram em protesto simultaneamente nas grandes cidades americanas. Os acampamentos universitários abrangeram mais de uma centena de universidades e faculdades, envolvendo diretamente dezenas de milhares de estudantes e provocando centenas de detenções.

 As mobilizações contra o ICE e as políticas migratórias

As políticas migratórias de Trump também suscitaram uma resistência maciça. Já em 2017, as manifestações contra o «Muslim Ban», que proibia a entrada de cidadãos de vários países de maioria muçulmana, invadiram os aeroportos norte-americanos.
Milhares de ações ligadas aos direitos dos imigrantes e com a oposição à ICE em todos os 50 estados
A separação de milhares de crianças migrantes dos seus pais na fronteira com o México provocou indignação internacional. O movimento «Families Belong Together» organizou manifestações de grande dimensão para exigir a reunificação das famílias.
Durante o segundo mandato, as mobilizações contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement) intensificaram-se face às batidas, às expulsões e aos centros de detenção para migrantes. Foram criadas redes de solidariedade em várias cidades para proteger as pessoas ameaçadas de expulsão e para documentar os abusos cometidos pelas autoridades de imigração. As ações mobilizaram várias centenas de milhares de pessoas de forma contínua em mais de 16 grandes metrópoles e em centenas de municípios rurais ou periurbanos.
Foram registadas milhares de ações relacionadas com os direitos dos imigrantes e com a oposição à ICE em todos os 50 estados. Se incluirmos as mobilizações «No Kings» (ver abaixo), foram mais de 10 milhões de pessoas que participaram em manifestações de rua para denunciar a política antimigrante e os métodos da ICE.

 O movimento «No Kings»

O movimento «No Kings» surgiu como uma resposta direta aos excessos autoritários de Trump. Denuncia a concentração do poder presidencial, os ataques às instituições democráticas, as ameaças contra os meios de comunicação social e a vontade de governar por decreto.
As manifestações «No Kings» reuniram cidadãos e cidadãs de diversas orientações políticas, unidos pela recusa em ver os Estados Unidos evoluírem para um regime cada vez mais autoritário. Este movimento relembrou que a defesa das liberdades democráticas continua a ser um desafio central da resistência ao trumpismo.
O movimento «No Kings» constitui uma das expressões mais significativas da oposição ao segundo mandato de Trump. Os principais dias de mobilização nacional, nomeadamente em 2026, reuniram, segundo as estimativas, entre três e cinco milhões de pessoas em mais de mil e quinhentas cidades e localidades. Esta dimensão torna-o uma das maiores mobilizações anti-Trump desde a «Women’s March» de 2017.
Eis três datas importantes das mobilizações «No Kings»:

  • 14 de junho de 2025 (No Kings 1.0): Cerca de 5 milhões de pessoas em mais de 2 100 lugares.
  • 18 de outubro de 2025 (No Kings 2.0): Cerca de 7 milhões de pessoas em mais de 2 700 lugares.
  • 28 de março de 2026 (No Kings 3.0): Cerca de 8 milhões de pessoas reunidas em mais de 3 300 lugares.

 As mobilizações LGBTQ+

As políticas de Trump destinadas a limitar os direitos das pessoas transgénero, especialmente nas forças armadas e em certos domínios da vida pública, suscitaram uma forte oposição. Entre 2022 e 2026, as mobilizações contra as leis antitrans reuniram dezenas de milhares, ou mesmo centenas de milhares de pessoas, durante dias nacionais de ação.

 As resistências sindicais e sociais

Não se deve esquecer o papel dos sindicatos e dos movimentos sociais. Os anos de 2021 a 2026 foram marcados por um ressurgimento das lutas operárias nos Estados Unidos: greves na indústria automóvel, no setor dos serviços, nos armazéns da Amazon, nos cafés Starbucks e no setor da educação.
Estas mobilizações ultrapassaram frequentemente as reivindicações salariais para denunciar as desigualdades sociais, a precariedade do trabalho e o poder excessivo das grandes empresas. Mostraram que uma parte significativa da classe trabalhadora norte-americana não se identifica nem com o neoliberalismo do Partido Democrata nem com o nacionalismo reacionário de Trump.

