Porto Alegre 2026: uma convergência antifascista e anti-imperialista entre um sucesso inédito e obstáculos importantes

10 de Abril por Eric Toussaint


A conferência antifascista e anti-imperialista realizada em Porto Alegre, de 26 a 29 de março de 2026, tem constituído um momento forte de recomposição internacionalista num contexto mundial marcado pela ascensão da extrema-direita e pela multiplicação dos conflitos. Reunindo milhares de participantes vindos de mais de quarenta países, sem apoio institucional, a conferência testemunha uma vontade real de convergência das forças de esquerda apesar das profundas divisões.
Este artigo analisa as condições da sua emergência, os numerosos obstáculos políticos e organizacionais que tiveram de ser superados, bem como os ensinamentos a retirar para as lutas futuras.



 Quando surgiu o projeto da conferência?

Na sequência da tentativa de golpe dos bolsonaristas de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, surgiu a ideia de convocar, a partir do Brasil, uma conferência internacional antifascista.
Na sequência da tentativa de golpe dos bolsonaristas de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, surgiu a ideia de convocar, a partir do Brasil, uma conferência internacional antifascista.
Recorde-se que, após terem sido derrotados nas eleições presidenciais de outubro de 2022, os apoiadores do presidente neofascista Jair Bolsonaro invadiram o parlamento brasileiro e outras instituições centrais na capital Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, tomando como modelo a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, pelos apoiadores de Trump. Posteriormente, a justiça brasileira condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por liderar uma organização criminosa armada, por ter tentado abolir, através da violência, o Estado Democratico de Direito e por tentativa de golpe de Estado [1].

Também em 2023, o choque causado pela vitória do neofascista Javier Milei na Argentina e a ofensiva que ele começou a lançar contra o movimento popular a partir de 10 de dezembro do mesmo ano representaram um estímulo adicional para tomar uma iniciativa. Pensamos: «Não vamos esperar mais, vamos lançar um processo que conduza a uma iniciativa de grande envergadura». O perigo é mundial: do Cone Sul da América Latina à Índia, passando pelos Estados Unidos, Israel, Itália, França, Hungria, Bielorrússia, Rússia, Turquia, Egito, Filipinas… para citar apenas alguns exemplos.

 Por que a conferência foi convocada desde o Brasil?

A conferência poderia ter sido convocada a partir de outro país, mas o Brasil oferecia condições específicas e, por assim dizer, únicas:

1. As principais forças políticas e sociais de esquerda, ao apelarem ao voto em Lula do PT em 2022, conseguiram derrotar nas urnas Jair Bolsonaro, apesar de este dispor de uma importante base eleitoral, do apoio de Trump e do conjunto da extrema-direita mundial e de uma parte significativa do grande capital. Se os partidos de esquerda, superando as suas divergências em pontos importantes [2], não tivessem chegado a acordo sobre o nome de um candidato comum na pessoa de Lula, Bolsonaro poderia ter ganho as eleições. A unidade dizia respeito, em particular, ao PT, ao PCdoB, ao PSOL, bem como ao Movimento dos Sem-Terra e a vários sindicatos, incluindo a CUT.

2. No início de 2024, o PT e o PSOL de Porto Alegre chegaram a acordo para constituir um comité unitário local com o objetivo de convocar uma conferência internacional nesta cidade, que foi o berço do Fórum Social Mundial em janeiro de 2001. As estruturas locais destes dois partidos obtiveram luz verde das suas instâncias nacionais (sem que estas, no entanto, se mostrassem entusiasmadas com o projeto e o transformassem numa verdadeira prioridade) e procuraram alargar a base de apoio.

Preciso indicar que, no momento em que o processo teve início em Porto Alegre, não se descartava a possibilidade de que, caso o PT e o PSOL chegassem a acordo para convocar a conferência em São Paulo ou noutra grande cidade do Brasil, o local da conferência pudesse ser alterado, a fim de garantir uma maior participação brasileira. Por fim, foi Porto Alegre (POA) a cidade escolhida, o que, dada a proximidade da Argentina e do Uruguai, permitiria que delegações importantes desses dois países se deslocassem de onibus para chegar à capital do estado do Rio Grande do Sul [3] .

