2 de Julho por Eric Toussaint

«Civilização Ocidental e Cristã» (1965), obra do artista argentino Leon Ferrari. Foto de Eric Toussaint, CC
Num momento em que é extremamente urgente a solidariedade com o povo cubano, publicamos um comentário de Éric Toussaint a propósito do artigo do autor cubano Josué Veloz Serrade intitulado «Cuba frente a um multilateralismo hipócrita».
O título foi tirado de um importante artigo de Josué Veloz Serrade [1] publicado no sítio cubano La Tizza, com o título «Cuba en la encrucijada de un multilateralismo hipócrita», escrito em março de 2026 e posteriormente publicado pelo CADTM em português, espanhol e francês. Chegou às minhas mãos por intermédio de Aurélio Tejeda, que mo enviou de Havana. Ao enviar-me o artigo de Josué Veloz Serrade, que eu não conhecia, Aurélio escreveu: «Isto é do melhor que eu li nos últimos meses» («Esto es lo mejor que he leido en estos últimos meses»). Este comentário, vindo de quem vinha, convenceu-me a ler o artigo. Aurélio Alonso Tejada, nascido em Havana em 1939, é um dos intelectuais marxistas e analistas sociais mais notáveis de Cuba após a Revolução de 1959. Sociólogo, filósofo e ensaísta, é conhecido pelas suas obras sobre socialismo cubano, religião, geopolítica e as transformações da sociedade cubana contemporânea. Conheço-o pessoalmente há mais de 30 anos. Muitas vezes exprimiu a uma opinião crítica sobre a situação em Cuba e em certos momentos isso não foi do agrado das autoridades, mas sempre se manteve fiel ao seu empenho revolucionário e permaneceu em Cuba, onde o seu valor é largamente reconhecido. Aurélio é uma das figuras do pensamento crítico cubano contemporâneo. Conheci-o na mesma ocasião em que conheci Fernando Martínez Heredia (1939-2017) [2], Juan Valdés Paz (1938-2021), Rafael Hernández (1946-…), Luis Suárez (1950-…).
O artigo de Josué Veloz Serrade parte de uma ideia fundamental: a crise actual que atravessa Cuba, nomeadamente a crise energética, não resulta principalmente de falhas internas, mesmo que as haja, mas sim da acumulação de mais de seis décadas de bloqueio económico imposto pelos EUA. Segundo o autor, o objectivo dessa política não é apenas castigar o governo cubano, mas também provocar a progressiva implosão económica do regime. Acrescentemos a isto que Washington procura provocar uma rendição como a que impôs às autoridades da Venezuela em janeiro de 2026.
Um dos temas centrais do artigo é a crítica do que o autor chama «multilateralismo hipócrita». Ele acha que as grandes potências que se apresentam como defensoras de um mundo multipolar, em particular a Rússia e a China, se limitam a emitir declarações de solidariedade. Condenam o bloqueio nos fóruns internacionais, mas recusam tomar medidas concretas suficientemente fortes que permitam contorná-lo – por exemplo, fornecendo mais petróleo, criando mecanismos financeiros alternativos realmente eficazes, ou assegurando a protecção dos fornecimentos destinados à ilha. Para o autor, esta atitude revela que essas potências procuram antes de tudo melhorar a sua posição dentro da ordem mundial reinante, em vez de a transformar.
O próprio autor destaca: «Cuba não enfrenta apenas a hostilidade do Império, mas também o abandono silencioso de quem, em teoria, deveria contestar a ordem multipolar»
O artigo critica igualmente os governos progressistas da América Latina, nomeadamente os do Brasil e da Colômbia. Embora alardeiem o seu apoio a Cuba no plano discursivo, não se mostram dispostos a entrar em verdadeiro confronto com a política norte-americana. O autor considera que esta prudência é um erro estratégico, pois o abandono de Cuba enfraquece o conjunto das forças que pretendem defender a soberania dos países do Sul.
O autor resume: «Ao permitirem que um projeto soberano seja destruído pelo império sem consequências, eles enviam uma mensagem às suas próprias populações e a outros atores secundários: a solidariedade é um luxo que não podemos nos permitir; quando chegar a sua vez, você estará sozinho».
