23 de Março por Eric Toussaint , Guy Zurkinden

Grande cartaz mural anunciando a marcha antifa de abertura da conferência de Porto Alegre, a 26 de março de 2026. Foto: PSOL Porto Alegre, CC
Unir as forças de esquerda para conter a onda da extrema direita. Esse é o objetivo da Primeira Conferência Antifascista Internacional, que será realizada no final de março em Porto Alegre, no Brasil. Entrevista
Unir as forças da esquerda, em todo o mundo, para enfrentar a ascensão da extrema direita – e das guerras imperialistas. Esse é o objetivo da Primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O encontro terá início no próximo dia 26 de março em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, que foi o berço do movimento altermundialista no início dos anos 2000. A iniciativa, que visa superar a fragmentação das resistências diante da virada neofascista em curso, foi apoiada por um apelo assinado por um amplo leque de personalidades representativas da esquerda combativa e dos movimentos sociais, provenientes dos cinco continentes (leia abaixo). O Courrier conversou com Eric Toussaint, do Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas (CADTM), um dos principais impulsionadores dessa iniciativa.
Eric Toussaint: Em 8 de janeiro de 2023, logo após perder a eleição presidencial para Lula, Jair Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado no Brasil. Sob o pretexto de uma suposta fraude eleitoral, os partidários do ex-presidente neofascista invadiram a sede do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, reproduzindo a invasão do Capitólio pelos apoiadores de Donald Trump, dois anos antes. Esses episódios destacaram o perigo que representa o avanço da extrema direita. Dessa tomada de consciência surgiu a ideia de organizar uma iniciativa antifascista em escala internacional.
O símbolo é forte, pois foi nessa cidade que nasceu o Fórum Social Mundial (FSM): em janeiro de 2001, 20 mil pessoas se reuniram ali para definir uma agenda comum para o movimento altermundialista, então em plena efervescência.
Além disso, porque, ao infligir uma derrota a Jair Bolsonaro em 2022, a esquerda brasileira provou que é possível barrar o caminho do perigo neofascista: partidos — PT, PSOL, PCdoB —, movimentos populares e sindicatos superaram suas divergências para fazer triunfar a candidatura de Lula. Esses atores e atoras estão presentes no comitê unitário que organiza a conferência.
Prevista para maio de 2024, a reunião teve que ser suspensa devido às graves enchentes – consequência das mudanças climáticas – que atingiram o estado do Rio Grande do Sul no mês anterior. Devido à multiplicação das agressões militares por parte de Donald Trump desde o início de seu mandato, decidimos, entretanto, acrescentar um componente anti-imperialista ao evento.
O governo Trump está à frente da primeira potência mundial. Ele aplica uma política caracterizada por um nacionalismo exacerbado, supremacismo e homofobia, ao mesmo tempo em que utiliza a milícia ICE para deportar em massa pessoas não brancas. Portanto, pode-se qualificá-lo de neofascista. Uma virada simbolizada explicitamente pela saudação nazista de Elon Musk durante a posse de Trump.
Paralelamente, a extrema direita ameaça chegar ao poder na maioria dos Estados europeus; na Rússia, o regime de Vladimir Putin apresenta características muito semelhantes às de Trump; a Índia é governada por um hinduista radical e islamofóbico, Narendra Modi. Já em Israel, o governo neofascista de Benjamin Netanyahu vem realizando um genocídio em Gaza há mais de dois anos e meio.
Na América Latina, a eleição de Javier Milei em novembro de 2023 foi seguida pela de Juan-Antonio Kast no Chile, em 2025. Enquanto isso, o presidente do Equador, Daniel Noboa, toma como modelo o regime autoritário de Nayib Bukele, em El Salvador. E a extrema direita fará de tudo para vencer as eleições presidenciais neste outono no Brasil, contra Lula, com o apoio de uma rede internacional. Se ela conseguir o que quer, isso terá repercussões terríveis em todo o continente, que sofreu ditaduras brutais ao longo do século passado.
Estamos testemunhando a formação de uma espécie de internacional neofascista, especialmente sob o impulso dos Estados Unidos de Donald Trump. Em sua estratégia de segurança nacional publicada em 2025, o presidente americano manifesta claramente seu apoio aos partidos “patrióticos” do Velho Continente. Na América Latina, que ele volta a considerar como um “quintal”, não hesita em interferir diretamente nos processos político-eleitorais para favorecer os candidatos de extrema direita.
