25 de Março por Eric Toussaint

«Ten Thousand Miles From Tip to Tip» («10.000 Milhas de Ponta a Ponta») - das Filipinas a Porto Rico (CC - Wikimedia)
Em meados de 1898 os EUA declaram guerra a Espanha e enviaram uma força naval de guerra e tropas para «libertar» Cuba do jugo espanhol. A Espanha foi derrotada e seguiram-se negociações em Paris para estabelecer um tratado de paz que foi finalmente assinado em dezembro de 1898. [1]
A motivação dos EUA nesta guerra é clara: tratava-se de aumentar a sua influência e poder na região. Cuba tem uma localização estratégica para Washington, a curta distância da costa norte-americana. Juntamente com Porto Rico, que os EUA também tomaram à Espanha em 1898, Cuba fazia parte das últimas colónias espanholas nas Américas. [2]
Durante as negociações, as autoridades espanholas defenderam a seguinte posição: uma vez que os EUA se apoderaram da sua colónia, deveriam honrar as dívidas de Cuba à Espanha. São as regras do jogo. De facto, as regras invocadas por Espanha constituíam prática corrente no século XIX. Um estado que anexasse outro deveria assumir as suas dívidas.
Os EUA recusaram, dizendo não pretender anexar Cuba. Resumindo, declararam: «nós libertámos Cuba e prestámos ajuda aos independentistas que lutavam contra vós há vários anos».
Os espanhóis respondem que se Cuba se tornasse independente, deveria pagar a dívida, conforme aceitaram, por tratado, todas as outras colónias espanholas tornadas independentes ao longo do século XIX.
Os EUA recusaram categoricamente que a Espanha exigisse reembolso a Cuba. Finalmente, a Espanha assinou em Paris um tratado de paz com os EUA e renunciou ao reembolso da dívida.
A versão mais corrente que relata o que se passou tende a dizer que os EUA recusaram a dívida reclamada pela Espanha aCuba porque essa dívida tinha servido para manter Cuba sob o jugo espanhol. Ora, quando analisamos o conteúdo das negociações, a explicação é muito diferente. Sendo verdade que os EUA invocaram esse argumento, outros prevaleceram na justificação da sua posição.
Quais foram os argumentos expostos pelos EUA?
Perante estes argumentos dos EUA, a Espanha mudou a sua táctica de negociação. Propôs que as dívidas cubanas fossem submetidas à arbitragem internacional, a fim de determinar que parte fora realmente utilizada no interesse de Cuba. A Espanha propunha-se assumir a parte das dívidas que não servira Cuba e exigia aos EUA que tomasse a seu cargo a outra parte ou que a transferisse para o novo Estado cubano independente. Os negociadores dos EUA telegrafaram ao presidente McKinley pedindo a sua opinião. Este respondeu muito claramente que os EUA não aceitariam assumir qualquer dívida cubana e encorajavam Cuba a fazer o mesmo.
Em 1909, depois de os EUA retirarem as suas tropas de Cuba, a Espanha pediu ao governo «independente» de Cuba que reembolsasse uma parte da dívida. Sem surpresa, Cuba recusou, com o argumento de que o tratado de Paris de dezembro de 1898, que pôs fim ao conflito entre a Espanha e os EUA, tinha anulado as dívidas. A Espanha foi então obrigada a negociar com os seus credores franceses e britânicos.
Além disso é preciso destacar 1º) que os EUA nunca convidaram os Cubanos a participarem nas negociações que tiveram lugar em Paris; 2º) que os EUA invocaram o argumento do carácter despótico do regime colonial de forma secundária. Concentraram-se no uso que a Espanha fez dos empréstimos supostamente feitos a Cuba para demonstrar que foi o colonizador que tirou partido deles. Demonstraram ainda que foi Espanha que contraiu os empréstimos e não Cuba.
Não resisto à tentação de fazer ligação com a situação presente na Europa. De facto, a comparação com o conflito entre Washington, Madrid e Havana em 1898 tem a maior importância quando nos debruçamos sobre a situação da Grécia e de outros países, como Chipre e Portugal, na década de 2010.
Depois de 2010, com efeito, numerosos estudos recentes mostram que os montantes imputados à Grécia não foram transferidos para as autoridades gregas. Serviram principalmente para reembolsar bancos privados estrangeiros, nomeadamente franceses e alemães. Desde 2010 os créditos
Créditos
Montante de dinheiro que uma pessoa (o credor) tem direito de exigir a outra pessoa (o devedor).
concedidos à Grécia provieram de 14 estados da Zona Euro
Zona euro
Zona composta por 18 países que utilizam o euro como moeda: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letónia (a partir da 1-01-2014), Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Portugal, Eslováquia e Eslovénia. Os 10 países membros da União Europeia que não participam na zona euro são: Bulgária, Croácia, Dinamarca, Hungria, Lituânia, Polónia, República Checa, Roménia, Reino Unido e Suécia.