Outra ideia importante é a rejeição do mito da autossuficiência. Segundo o autor, nenhum país em todo o mundo é verdadeiramente autossuficiente, nem sequer os EUA, a China ou a Rússia. Por conseguinte, exigir a Cuba que se desenvolva de forma autónoma apesar do bloqueio, é uma exigência injusta e irrealista. Essa exigência serve sobretudo para transferir a responsabilidade da crise para cima das autoridades cubanas e minimizar o papel das sanções.
O autor analisa também o discurso que apresenta Cuba como um «Estado falhado». A seu ver, esta acusação inverte as causas e os efeitos. As dificuldades económicas, a penúria e a emigração são interpretadas como provas do falhanço do sistema cubano, quando, segundo ele, elas resultam largamente da agressão económica externa. A cantilena do «Estado falhado» serviria assim para justificar o abandono de Cuba, ou até uma futura intervenção.
Para fundamentar a sua argumentação, o artigo estabelece vários paralelos históricos. Nomeadamente, compara a situação em Cuba com a da República espanhola, abandonada pelas «democracias» ocidentais face ao franquismo, enquanto Hitler e Mussolini intervinham militarmente para facilitarem a vitória de Franco. O artigo também refere as experiências do Vietname e do Irão, que ilustram a capacidade de resistir a agressões externas. Estes exemplos visam demonstrar que o abandono de um país atacado pode ter consequências geopolíticas muito mais vastas que o simples destino nacional.
Josué Veloz Serrade apresenta Cuba como um símbolo político. O autor considera que a ilha representa a prova de que é possível resistir durante décadas à maior potência mundial e ao mesmo tempo preservar grandes conquistas sociais, nomeadamente no domínio da saúde, da educação e da cultura. É precisamente esta capacidade de resistência que faz de Cuba um exemplo que incomoda a ordem internacional dominante.
O autor procede ainda a uma análise das mudanças que ocorreram na diáspora cubana, incluindo aquela que se encontra em Miami. Segundo ele, a comunidade cubana instalada nos EUA já não é a mesma de 1960. Nessa época, a comunidade exilada era composta em grande parte por membros das antigas elites cubanas – latifundiários, empresários, profissionais liberais e opositores políticos que abandonaram a ilha após a Revolução de 1959. Esta primeira vaga constituía o núcleo duro do anticastrismo e desempenhou um papel central na constituição de um poderoso lobby cubano-americano favorável à manutenção do bloqueio.
O autor afirma que actualmente a composição sociológica da diáspora sofreu uma mudança profunda. A maioria dos cubanos a viverem nos EUA tendem a ser migrantes económicos aí chegados nas últimas décadas. De maneira geral mantêm laços familiares, afectivos e culturais muito estreitos com Cuba: os seus pais, filhos, irmãos e irmãs continuam a viver na ilha. Muitos deles enviam regularmente poupanças às suas famílias.
A partir desta evolução demográfica, Josué Veloz Serrade desenvolve uma tese política: em caso de maior escalada ou mesmo de uma hipotética intervenção militar norte-americana em Cuba, Washington deixaria de contar com o apoio unânime da comunidade cubano-americana, como poderia ter sido o caso na década de 1960. Bombardear ou atacar Cuba significaria, para muitos cubano-americanos, pôr em perigo a sua própria família, as pessoas próximas e os seus lugares de origem.
O autor vai ainda mais longe, quando fala de uma espécie de «quinta coluna invertida»: enquanto outrora Miami era percebida como uma retaguarda da oposição à revolução cubana, hoje em dia poderia tornar-se, em circunstâncias extremas, um centro de contestação da política americana em relação a Cuba. Os laços afectivos e familiares seriam mais fortes que as clivagens ideológicas.
Por fim, o artigo conclui com um apelo à acção. As declarações de solidariedade são julgadas insuficientes. O autor pede aos Estados que afirmam apoiar Cuba que passem a tomar medidas concretas: fornecimento e petróleo, criação de mecanismos financeiros alternativos, protecção dos abastecimentos e pressões diplomáticas reais contra o bloqueio. Apela também aos movimentos de solidariedade internacionais para que exerçam pressão sobre os seus governos, a fim de que o apoio a Cuba deixe de ser simplesmente simbólico e se torne politicamente efectivo.
Partilho em larga medida o diagnóstico e a opinião de Josué Veloz Serrade. Acrescento as observações seguintes.