A conferência, que deveria ter ocorrido em maio de 2024, teve de ser adiada devido às dramáticas inundações que afetaram Porto Alegre e o Rio Grande do Sul alguns dias antes do início da conferência. Estas inundações, a pior catástrofe climática da história deste estado brasileiro, causaram a morte de mais de 180 pessoas.

 Tentativa em 2024 de lançar uma iniciativa na Europa

É também de referir que, durante o ano de 2024, o CADTM estabeleceu contatos com responsáveis políticos de vários países europeus para propor a organização de uma conferência unificada na Europa, mas tal não se concretizou. A fragmentação política da esquerda na Europa é muito forte e o foco sobre a política nacional prevalece claramente sobre a internacional [4]. Trata-se de um retrocesso manifesto em relação aos anos 2000 e é muito preocupante quando se vê até que ponto a extrema-direita cresce em todos os países da Europa.
A fragmentação política da esquerda na Europa é muito forte e o foco sobre a política nacional prevalece sobre a internacional

 A convocação da conferência antifa no Brasil

Voltando ao Brasil, foi em maio de 2025 que o comité organizador local em Porto Alegre decidiu relançar o processo que conduziria à conferência e marcou a data de 26 a 29 de março de 2026 para a sua realização.
Entretanto, o PCdoB, um aliado de longa data do PT, juntou-se às organizações convocantes. Muitos movimentos sociais locais deram o seu apoio à iniciativa, chegando o número total a 80 em setembro de 2025.

Foi apenas a partir do final de setembro de 2025, ou seja, cerca de seis meses antes da conferência internacional, que o comité organizador local começou a enviar convites para o estrangeiro.

 Inicialmente, a conferência centrava-se no antifascismo; quando é que o tema do anti-imperialismo foi acrescentado?

Parte da delegação do CADTM na Conferência de Porto Alegre, 20 de março de 2026.

Foi em outubro e novembro de 2025 que se acrescentou a dimensão anti-imperialista, face à extrema agressividade adotada por Trump, em particular em relação ao Brasil, na sequência da condenação do seu aliado Bolsonaro. As ameaças de Trump tinham encorajado a extrema-direita brasileira a mobilizar-se em massa no início de setembro (mais de 200 000 manifestantes em São Paulo), o que, por sua vez, levou a grandes mobilizações anti-imperialistas nas principais cidades do Brasil a 22 de setembro de 2025 (mais de 220 000 manifestantes em São Paulo em defesa da soberania nacional do Brasil e contra a amnistia a Bolsonaro e aos seus cúmplices pretendida por Trump e pela extrema-direita).
Em outubro e novembro de 2025, face à extrema agressividade adotada por Trump, se acrescentou a dimensão anti-imperialista,

 Como se pode avaliar o apoio recebido pela conferência a nível internacional?

No início, quando divulgámos a carta-convite assinada principalmente pelos presidentes do PT, do PSOL e do PCdoB de Porto Alegre, a recepção não foi muito calorosa. A carta-convite mencionava o apoio dado à iniciativa por numerosas organizações sociais locais, mas o papel de liderança destes três partidos era evidente e constituía um obstáculo fora da América Latina.

Na Europa, as organizações não têm o hábito de assinar declarações com partidos ou de responder a apelos provenientes de partidos. Isso constituía uma dificuldade real. Na América Latina e na Ásia, isso representa menos problema ou nenhum problema.