, através do FMI, do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), ao qual se sucederia o Mecanismo Europeu de Estabilidade
MES
Mecanismo Europeu de Estabilidade
O Mecanismo Europeu de Estabilidade é um dispositivo europeu de gestão das crises financeiras da zona euro que substitui desde 2012 o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e o Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira, que tinham sido criados em resposta à crise da dívida pública na zona euro. O seu âmbito apenas diz respeito aos Estados-membro da zona euro. Esta instituição financeira tem a tarefa, em caso de ameaça à estabilidade da zona euro, de conceder «ajuda» financeira (empréstimos) a um ou mais países em dificuldade, a troco de condicionamentos estritos.
(MEE), tudo porque a Grécia deixou de ter acesso aos mercados financeiros (como aconteceu, noutro contexto, a Cuba sob a dominação espanhola). São portanto terceiros que realizam os empréstimos, para os porem depois a cargo da Grécia e ditar-lhe condições extremamente restritivas. Menos de 10 % das dívidas postas a cargo da Grécia desde 2010 passaram pelo seu orçamento de estado e essas pequenas quantias foram utilizadas para financiar contra-reformas e privatizações. Os credores mencionados acima foram financiados por bancos privados europeus e depois utilizaram esses créditos para os reembolsar, sem que as quantias emprestadas tivessem passado pela tesouraria grega. Está provado que os empréstimos não beneficiaram o povo grego. Também não melhoraram a situação económica e financeira do país. Pelo contrário.
É preciso acrescentar que, num primeiro momento, os 14 países da Zona Euro que concederam crédito à Grécia fizeram lucros à sua custa, aplicando taxas de juro
Juro
Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada.
abusivas entre 2010 e 2012 (entre 4 e 5,5 % de juros). O FMI também lucrou à custa da Grécia, tal como o BCE
Banco central europeu
BCE
O Banco Central Europeu é uma instituição europeia sediada em Francoforte e criada em 1998. Os países da zona euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária e o seu papel oficial de assegurar a estabilidade dos preços (lutar contra a inflação) em toda a zona. Os seus três órgãos de decisão (o conselho de governadores, o directório e o conselho geral) são todos eles compostos por governadores dos bancos centrais dos países membros ou por especialistas «reconhecidos». Segundo os estatutos, pretende ser «independente» politicamente, mas é directamente influenciado pelo mundo financeiro.
. [4]
O recurso da Grécia aos empréstimos tornou-se uma ficção desde 2010. A Grécia como devedor é uma ficção que serve os interesses das principais potências da Zona Euro, a começar pela Alemanha e França. Estas grandes potências defendem elas próprias os interesses das suas grandes empresas, sejam elas bancárias, industriais (nomeadamente as empresas de armamento) ou comerciais. Essas mesmas grandes potências convenceram outros 12 países membros da Zona Euro e o FMI a montarem esta ficção, com a cumplicidade das autoridades gregas. Participaram nesta encenação o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) e o BCE. O grande capital grego (bancário, comercial, armadores, etc.) também se aproveitou da situação.
No caso da Grécia, Chipre, Portugal, …, não aparece uma grande potência como os EUA em 1898 disposta a intervir pelo repúdio das dívidas. No entanto, os argumentos invocados por Washington são aplicáveis a numerosos países endividados e como não existe um salvador supremo, cabe aos povos (grego, cipriota, português e todos os outros povos) tomar a iniciativa e libertar-se do jugo da dívida, assim como de outros mecanismos de extorsão e de subordinação. A luta internacional pela abolição das dívidas ilegítimas é mais necessária que nunca.
Tradução de Rui Viana Pereira
[1] O texto que se segue é parcialmente baseado no estudo de Sarah Ludington, G. Mitu Gulati, Alfred L. Brophy, Sarah Ludington, G. Mitu Gulati, Alfred L. Brophy, «Applied Legal History: Demystifying the Doctrine of Odious Debts», 2009, http://scholarship.law.duke.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=5511&context=faculty_scholarship
[2] Após esta vitória contra a Espanha, Washington também deitou a mão às Filipinas, outra colónia da coroa espanhola na Ásia.
[3] Fonte desta citação: J. B. MOORE, Digest International Arbitrations, vol. I, p. 358-359.
[4] Ver mais detalhes no capítulo 3 do les détails dans le chapitre 3 do Relatório Preliminar da Comissão para a Verdade Sobre a Dívida Grega, http://www.cadtm.org/Rapport-preliminaire-de-la. O FMI exigiu à Grécia uma taxa de juro na ordem dos 5 %. O BCE fez-se reembolsar pela Grécia no valor de 100 % do valor facial dos títulos, embora os tenha comprado a 60 ou 70 % do seu valor no mercado secundário. Ainda por cima exigiu uma taxa de 6 % sobre esses títulos, embora o próprio BCE tenha emprestado aos bancos privados da Zona Euro a 0 %!
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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