A atitude da Rússia e da China é efectivamente a descrita pelo autor. As consequências da sua inacção podem ser dramáticas. A Rússia dirigida por Putin abandonou Cuba perante Washington e serve-se dela na negociação com Trump para que este lhe conceda uma margem de manobra alargada na Ucrânia. [3] Putin fez o mesmo em relação à Venezuela, ao Irão, ao Líbano e ao povo da Palestina. Desde o início do seu segundo mandato, Donald Trump conseguiu que Vladimir Putin, tirando as declarações verbais, não reagisse aos actos de agressão e guerra perpetrados por Washington contra os aliados de Moscovo, tanto no caso da Venezuela como do Irão, bem como em relação ao bloqueio total de Cuba aplicado desde janeiro de 2026. Trump deu uma reviravolta em relação à política adoptada durante o seu primeiro mandato, durante o qual pôs a China e a Rússia no mesmo plano, considerando-os adversários que pretendiam pôr em causa a ordem internacional dominada por Washington. Donald Trump endereça uma mensagem a Moscovo, dando a entender que aceita que Moscovo use e abuse da força nas suas imediações geográficas, nomeadamente na Ucrânia, tal como Washington faz nas Américas, no Próximo Oriente e noutros lugares. Trump afirma o seu direito a usar a força em toda a parte do mundo e reconhece de facto o direito de Putin fazer o mesmo num perímetro limitado que corresponde a uma parte do território da ex-império russo do tempo dos czares e da ex-URSS. Isto corresponde à lógica clássica de partilha implícita das zonas de influência entre grandes potências imperialistas. Putin fez saber que o documento de estratégia internacional publicado por Trump em dezembro de 2025 coincidia em larga medida com a visão de Moscovo. [4]
A falta de assistência ao povo cubano posto em perigo serve à Rússia e à China como moeda de troca nas negociações com os EUA
Aquando do longo discurso pronunciado em São Petersburgo no início de junho de 2026, por ocasião do Fórum Económico Internacional (onde estiveram presentes representantes dos estados e das grandes empresas), Putin não fez qualquer referência a Cuba, ao Irão, à Venezuela ou a Gaza. [5] E só uma vez mencionou o que ele chama o «conflito na Ucrânia». No seu conjunto, o discurso confirma a política expressa por Josué Veloz.
| Ver: Éric Toussaint, «Trump, Putin e a Ucrânia: a partilha das zonas de influência em detrimento dos povos» |
Quanto à China, embora Trump esteja lançado numa ofensiva contra ela, decidiu não reagir e não ir em auxílio de Cuba, ou seja, decidiu não agir para limitar a agressividade económica, tarifária e militar de Washington e precaver um máximo de margem de manobra na sua região, incluindo Taiwan. Durante a Cimeira do G7 em Évian-les-Bains (junho de 2026), Donald Trump declarou publicamente que agradecia ao presidente chinês Xi Jinping e ao presidente russo Vladimir Putin a sua «neutralidade» na guerra contra o Irão. [6] Poderia ter acrescentado a esta lista Cuba e a Palestina.
A falta de assistência ao povo cubano em perigo serve à Rússia e à China como moeda de troca nas negociações com os EUA.
A Rússia e a China poderiam em conjunto ou separadamente desafiar o bloqueio total decretado por Washington contra Cuba, sem correrem riscos inultrapassáveis.
Quanto aos governos progressistas da América Latina, concordo com a crítica firme que lhes é feita: a sua ausência de acção resoluta perante o bloqueio de Washington contra Cuba é nefasta. A crítica de Josué ao Brasil é inteiramente justificada. Classificar a atitude da Colômbia de Petro na mesma categoria parece-me exagerado. O Governo da Colômbia não tem o mesmo poder nem uma margem de manobra comparáveis às do Brasil.
