27 de Maio de 2024 por Yorgos Mitralias

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Em julho de 2021, ao comentar os avisos proféticos de Albert Einstein, feitos a partir de 1948, sobre o futuro desastroso de Israel, fechámos o nosso texto com uma conclusão e uma predição:
«Infelizmente, tudo leva a crer que Einstein mais uma vez tinha razão. Sendo hoje os Britânicos uma recordação longínqua, são efectivamente os epígonos das “organizações terroristas” de 1948 que inelutavelmente conduzem Israel – que eles governam – para a “catástrofe final”! Um Israel em condições de se mostrar hoje mais poderoso e arrogante que nunca, mas que, ao mesmo tempo, atravessa a maior crise existencial da sua história, em vias de apodrecer e se desintegrar por dentro. A contagem regressiva já começou e a hora da verdade aproxima-se...» [1]
Nesta primavera de 2024, segundo tudo indica e mais cedo do que prevíramos, aproxima-se a hora da grande verdade para o Estado de Israel. Aliás, essa hora já chegou e desenrola-se diante dos nossos olhos! E os prognósticos não são nada optimistas. Mesmo dentro de Israel começam a fazer-se ouvir as primeiras dúvidas sobre a viabilidade do Estado de Israel. Como, por exemplo, as dos autores do texto com o eloquente título «At This Rate, Israel Won’t Make It to Its 100th Birthday» [A Este Ritmo, Israel Não Chegará ao Seu 100º Aniversário], que foi reproduzido e discutido nos últimos dias como nenhum outro em Israel e fora de Israel. Uma das razões deste choque é que os seus dois autores, Eugene Kandel e Ron Tzu, são ambos membros eminentes do establishment governamental israelita – o primeiro dirigiu durante anos o Conselho Económico Nacional de Netanyahu! A segunda razão, que é também a mais importante, é que o documento prevê que, a menos que haja uma mudança radical de rumo, impressa por figuras políticas radicalmente diferentes, a crise existencial que os Israelitas começaram a viver levará ao fim de Israel, o que significa necessariamente o fim do «sonho sionista»…
Não por acaso, no momento em que se fala tanto da «solução dos dois estados» e o estado palestiniano começa a ser reconhecido até por países membros da União Europeia, se levantam vozes a favor de uma … «solução a três estados»! Em paralelo com o estado palestiniano de amanhã, essas vozes consideram que já existe – de facto – não um, mas dois estados judaicos! É exactamente isto que afirma o antigo diplomata Alon Pinkas, ao fazer as seguintes constatações num artigo muito recente do Haaretz: «Existem hoje aqui dois Estados – Israel e a Judeia –, com visões opostas do que deve ser uma nação. Há um “elefante na sala”, e não é a ocupação, embora esta seja a sua causa principal. Esse “elefante na sala” consiste no facto de Israel se ter dividido progressiva mas inelutavelmente entre o Estado de Israel – high-tech, laico, aberto ao exterior, imperfeito mas liberal – e o reino da Judeia, uma teocracia supremacista judaica ultranacionalista antidemocrática e isolacionista.» [2]
É claro que Pinkas, pertencendo ao primeiro, esse Israel moderno e «aberto ao exterior», tende a idealizar e evita avançar para conclusões extremas. Mas há quem o faça, nomeadamente o veterano da esquerda israelita anti-sionista Michel Warschawski, que responde assim à questão de saber se entrevê a ossibilidade de uma guerra civil em Israel: «Muitas vezes me interrogaram sobre os riscos de uma guerra civil: sempre disse que não era possível. Actualmente tenho muito menos certezas. E isto não tem a ver com Gaza. Simplesmente não existem dois Israel sociológicos. Estamos em presença de dois projectos irreconciliáveis. À cabeça do país está o governo mais fraco que jamais tivemos; e Netanyahu é incapaz de controlar ministros que, sem qualquer espécie de dúvida, são loucos furiosos.»