Foi a partir de dezembro de 2025 que surgiu a ideia no CADTM internacional de redigir um apelo abrangente e de o lançar em nosso nome, enquanto rede internacional, a fim de tentar superar o máximo de obstáculos e ampliar o apoio. Entre 19 de dezembro de 2025 e 20 de janeiro de 2026, recolhemos assinaturas para o Apelo internacional para reforçar a luta antifascista e anti-imperialista. O apelo é radical, curto, combativo, unitário e evita designar os Estados Unidos e os seus aliados como o único bloco imperialista. Com efeito, o apelo denuncia todas as agressões imperialistas (e colonialistas), independentemente da sua origem, e afirma que é necessário apoiar a resistência dos povos contra elas, incluindo com as armas nas mãos quando necessário. O genocídio perpetrado pelo governo neofascista de Netanyahu em Gaza é denunciado.
O apelo é radical, curto, combativo, unitário e evita designar os Estados Unidos e os seus aliados como o único bloco imperialista
Rapidamente, conseguimos obter as assinaturas de líderes de partidos de esquerda na Europa. Destacam-se as assinaturas de Jean-Luc Mélenchon (LFI) e Olivier Besancenot (NPA A) em França, de Jeremy Corbyn e Zahra Sultana (Your Party) no Reino Unido, de Yanis Varoufakis (MERA 25) e Zoe Konstantopoulou (Trajet de Liberté) na Grécia, de Irene Montero (Podemos) e Ada Colau (Comuns) em Espanha, e dos eurodeputados italianos Ilaria Salis e Domenico Lucano. A estes juntaram-se parlamentares da Alemanha, da Dinamarca, do Luxemburgo, da Suíça, da Turquia… Em França, um número significativo de responsáveis e eleitos de diferentes correntes da esquerda (LFI, Ecologistas, PCF, NPA A, Après, Génération e até mesmo algumas eleitas do PS) assinaram. Na Península Ibérica, responsáveis de quase toda a esquerda espanhola (Podemos, Sumar, Anticapitalistas), basca (EH Bildu), catalã (Comuns, CUP), galega (BNG), andaluza (Adelante Andalucia), da Comunidade Valenciana (Compromís),…

Acrescentemos que quatro eurodeputadas signatárias do apelo deslocaram-se no final de março de 2026 e tomaram a palavra em Porto Alegre: Manon Aubry (LFI - The Left), Leïla Chaibi (LFI - The Left), Estrella Galan (SUMAR - The Left) e Ana Miranda (Bloco Nacional Galego), o que foi muito positivo.

Nos Estados Unidos, conseguimos, o que foi muito encorajador, a assinatura de toda a direção da DSA (Democratic Socialists of the Americas), movimento político do qual faz parte o novo presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani.

Da América Latina, foram recolhidas inúmeras assinaturas de parlamentares, dirigentes partidários, intelectuais, ativistas de renome… de muitos partidos comunistas da América Latina, de organizações membros da IV Internacional, do Bloco Patriótico da Colômbia, do Morena no México, e da Argentina: do movimento Libres del Sur, do Movimento Socialista dos Trabalhadores (membro da FIT-U e da LIS), de Vientos del Pueblo, da Unidade Popular, etc.

Entre os intelectuais que assinaram o apelo: a francesa Annie Ernaux (Prémio Nobel da Literatura em 2022), o sueco Andreas Malm (ecossocialista), o indiano Vijhay Prashad (membro do PCI M), diretor do Centro Tricontinental com sede no Chile e na Índia, Titi Bhattacharya e Nancy Fraser, autoras do Manifesto Feminista dos 99%, Paco Ignacio Taibo II, diretor da importante editora Fondo de Cultura Económica (México), Abel Prieto (Cuba), o economista marxista Michael Roberts (Reino Unido), os politólogos Gilbert Achcar (Reino Unido), Joseph Daher (Síria), Franck Gaudichaud (França), Robert Brenner e Suzi Weissman (EUA), Catherine Samary (França), Patrick Bond (África do Sul), Walden Bello (Filipinas), Frei Betto (escritor, Brasil), Michaël Löwy (França-Brasil), Achin Vanaik da Índia, Françoise Vergès (Reunião/França), Jean Ziegler (Suíça), Mireille Fanon (Martinica/França) e muitos outros.

Ativistas de renome internacional assinaram o apelo, como Thiago Ávila, um dos principais coordenadores da flotilha Sumud para Gaza e, mais recentemente, da flotilha para Cuba; Adau Colau, ex-presidente da Câmara de Barcelona, e Rima Hassan (LFI), também ativas na frota Soumoud ; David Adler, coordenador-geral adjunto da Internacional Progressista; e Massa Kone (Mali), do comité organizador do Fórum Social Mundial 2026.

Responsáveis de meios de comunicação alternativos que assinaram: Denis Robert, diretor fundador da Blast (França), Bhaskar Sunkara, diretor fundador da Jacobin (EUA), Vivek Chibber, diretor da Catalyst (EUA), Jaime Pastor (Viento Sur, Espanha), Daniel Raventos (de Sin Permiso, Espanha), Antoine Larrache (Inprecor, França), Penny Duggan (International Viewpoint), Ugo Palheta (Revista Contretemps), Angela Klein (Revista SOZ, Alemanha), Farooq Sulehria, editor-chefe do Daily Jeddojehad (Paquistão), Martín Mosquera (Jacobin, América Latina), Federico Fuentes (editor da LINKS, Austrália), Rafaël Hernandez (revista Temas, Cuba), Sushovan Dhar, revista Alternative Viewpoint (Índia).