Embora Josué não o faça no seu artigo, é igualmente legítimo dirigir uma crítica ao governo de Claudia Sheinbaum. No entanto, é preciso explicitar os factos. Até final de 2025, a Venezuela continuava a ser o principal fornecedor de petróleo a Cuba. A agência de notícias Reuters indicou em janeiro de 2026 que em 2025 a Venezuela tinha fornecido à ilha cerca de 26.500 barris por dia, contra 5.000 barris por dia do México, que estava então em segundo lugar. [7] Só depois da interrupção dos carregamentos venezuelanos, em finais de 2025, início de 2026, as remessas mexicanas se tornaram um apoio energético particularmente importante para Cuba. [8] A própria Claudia Sheinbaum reconheceu que, no novo contexto, o México se tornou um «important supplier» para a ilha, acrescentando que anteriormente esse papel cabia à Venezuela. [9] Perante as ameaças tarifárias e financeiras brandidas por Donald Trump, o México suspendeu os seus envios directos de petróleo bruto e reorientou a sua ajuda para apoios humanitários e iniciativas diplomáticas. [10] A acusação que pode ser dirigida à presidência do México não é a de ter interrompido a sua posição de principal fornecedor histórico, mas sim a de ter cessado, sob pressão americana, um fornecimento que se tornou crucial após a ruptura venezuelana. Em paralelo, Claudia Sheinbaum negocia activamente com Washington para obter permissões especiais, a fim de que Cuba possa novamente receber energia.
Como países produtores de petróleo encabeçados por governos progressistas, o Brasil e o México deveriam enviar petróleo para Cuba, mesmo que a pressão, as represálias tarifárias e as ameaças de Trump sejam fortes. Sublinhemos que as exportações de petróleo bruto do Brasil ascendem geralmente a 1,5 a 2 milhões de barris por dia. As exportações de petróleo do México ascendem entre 0,5 e 0,8 milhões de barris/dia. Cuba necessita de importar entre 80 mil e 100 mil barris/dia. Portanto, fornecer petróleo a Cuba é realizável.
A melhor opção seria um acordo entre o governo de Lula e o de Sheinbaum, a fim de, em conjunto, desafiarem o bloqueio e fornecerem regularmente o petróleo de que Cuba necessita, além de ajuda humanitária sob a forma de alimentos, medicamentos, etc., que é actualmente prestada por esses dois governos. Os barcos carregados de petróleo e do resto da ajuda a Cuba deveriam protegidos conjuntamente pela marinha de guerra do México e do Brasil.
| Ajuda humanitária prestada pelo Brasil de Lula e pelo Máxico de Sheinbaum Entre fevereiro e junho de 2026, o México enviou para Cuba seis remessas oficiais de ajuda humanitária. A primeira remessa de grande envergadura (fevereiro de 2026): sob instrução directa da presidente, dois navios de apoio logístico da marinha mexicana (o Papaloapan e o Isla Holbox) levaram mais de 814 toneladas de provisões (das quais 536 toneladas de géneros alimentícios essenciais e artigos de higiene, bem como 277 toneladas de leite em pó). Segundo grande envio (fim de fevereiro de 2026): os navios da marinha transportaram 1.193 toneladas de alimentos, incluindo uma elevada porção de feijão e de leite em pó para bebés. As remessas seguintes (maio-junho de 2026): outros navios mercantes, como o Asian Katra, aportaram em Havana a 7 de junho de 2026 com reabastecimentos de géneros alimentícios de base para atenuarem a penúria alimentar. A ajuda humanitária prestada pelo Brasil: Em fevereiro de 2026, o Brasil expediu de urgência para Havana 2,5 toneladas de medicamentos de primeira necessidade, por via aérea. Em março, enviou nova remessa de urgência, incluindo 80 toneladas de medicamentos. A ajuda humanitária do México a Cuba é globalmente mais volumosa, mais frequente e mais directa do que a fornecida pelo Brasil. O México utiliza o seu próprio exército: a presidente Claudia Sheinbaum envia directamente os navios de guerra da Marinha mexicana (caso do Papaloapan, do Isla Holbox e do Huasteco) para furar o cerco marítimo a Cuba. Estes navios militares governamentais entregam os fretes de porto a porto. O Brasil, para evitar mais um conflito com Trump, passa pela ONU: a ajuda brasileira é uma doação de alimentos que transita pelos canais do Programa Alimentar Mundial (PAM). O Brasil fornece a mercadoria, mas a distribuição depende da logística de terceiros ou da capacidade dos navios cubanos para irem buscá-la. O Brasil protege-se juridicamente: para evitar que as suas empresas (como a Petrobras) sejam alvo das sanções norte-americanas, o Brasil classifica estritamente as remessas como «doações humanitárias» multilaterais. O México faz entrar os seus navios militares directamente na baía de Havana. O Brasil, por seu lado, delega totalmente a gestão material à ONU e ao Programa Alimentar Mundial (PAM). É uma ajuda essencial mas «neutra», que não implica a mesma carga de confrontação política. |
Em meados de abril de 2026, reuniu-se em Barcelona uma cimeira intitulada Global Progressive Mobilisation (GPM). A figura de proa foi o chefe do Governo espanhol, o socialista Pedro Sanchez. Estiveram igualmente presentes Luiz Inácio Lula da Silva, Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro e o presidente uruguaio Yamandú Orsi, assim como Cyril Ramaphosa, presidente sul-africano.
