Ecuador
25 de Dezembro de 2024 por Orlando Pérez

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A UNESCO declarou o arquipélago Patrim]onio Natural da Humanidade em 1978. O equipamento e o pessoal militar dos EUA assumirão o controlo ambiental «rigoroso», segundo os tratados de cooperação, assim como isenções de taxas administrativas. Além do seu valor para a conservação de espécies animais e vegetais, o parque tem grande interesse turístico. No século XIX, Charles Darwin fez aí uma expedição científica.
Graças a uma decisão do conselho governamental da província de Galápagos, entram em vigor os tratados de cooperação militar dos EUA com o Equador, assinados por Noboa a 15/02/2024.
Por consequência, navios, pessoal militar, armamento, equipamento e submarinos poderão instalar-se nesse arquipélago declarado Património Natural da Humanidade em 1978.
No passado dia 10 de dezembro foi aprovado o Projecto de Segurança Integral da Região Insular e o «Regulamento para Aplicação dos Acordos de Cooperação entre o Equador e os Estados Unidos».
No referido «projecto» refere-se que a sua finalidade é «Operacionalizar o projecto a fim de enfrentar os desafios de segurança comuns» na província dos Galápagos, a 600 milhas (965 quilómetros) da costa continental equatoriana.
Além disso, propõe-se «combater o tráfico de droga, a pesca ilegal e outras actividades marítimas ilícitas nesta região do Equador. É importante evitar conflitos violentos e outros crimes conexos entre grupos narco-terroristas ligados a cartéis internacionais que lutam pelas rotas de exportação de droga e pelo controlo territorial para a venda de drogas».
No entanto, é referido que os navios de guerra, os navios do Estado, as aeronaves e as tripulações dos EUA estão isentos de taxas administrativas (impostos) e serão submetidos a controlos ambientais «rigorosos» para entrar na ilha.
Recorde-se que, através do Decreto de 15 de fevereiro de 2024, Quito ratificou o Acordo com Washington sobre o Estatuto das Forças, assinado em 6 de outubro de 2023, durante o regime de Guillermo Lasso. Nesse acordo, foi anunciado que o pessoal militar e civil do Ministério da Defesa e os seus contratantes beneficiariam de privilégios, isenções e imunidade equivalentes aos recebidos pelo pessoal administrativo e técnico das missões diplomáticas ao abrigo da Convenção de Viena.
Na prática, o texto acabado de citar estabelece uma base militar, como sucedeu entre 1999 e 2009 na cidade costeira de Manta, cujo acordo não foi renovado pelo então presidente Rafael Correa e, além disso, a nova Constituição de 2008 proíbe a presença de forças ou bases militares estrangeiras em território equatoriano.
No entanto, há duas semanas Noboa enviou à Assembleia (Parlamento) uma reforma parcial da Constituição para eliminar o artigo que proíbe a presença de bases militares de outros países, mas a Assembleia Legislativa ainda não a discutiu.
«É um servilismo colonial inaceitável, vergonhoso, perigoso e indigno», afirmou o antigo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Fernando Yépez. «Não há consciência da soberania nacional, nem dos interesses do Equador, nem das experiências negativas com bases militares estrangeiras, sempre dos Estados Unidos».
| Sobre Galápagos e swaps da dívida, ler também: «A trapaça da troca de «dívida por natureza» nas Galápagos» |
De acordo com o projecto, o acordo é activado «em virtude da caracterização geopolítica e social, bem como da localização geográfica e das suas características ecossistémicas particulares, para além do seu reconhecimento como Património Mundial, as Ilhas Galápagos são um lugar sensível que merece o devido cuidado através do quadro jurídico e das acções do Estado equatoriano, bem como do apoio internacional».
Ao mesmo tempo, diz que «através do Serviço de Guarda Costeira, a Casa Branca tem colaborado com a Marinha equatoriana para interceptar e erradicar o tráfico ilícito de drogas através de lanchas rápidas e embarcações semi-submersíveis das proximidades das Galápagos para os países da América Central, bem como para controlar a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada».
Em resposta, o diploma esclarece que «a fim de evitar impactos que possam resultar em danos ambientais, a resolução deve ser enviada ao governo dos EUA e solicitar a assinatura de declarações sobre o cumprimento dessas normas».
Entretanto, na opinião de representantes de organizações sociais e ambientais de Galápagos, isso não faz sentido, pois já houve alguns casos de presença militar norte-americana em que está documentado que não respeita as normas mínimas estabelecidas na própria Constituição do Equador. Embora, por medo de represálias, prefiram manter o anonimato, os activistas e dirigentes apelam ao artigo 258º, que estabelece um «Governo especial para a província de Galápagos: o seu planeamento e desenvolvimento serão organizados de acordo com a estrita observância dos princípios de conservação do património natural do Estado e da boa convivência, de acordo com o que a lei determinar». Segundo eles, esta norma é flagrantemente violada, apesar de o projecto de lei aprovado esta semana afirmar que «é proibido o uso de armas que possam pôr em perigo o frágil ecossistema das Galápagos».
Os activistas consultados pelo La Jornada disseram que «desconheciam a forma como todo o projecto é expresso, que se trata de comprar as consciências das autoridades e que a rendição aos Estados Unidos é evidente».
«Numa sessão plenária do Conselho de Governo do Regime Especial de Galápagos, foi aprovado um projecto de decreto provincial, sem consulta à comunidade, que dá a Washington o poder de entrar na reserva marinha de Galápagos com navios/bases militares».
Um dos entrevistados disse a este jornal que a disposição que autoriza a presença militar americana «apenas em zonas povoadas» não é aplicável porque não haveria vigilância em zonas despovoadas. O mais grave para os aldeões é que, segundo a autorização, «a implementação do projecto requer a adaptação ou construção de instalações adicionais em portos ou aeroportos locais».
Tradução: Rui Viana Pereira.
Fonte: La Jornada, https://www.jornada.com.mx/noticia/2024/12/14/mundo/ecuador-entrega-las-galapagos-a-eu-para-base-militar-1473