As regiões sub-representadas:

1. a Ásia, embora personalidades e movimentos das Filipinas, Indonésia, Malásia, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh e Nepal tenham dado o seu apoio; 2. a África Subsariana, embora ativistas do Mali, Togo, Camarões, RDC, Quénia, África do Sul, Uganda e Eswatini tenham assinado o apelo; 3. a região árabe, embora ativistas e responsáveis de organizações dos seguintes países tenham assinado: Marrocos, Tunísia, Líbano, Síria, Iraque.

Apoio prestado pela ATTAC: Na França, a ATTAC hesitou bastante e acabou por assinar, felizmente, o apelo. Quase todas as secções da ATTAC na Europa (ATTAC Áustria, ATTAC Espanha, ATTAC Valónia/Bélgica, ATTAC Hungria, ATTAC Itália, ATTAC França,…) assinaram, com uma exceção de peso: a ATTAC Alemanha, que não explicou a sua recusa e não enviou ninguém a Porto Alegre. Os ATTAC da Argentina, de Marrocos e do Togo, que estão organicamente associados ao CADTM, também assinaram.

A rede internacional do CADTM apoiou, evidentemente, ativamente o apelo e contribuiu para a sua divulgação. Isso encorajou as suas organizações membros a contribuírem para a ampla delegação que se deslocou a Porto Alegre: mais de 25 delegados provenientes de Marrocos, Mali, Costa do Marfim, RDC, Índia, Paquistão, Filipinas, México, Colômbia, Porto Rico, Argentina, Bélgica, Suíça e França, sem contar os delegados do Quénia e do Haiti que foram impedidos de participar.

Apoio de organizações sindicais e sindicalistas: vários sindicatos e dirigentes manifestaram o seu apoio ao apelo internacional: ELA e LAB do País Basco, a intersindical da Comunidade Valenciana, a confederação sindical da Galiza, a intersindical do Estado espanhol; vários sindicatos do Brasil: CUT, ANDES, CTB,… ; na Bélgica, Jean-François Tamellini, secretário-geral da FGTB da Valónia, e Felipe Van Keirsbilck, secretário-geral da Centrale nationale des employés (CNE/CSC); Angélique Grosmaire, secretária-geral da Fédération Sud PTT (França), e Andrés Gomez, secretário-geral da CGT Beaulieu (França); Eliana Como, membro da Assembleia Nacional do sindicato CGIL (Itália); Martín Esparza Flores e Humberto Montes de Oca, dirigentes do Sindicato Mexicano de Electricistas (SME) e Luis Bueno Rodríguez, coordenador da Comissão de Organização da Nova Central dos Trabalhadores; Christian Dandrès, presidente nacional do Sindicato Suíço dos Serviços Públicos (SSP-VPOD).

As listas dos 1800 signatários até à data de 15 de março de 2026 estão reunidas aqui..
Ainda é possível assinar o Apelo Internacional clicando aqui.

Éric Toussaint na sessão de abertura da Conferência antifascista de Porto Alegre, 27 mars 2026.

 O CADTM encontrou recusas em assinar o apelo?

Entre as personalidades contactadas, poucas se recusaram a assinar. De referir, no entanto, na Europa, as recusas de Tariq Ali na Grã-Bretanha, de Daniel Tanuro (autor marxista ecossocialista) e Raoul Hedebouw (presidente do PTB) na Bélgica,… Estas recusas, que lamentamos, são poucas e não impediram o sucesso da recolha de assinaturas

 A recusa da direção do sindicato italiano CGIL em assinar o apelo e em ir a Porto Alegre

