1 de Dezembro de 2023 por Eric Toussaint , Pablo Laixhay
Intervenção de Éric Toussaint sobre o papel dos bancos centrais nas policrises capitalistas..
No âmbito do Congresso Nacional e Internacional sobre Bancos Centrais, Sistema Financeiro e Desenvolvimento Econômico, organizado em Bogotá nos dias 23 e 24 de novembro de 2023 com a participação ativa da Federação Nacional de Sindicatos do Setor Bancário da Colômbia (FENASIBANCOL) e da União Nacional dos Empregados do Setor Bancário (UNEB), Éric Toussaint foi convidado a abrir o segundo dia do congresso. Seu discurso de 45 minutos, proferido para uma centena de participantes de sindicatos do setor bancário da Colômbia, Chile, Brasil, Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai, Costa Rica, El Salvador e Peru, concentrou-se no papel dos bancos centrais para lidar com situações de múltiplas crises.
O texto a seguir, dividido em quatro pontos principais, foi extraído de seu discurso.
Existe um forte vínculo entre os dirigentes dos bancos comerciais e os dirigentes dos bancos centrais, o que logicamente leva esses últimos a favorecer os interesses particulares dos principais acionistas dos bancos privados
Os bancos centrais têm um papel fundamental a desempenhar na contribuição para o desenvolvimento econômico e social. Em particular, isso significa «monetizar a dívida», comprando diretamente dos governos títulos da dívida soberana
Dívida soberana
Dívida de um Estado ou garantida por um Estado.
ou títulos de agências soberanas para financiar as políticas públicas. Isso também significa apoiar as instituições de crédito público no financiamento de pequenas entidades, pequenas empresas, cooperativas e outros participantes da vida econômica do país. Para isso, é essencial que os sindicatos e outros lutem para acabar com o dogma neoliberal nocivo da autonomia dos bancos centrais em relação ao poder executivo e legislativo, que serve apenas para legitimar sua subordinação ao grande capital. Os bancos centrais devem prestar contas aos governos eleitos, aos cidadãos, e não aos acionistas dos grandes bancos e corporações. Atualmente, existe um forte vínculo entre os dirigentes dos principais bancos comerciais e os dirigentes dos bancos centrais, o que logicamente leva esses últimos a favorecer os interesses particulares dos principais acionistas dos bancos privados e a socorrê-los em caso de dificuldades para evitar a falência, muitas vezes incondicionalmente. Esse vínculo deve ser rompido.
Entre 2019 e 2022, mais 95 milhões de pessoas caíram na pobreza extrema em todo o mundo
É impossível entender o papel dos bancos centrais sem analisar os acontecimentos internacionais. Dois relatórios recentes produzidos por instituições financeiras internacionais destacam a evolução preocupante da situação internacional. Em primeiro lugar, de acordo com o último relatório do Banco Mundial, entre 2019 e 2022, mais 95 milhões de pessoas caíram na pobreza extrema em todo o mundo. Por outro lado, de acordo com o World Economic Outlook do FMI, publicado em abril de 2023, enquanto em 2008 seriam necessários 80 anos para reduzir pela metade a diferença de renda per capita entre os países do Sul e os do Norte, o cálculo atualizado agora sugere que serão necessários 130 anos para fazer o mesmo progresso. Esses dois fatos destacam o agravamento das desigualdades entre o Norte e o Sul, entre as classes capitalistas e as classes trabalhadoras, entre os chamados países «em desenvolvimento» e os chamados países «desenvolvidos», e o fracasso dessas duas instituições (BM e FMI) que deveriam lutar contra a pobreza e pela estabilidade econômica mundial.
O sistema capitalista mundial entrou em uma nova crise generalizada. Agora falamos de uma crise capitalista multifacetada ou «policrise»:
Por fim, a situação econômica atual e a combinação dessas diferentes crises estão nos levando a uma nova crise da dívida soberana que afetará tanto os países do Norte quanto os do Sul, embora estes últimos sejam os mais atingidos. A dimensão histórica da crise da dívida é particularmente importante, pois ela faz parte de uma série de crises. De fato, houve várias crises importantes da dívida (cinco) nos últimos dois séculos.
| Ler também : Mais profunda do que nunca, a crise do capitalismo sem mais alento |
Primeiro, em 1826. Países da periferia, como a Gran Colômbia de Simon Bolívar, contraíram enormes dívidas com os bancos de Londres, o centro imperialista dominante da época, para financiar a luta pela independência. Assim, eles entraram em um novo ciclo de subordinação e dependência dos credores e foram forçados a vender seus recursos para pagar os empréstimos. Após a crise bancária de Londres de 1825 e a súbita interrupção dos fluxos de capital do centro para a periferia, esses países entraram em default e enfrentaram a intervenção armada das potências imperialistas, que passaram a impor o pagamento dos empréstimos. Esse ciclo (fluxos de capital, dificuldades econômicas, inadimplência, pressão imperialista) foi repetido várias vezes durante o século XIX.