 Os sucessos eleitorais da esquerda: o caso de Zohran Mamdani

As resistências a Trump não se limitam às mobilizações de rua. Expressam-se também no terreno eleitoral, nomeadamente através do surgimento de candidatos de esquerda em algumas grandes cidades.
O caso de Zohran Mamdani é particularmente significativo. Membro dos Democratic Socialists of America (DSA), venceu as primárias democratas para a presidência da câmara de Nova Iorque, frente a candidatos e candidatas apoiados pelo establishment do Partido Democrata. Foi eleito presidente da câmara de Nova Iorque em novembro de 2025, apesar das ameaças de Trump e da campanha levada a cabo contra ele por 26 bilionários norte-americanos que, segundo a revista Forbes, gastaram mais de 22 milhões de dólares para impedir a sua eleição. Felizmente, a vontade e a energia populares, sobretudo entre os mais jovens, triunfaram sobre o poder do dinheiro e do capital [2] .
A sua campanha, centrada na habitação acessível, na gratuidade dos transportes públicos, na tributação das grandes fortunas e na solidariedade com a Palestina, mobilizou uma grande parte da juventude e das classes populares. Demonstrou que uma alternativa política de esquerda pode emergir nos Estados Unidos, apesar do peso do sistema bipartidário e da influência do dinheiro nas campanhas eleitorais.
O sucesso de Mamdani insere-se numa dinâmica mais ampla, que inclui as vitórias de figuras como Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib, Ilhan Omar e outros representantes eleitos progressistas. Esta esquerda americana continua a ser minoritária, mas representa uma força crescente capaz de contestar tanto o trumpismo como as orientações centristas do Partido Democrata.

 Uma resistência multifacetada

As resistências internas nos Estados Unidos mostram que o projeto político de Trump enfrenta oposições profundas e duradouras [3].
Se somarmos estas diferentes ondas de mobilizações, verificamos que dezenas de milhões de pessoas participaram, em algum momento, em ações de protesto contra as políticas de Trump ou contra as tendências autoritárias, racistas, patriarcais, belicistas e neoliberais do trumpismo.
Estes movimentos não formam um bloco homogéneo, mas constituem um mosaico de resistências que atravessa toda a sociedade americana: mulheres, afro-americanos, latino-americanos, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras, cientistas, membros do corpo docente, ativistas ambientais, defensores dos direitos LGBTQ+ e defensores da democracia.
Estas mobilizações alcançaram, por vezes, vitórias concretas, mas deparam-se também com uma repressão crescente, com o poder dos meios de comunicação conservadores e com a polarização política do país. Símbolos desta repressão, Renee Nicole Good e Alex Pretti, que tentavam interpor-se às operações contra os migrantes em Minneapolis, foram ambos mortos por agentes do ICE.
No entanto, estes movimentos constituem um elemento fundamental para compreender os limites do poder de Trump. Recordam que, mesmo no coração da primeira potência imperialista mundial, existem forças sociais e políticas que contestam o autoritarismo, o racismo, o patriarcado, o militarismo e as políticas neoliberais.
Assim, a história do trumpismo não pode ser escrita apenas do ponto de vista da Casa Branca. Deve também ser contada a partir dos milhões de pessoas que, nas ruas, nos campus, nos locais de trabalho e nas urnas, resistiram e continuam a resistir ao seu projeto político.


Tradução: Alain Geffrouais

Notas

[1Os 13 estados onde o movimento pró-aborto saiu vitorioso: em 2022, Kansas, Califórnia, Michigan, Vermont, Kentucky, Montana; em 2023: Ohio; em 2024: Arizona, Colorado, Maryland, Missouri, Nevada, Nova Iorque.

[2«Zohran Mamdani, após a sua eleição para presidente da Câmara de Nova Iorque a 5 de novembro de 2025: «Nova Iorque continuará a ser uma cidade de imigrantes: uma cidade construída por imigrantes, animada por imigrantes», CADTM, publicado a 6 de novembro de 2025, https://www.cadtm.org/Zohran-Mamdani-apres-son-election-a-la-mairie-de-New-York-le-5-novembre-2025 consultado a 21 de julho de 2026.

[3Em breve publicarei um artigo sobre o movimento nos Estados Unidos contra as dívidas ilegítimas exigidas às classes populares.

Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.

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