Pensamos que Warschawski tem razão, tanto quando não exclui a possibilidade de uma guerra civil em Israel, como quando afirma que isso nada tem a ver com Gaza e o genocídio em curso dos Palestinianos. Sem dúvida o espectro do genocídio e da guerra plana sobre Israel e sua sociedade. Mas também é um facto que a grande, para não dizer esmagadora, maioria dos cidadãos israelitas, as figuras políticas e os seus partidos se mostram ainda hoje indiferentes ao incrível sofrimento que o seu próprio estado inflige aos Palestinianos, ao mesmo tempo que se manifestam contra Netanyahu e por vezes até entram em choque violento com a polícia. Com a excepção de alguns pequenos grupos que perpetuam as velhas tradições judaicas humanistas e internacionalistas, declarando a sua solidariedade e o seu apoio ao povo palestino, a sociedade israelita não quer ver nem ouvir falar da horrível tragédia que se desenrola a poucos quilómetros das suas cidades e dos seus kibutz, dando provas da mais gritante insensibilidade perante o genocídio em curso, cometido pelo próprio exército do seu próprio Estado! E é por isso que se alinha – de facto – até com o odiado Netanyahu, quando, por exemplo, o Tribunal Penal Internacional se atreve a emitir um mandado de captura contra ele, tal como se alinha com o Estado israelita quando alguns países europeus se atrevem a reconhecer o Estado palestiniano…
Shlomo Sand, no seu último e magnífico livro Dois Povos, para Um Estado?, atribui essa monstruosa insensibilidade e esse monstruoso «patriotismo», entre outras coisas, à «lavagem ao cérebro» a que os cidadãos israelitas são sistemática e metodicamente submetidos ao longo de toda a sua vida, a fim de crerem firmemente que é … a vontade de Deus que todos os territórios ocupados, de Hebron, Jericó e Belém até Jerusalém, sejam israelitas! Por conseguinte é esta relação íntima entre messianismo nacionalista e messianismo religioso – que não só existe desde a origem do projecto sionista, mas também constitui o pilar ideológico central do Estado de Israel, sobretudo desde que a referência inicial a um certo «socialismo dos kibutz» mítico foi «atirado para o caixote do lixo da história» – que nos levou há três meses a concluir que «o actual fervor exterminador da sociedade israelita não seria possível se ela não fosse o produto e o resultado da lógica interna do projecto constituinte do Estado hebreu, o projecto sionista». [3]
É por todas estas razões que assistimos hoje a acontecimentos que seriam completamente inimagináveis à nascença de Israel. Como, por exemplo, a aliança do Governo israelita com anti-semitas notórios de extrema direita ou até com os líderes neofascistas dessa Internacional Parda em gestação, entre os quais a italiana Meloni, a francesa Le Pen, o argentino Milei, o húngaro Orban, o português Ventura e vários outros da Europa e da América do Norte e do Sul, que se reuniram há poucos dias em Madrid, sob a égide do Vox, esses nostálgicos do franquismo. Foi a esta reunião madrilenha da amálgama fascista, que se transformou numa manifestação de apoio a Netanyahu, que o ministro da Diáspora israelita, Amichai Chkli, enviou uma mensagem de agradecimento e encorajamento, confirmando assim o que já sabíamos: que Netanyahu e a extrema direita israelita se tornaram o símbolo e a bandeira dos racistas, da extrema direita e dos neofascistas do mundo inteiro, sendo eles na sua maioria … anti-semitas descomplexados!
O projecto sionista e, ao mesmo tempo, o Estado judaico de Israel estão, portanto, a fechar o círculo, numa atmosfera não só de crise generalizada, mas também de decadência moral generalizada. E não é por acaso que o seu elemento fundador fundamental, o racismo em relação aos Palestinianos, lhes corre hoje nas veias como um veneno, ao ponto de permitir que os ministros Gvir e Smotrich e respectivos amigos falem de necessidade de expulsar (violentamente) da terra do seu mítico Grande Israel (Eretz Israël) não só os Palestinianos mas também os cidadãos judeus israelitas que não partilhem as suas opiniões e as suas escolhas bárbaras e desumanas.
Concluímos assim como começámos: é hoje manifesto que o preço a pagar pelo sionismo israelita pela sua arrogância e prepotência, demonstrada na hecatombe de mortes civis palestinas em Gaza, é a sua própria decadência moral e a sua decomposição social e política. Com ou sem guerra civil, a crise final de Israel prevê-se cataclísmica.
Tradução: Rui Viana Pereira
[1] Ver o nosso artigo «Quando Einstein chamava «fascistas» a quem governa Israel há 44 anos...»: https://www.cadtm.org/Quando-Einstein-chamava-fascistas-a-quem-governa-Israel-ha-44-anos
[2] Alon Pinkas, «This Independence Day, Israel Has Split Into Two Incompatible Jewish States» 13/05/2024, Haaretz.
[3] Ver o nosso artigo «Trying to understand the genocidal drift of Israeli society!», 28/02/2024.
jornalista, Yorgos Mitralias é membro fundador do Comitê contra a Dívida Grega, organização afiliada do Comitê para a Anulação das Dívidas Ilegítimas (CADTM) e da Campanha grega para a auditoria da dívida.
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