Os governos mexicano, espanhol e brasileiro aprovaram uma declaração comum em defesa de Cuba face à política de Trump, mas não decidiram o envio conjunto de petróleo, do qual Cuba necessita desesperadamente.
Uma frente solidária com Cuba, assumida por Espanha, Brasil e México, com a finalidade de enviar petróleo para Cuba, tornaria muito mais difícil a Trump uma reacção dura. Mas como Josué Veloz diz claramente no seu artigo, contentar-se com declarações de apoio a Cuba não basta para contrariar os desafios e as ameaças muito concretas que põem em perigo a sobrevivência da experiência singular que representa Cuba aos olhos do mundo.
É necessária uma campanha de mobilização nesses três países, a fim de fazer pressão sobre o governo, para que separadamente ou em conjunto eles forneçam o petróleo de que Cuba precisa, além da entrega de ajuda humanitária (alimentos, medicamentos) e de equipamentos como painéis solares.
Josué Veloz tem razão ao escrever: «Cuba pode contar com uma coisa que nenhum bloqueio conseguirá estrangular totalmente: os povos do mundo, mais do que os estados. Pode contar com os movimentos de solidariedade que, em cada país, se reúnem, se organizam e preparam remessas de ajuda».
As campanhas de solidariedade com Cuba têm uma longa história e estão enraízadas nas práticas de um largo espectro de movimentos. Muito rapidamente após o anúncio por Trump, em finais de janeiro de 2026, do reforço do cerco contra Cuba, foi lançada uma frota de barcos para Cuba, à imagem da «flotilha Sumud» para Gaza, que chegou a Cuba em março. Por várias vezes houve protestos diante das embaixadas dos EUA em diversos países. No México realizaram-se várias iniciativas, nomeadamente por cooperativas de pescadores, de sindicatos, de partidos. No Brasil, os sindicalistas do sector petrolífero pediram ao Governo que fornecesse petróleo a Cuba; o mesmo fizeram os partidos de esquerda e o Movimento Sem Terra (MST). Em maio de 2026, um sindicato dos trabalhadores petrolíferos manifestou-se diante da sede da companhia estatal Petrobras para exigirem que o Brasil quebrasse directamente o bloqueio petrolífero, enviando carburante para Cuba.
No estado espanhol foi lançada a partir de março de 2026 a campanha «Rumo a Cuba». Esta campanha reúne mais de 20 organizações sociais e políticas para enviar material energético para a ilha. Trata-se de uma organização à esquerda do Partido Socialista, que dirige o Governo, o qual não toma iniciativas concretas. A missão visa fornecer e instalar painéis solares fotovoltaicos no hospital pediátrico Juan Manuel Márquez, em Havana. Face às repetidas quebras da rede eléctrica cubana, esta acção garante a autonomia eléctrica da unidade de cuidados intensivos, do laboratório e da unidade de cuidados intermédios.
A operação envolve o fretamento do navio Astral, que pertence à ONG de salvamento no mar da Open Arms. O navio partiu do porto de Barcelona em maio de 2026 e fez escalas de solidariedade e carregamento em Valência, Málaga, Cádis, Las Palmas de Gran Canaria e Lanzarote. Dirige-se para Cancun no México e deveria chegar a Havana em meados de julho de 2026. Foram reunidos 150.000 euros para comprar material transportado para Cuba.
Sublinhemos ainda que mais de 40 câmaras espanholas relançaram a cooperação com Cuba. Acrescente-se que existem muitas iniciativas de ajuda organizadas por numerosos movimentos no País Basco.
Mas é preciso reconhecer que até à data o movimento de solidariedade dos movimentos sociais e de organizações políticas com o povo cubano é muito mais fraco, agora que a situação humanitária se degrada na ilha. Por enquanto, desgraçadamente, não se registam grandes movimentos de protesto nos EUA contra a política criminosa de Trump em relação a Cuba.