É certo que essas forças não dispõem de um comando mundial único. Mas já existem estruturas de coordenação. A Conservative Political Action Conference (CPAC) reúne anualmente as direitas radicais do continente americano e da Europa. Recentemente, organizou conferências nos Estados Unidos, na Hungria e em vários países da América Latina. Lançado pelo partido espanhol Vox, o fórum de Madri é outro encontro que aglutina esses partidos.
À esquerda, estamos atrasados: ainda não começamos a internacionalizar nossa resposta à extrema direita. É certo que as forças que combatem o fascismo e as agressões imperialistas são muito diversas, e não se trata de apagar essas diferenças. No entanto, é essencial constituir uma ampla frente, em escala global, contra esses inimigos cada vez mais ameaçadores. Essa convergência deve incluir todas as forças dispostas a defender a classe trabalhadora, o campesinato, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQIA+, as pessoas racializadas, as minorias oprimidas e os povos indígenas — ao mesmo tempo em que defendemos a natureza e apoiamos as lutas contra o imperialismo. Nossa conferência tentará dar início a uma resposta a esse desafio.
Uma das chaves para o sucesso é manter a modéstia. A ideia não é criar uma nova estrutura global, mas reunir partidos, personalidades e ativistas em torno de um espaço capaz de convocar e apoiar iniciativas e mobilizações comuns contra a extrema direita. Ao mesmo tempo, apoiando as lutas que se desenrolam nos diferentes Estados.
Após esta primeira reunião em escala mundial, um segundo passo importante seria organizar uma iniciativa do mesmo tipo nas principais regiões do globo, a partir de 2027.
Vários milhares de pessoas, vindas de cerca de setenta países, são esperadas na Primeira Conferência Antifascista pela Soberania dos Povos, que será realizada em Porto Alegre de 26 a 29 de março. O evento terá início com uma grande manifestação nas ruas da capital do estado do Rio Grande do Sul. Durante três dias, serão realizadas onze conferências plenárias temáticas e 150 atividades autogestionadas. As discussões se concentrarão no fortalecimento dos movimentos sociais, feministas e sindicais, bem como na solidariedade internacional na luta contra o fascismo — mas também nas potencialidades e nos limites da ação institucional. A solidariedade com Gaza, as lutas contra o negacionismo climático e pela reforma agrária, bem como a situação no continente americano, serão outros pontos de destaque. Os debates serão encerrados com a aprovação de uma carta na assembleia geral.
Embora grande parte dos palestrantes venha do continente americano, uma ampla gama de organizações e movimentos estará representada na capital do Rio Grande do Sul, que foi o berço de um dos principais movimentos sociais do continente latino-americano, o Movimento dos Sem-Terra (MST), na década de 1980. Isso é comprovado pelas mais de 1.500 personalidades e ativistas, provenientes dos cinco continentes, que assinaram o apelo internacional convocando a conferência. Entre elas estão, em particular: dirigentes de organizações populares e políticas do continente latino-americano, incluindo o líder do MST, João Pedro Stédile; as autoras e militantes feministas Nancy Fraser e Tithi Bhattacharya; o jornalista e ativista indiano Vijay Prashad; o economista haitiano Camille Chalmers; Solange Koné, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) na Costa do Marfim; Frei Betto, escritor brasileiro e figura da teologia da libertação; a eurodeputada (La France Insoumise) Rima Hassan e Thiago Silva, participantes da frota global Soumoud para Gaza; Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona; Annie Ernaux, Prêmio Nobel de Literatura em 2022; o ex-líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn; o líder de La France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, ao lado de parlamentares italianos e espanhóis e de membros da DSA, a ala de esquerda do Partido Democrata dos Estados Unidos. Na Suíça, o sociólogo Jean Ziegler, ex-relator das Nações Unidas para o direito à alimentação, assinou o apelo. Mathilde Marendaz, militante do partido Solidarité & Ecologie e deputada do Ensemble à gauche no Grande Conselho de Vaud, viajará para Porto Alegre.
Fonte : Entrevista realizada por Guy Zurkinden, Le Courrier (19 de março de 2026): www.lecourrier.ch
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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