Depois, a quebra de Wall Street em 1929 e a crise geral de 1933 interromperam novamente os fluxos de capital e levaram a uma nova série de inadimplência e crises de dívida nos países latino-americanos. Paradoxalmente - ou não - esses países se beneficiaram da suspensão dos pagamentos para investir o capital economizado em políticas de substituição de importações, gerando uma onda de industrialização e crescimento econômico na região entre 1930 e 1960.
Mais uma vez, a partir da década de 1960, os países da América Latina entraram em uma nova fase de endividamento maciço, impulsionada principalmente pelo FMI e pelo BM. Essa fase foi interrompida bruscamente na década de 1980, quando os preços das commodities
Commodities
O termo commodities designa, do ponto de vista da produção, os mercados de matérias-primas (produtos agrícolas, minerais, metais e metais preciosos, petróleo, gás, etc.); do ponto de vista financeiro designa os bens susceptíveis de serem transaccionados no mercado financeiro.
despencaram nos mercados internacionais e, ao mesmo tempo, o FED decidiu aumentar unilateralmente as taxas de juros às quais os empréstimos dos países do Sul estavam indexados. O resto nós sabemos: intervenções do FMI, planos de ajuste estrutural generalizados, privatizações, desestruturação do estado de bem-estar social, ondas de liberalização, décadas perdidas etc.
Dois terços dos países de baixa renda estão superendividados e 54 países do Sul estão atualmente em dificuldades financeiras
Entender esses ciclos de endividamento e de crise da dívida é particularmente importante para entender a situação atual. Hoje, os países do Sul estão mais endividados do que nunca. Dois terços dos países de baixa renda estão superendividados e 54 países do Sul estão atualmente em situação de estresse financeiro. O FMI ostenta uma capacidade de empréstimo sem precedentes, com um aumento em seus fundos de 650 bilhões de dólares e intervenções em 96 países desde 2020. Suas intervenções são sempre acompanhadas de mais privatizações, cortes nos orçamentos públicos, liberalização das economias e assim por diante.
É nesse contexto que os países do Sul foram atingidos por vários choques externos nos últimos três anos:
Os países do Norte, que estão muito mais endividados em porcentagem do PIB do que os países do Sul, também não escaparão e provavelmente enfrentarão medidas severas de austeridade
Não é surprendente então que essa série de choques esteja precipitando uma nova crise da dívida, que atingirá ainda mais os países que dependem da importação de combustíveis fósseis e cereais. Os países do Norte, que são muito mais endividados em porcentagem do PIB
PIB
Produto interno bruto
O produto interno bruto é um agregado económico que mede a produção total num determinado território, calculado pela soma dos valores acrescentados. Esta fórmula de medida é notoriamente incompleta; não leva em conta, por exemplo, todas as actividades que não são objecto de trocas mercantis. O PIB contabiliza tanto a produção de bens como a de serviços. Chama-se crescimento económico à variação do PIB entre dois períodos.
do que os países do Sul, também não escaparão e provavelmente enfrentarão medidas de austeridade profundas - como já vimos na Grécia e no Chipre na década de 2010 -, bem como o surgimento de movimentos de extrema direita que usam o empobrecimento das classes média e trabalhadora para impor políticas populistas, racistas e anti-imigração.
O desafio é, portanto, colossal, e os bancos centrais têm um papel crucial a desempenhar. Há uma necessidade urgente de substrair-los da influência controladora do grande capital comercial, industrial e financeiro e colocá-los novamente a serviço do povo e do interesse geral. Suas missões precisam ser urgentemente revisadas para permitir investimentos públicos maciços para enfrentar as crises climáticas e sociais. Esses investimentos são essenciais se quisermos evitar ou limitar a catástrofe. Para isso, são necessárias mudanças estruturais radicais, bem como a introdução de várias medidas, como a socialização de bancos privados - ou seja, a transformação de bancos privados em serviços públicos sob controle público -, a imposição de missões de interesse público às principais seguradoras, a criação de registros de riqueza para identificar a riqueza dos mais ricos, a introdução de medidas redistributivas em favor de políticas de justiça social, etc.
Os confrontos com o grande capital financeiro são inevitáveis e necessários se quisermos implementar políticas progressistas, anticapitalistas, ecossocialistas e feministas.
Tradução: Alain Geffrouais
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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