Perante a pressão e as ameaças de Trump, grandes empresas espanholas, como o grupo hoteleiro Melia, presentes no sector turístico, anunciaram o abandono da ilha. O fluxo de turistas caiu fortemente, o que diminuiu ainda mais a receita em divisas. Face à inacção da Rússia, da China, dos governos progressistas latino-americanos e do Governo espanhol e da esquerda tradicional, as autoridades de Havana encontram-se num impasse. O presidente cubano anunciou medidas económicas em resposta à chantagem de Trump. Será preciso analisá-las com rigor.
É urgente reforçar as iniciativas unitárias de solidariedade com Cuba perante o bloqueio. É uma corrida contra-relógio.
O autor agradece a Christian Dubucq a revisão do texto.
Tradução de Rui Viana Pereira
[1] Josué Veloz Serrade é psicólogo, ensaísta e investigador cubano, e vive na Argentina. Diplomado em psicologia pela Universidade de Ciâncias Médicas de Pinar del Río e mestre em psicologia clínica pela Universidade de Havana, desenvolve investigação académica em Ciências Sociais e Psicologia na Argentina. É membro do comité editorial de La Tizza, revista cubana de pensamento crítico, e catedrático da cadeira de Gramsci no Instituto Juan Marinello, em Cuba.
[2] Fernando Martínez Heredia entrevistado por Éric Toussaint, «Cuba de 1959 a 1999 desde una perspectiva histórica».
[3] A Rússia enviou um petroleiro para Cuba que chegou ao porto de Matanzas em finais de março de 2026 com uma carga de petróleo suficiente para as necessidades do país durante quinze dias. É o primeiro petroleiro que chega a Cuba desde janeiro de 2026. Trump deixou passar, apesar do embargo total decretado contra as entregas de petróleo às autoridades da ilha. Trata-se provavelmente de um gesto de Trump em relação a Moscovo relacionado com a guerra em curso no Próximo Oriente. Em abril e março de 2026, a Rússia não enviou nenhum petroleiro para Cuba.
[4] Em 7 de dezembro de 2025, Dmitri Peskov, porta-voz do presidente russo, comentou o documento de estratégia de segurança nacional norte-americano em uma entrevista concedida ao jornalista de estado russo Pavel Zarubin, para a televisão Rossiya 1, largamente retransmitida pelos meios de comunicação russos, como sejam a Interfax, Fontanka ou TASS: «Os ajustes à estratégia nacional de segurança dos Estados Unidos correspondem em grande parte à nossa visão» – fonte: fontanka.ru, https://www.fontanka.ru/2025/12/07/76159504/.
[5] O discurso de Putin foi traduzido e publicado em francês e em espanhol pelo Grand Continent, que acrescentou os seguinte comentário: «A nova ordem multipolar segundo Vladimir Putin», Le Grand Continent, 6/06/2026, https://legrandcontinent.eu/es/2026/06/07/el-nuev-orden-multipolar-de-vladimir-putin-x/.
[6] Reuters, Steve Holland e Trevor Hunnicutt, «Trump Thanks China’s Xi, Russia’s Putin for Being “Neutral” in Iran War», 17/06/2026, https://www.reuters.com/world/china/trump-thanks-chinas-xi-russias-putin-being-neutral-iran-war-2026-06-17/
[7] Reuters, «Clock Ticks in Cuba as Trump Cuts Off Venezuelan Oil», 13/01/2026, https://www.reuters.com/business/energy/clock-ticks-cuba-trump-cuts-off-venezuelan-oil-2026-01-13/.
[8] Reuters, «Mexico’s Sheinbaum Does Not Deny Halting Oil Shipment to Cuba», 27/01/2026,
https://www.reuters.com/business/energy/sheinbaum-does-not-deny-report-mexico-halted-oil-shipment-cuba-2026-01-27/.
[9] Reuters, «Sheinbaum Says Mexico Has Not Increased Oil Shipments to Cuba Amid Venezuela Situation», 7/01/2026, https://www.reuters.com/business/energy/sheinbaum-says-mexico-has-not-increased-oil-shipments-cuba-amid-venezuela-2026-01-07/.
[10] Reuters, «Mexican Ships Carrying Humanitarian Aid Enter Havana Harbor», 12/02/2026, https://www.reuters.com/world/americas/mexican-ships-carrying-humanitarian-aid-enter-havana-harbor-2026-02-12/.
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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