Difícil de absorver, devido às suas consequências, foi a recusa da direção do importante sindicato italiano CGIL
O que foi muito difícil de absorver, devido às suas consequências, foi a recusa da direção do importante sindicato italiano CGIL, que contactou outras direções sindicais para que não assinassem o apelo; foi o caso da direção da FGTB na Bélgica e, provavelmente, da CGT em França, das Comissões Operárias e da UGT em Espanha,… A direção da CGIL recusou-se a assinar, alegando que discordava da frase que referia a resistência dos povos com as armas nas mãos quando necessário. A direção da CGIL chegou mesmo a contactar a direção da CUT do Brasil para que esta não assinasse. Tentámos convencer a direção da CGIL apresentando argumentos (ver no quadro ao lado a carta que tentava convencer a CGIL e outras organizações a assinar). Explicámos também que a assinatura do apelo não era, de forma alguma, uma condição para participar na conferência. Embora a CGIL tivesse inicialmente anunciado a sua participação na conferência de Porto Alegre, tendo participado no final de novembro de 2025 na primeira reunião online do comité organizador internacional, acabou por decidir não enviar ninguém a Porto Alegre, o que é realmente uma pena. Poderia ter ido a Porto Alegre sem assinar o apelo e teria tido a palavra em pelo menos uma sessão plenária.

Carta enviada à CGIL e a outros movimentos reticentes que se opõem à inclusão do apelo internacional:
Uma passagem do apelo internacional publicado a 20 de janeiro de 2026 suscitou interrogações: a que diz respeito ao apoio à luta dos povos que resistem às agressões imperialistas e/ou coloniais, «incluindo com as armas na mão quando necessário». É esta última expressão — «com as armas na mão quando necessário» — que está na origem das questões levantadas.

Na qualidade de redator desta frase, pela qual assumo total responsabilidade, gostaria de colocar uma série de questões com base na experiência histórica das lutas antifascistas e anti-imperialistas:
• Era justificado apoiar a resistência armada dos guerrilheiros italianos durante a Segunda Guerra Mundial?
• Da mesma forma, face ao ocupante nazi, era justificado apoiar a resistência armada em França, na Jugoslávia, na Grécia, na Polónia, na Bélgica [5] e em outros locais? Cito estes países, sem pretender ser exaustivo, porque os movimentos de resistência foram importantes nesses locais.
• Devia-se apoiar a revolta armada do gueto judeu de Varsóvia, em abril-maio de 1943, contra os nazis?
• Os civis espanhóis que resistiram, armas na mão, à revolta franquista mereciam apoio? Deveria ter-se apoiado as dezenas de milhares de internacionalistas antifascistas vindos do estrangeiro que se juntaram a eles nas Brigadas Internacionais [6]?
• O povo cubano tinha razão em resistir, com as armas nas mãos, à invasão do seu território em abril de 1961 por um grupo de cerca de 1 500 mercenários treinados pelo governo dos Estados Unidos [7]?
• O povo vietnamita tinha razão em levar a cabo uma resistência, com as armas nas mãos, contra o exército francês e, posteriormente, contra o exército dos Estados Unidos, nas décadas de 1950, 1960 e 1970?
• Devia-se apoiar os chineses que resistiram de forma organizada e coletiva, com as armas nas mãos, face à invasão japonesa no final da década de 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial?

Poderíamos também referir os numerosos movimentos populares de resistência armada que marcaram todo o século XX e que permitiram a muitos povos e nações conquistar a sua independência face ao domínio colonial. Deveria apoiá-los?
Cada um pode refletir sobre as resistências populares necessárias face às agressões imperialistas e coloniais que se verificam hoje. A frase que suscita controvérsia afirma claramente que se trata de um apoio à resistência dos povos, incluindo com as armas nas mãos quando tal se revelar necessário. Não é citado nenhum exemplo contemporâneo, e cada um é livre de formar a sua própria opinião.

São os próprios povos que escolhem as suas formas de resistência, sejam elas pacíficas e/ou armadas.

Além disso, o direito internacional reconhece como legítima a resistência armada de populações organizadas face a uma ocupação ou a uma agressão armada estrangeira.

Atenciosamente,
,
Éric Toussaint
Porta-voz do CADTM internacional,
responsável pela redação do apelo internacional

Ver em anexo 1, as trocas de mensagens de 30 de janeiro de 2026 entre Éric Toussaint (CADTM) e Salvatore Marra, da direção da CGIL

 A rede internacional de sindicatos antifascistas

A CGIL contribuiu ativamente para a criação de uma REDE INTERNACIONAL DE SINDICATOS ANTIFASCISTAS, cujo texto fundador pode ser lido clicando aqui. O texto fundador também está disponível no site do CADTM. Trata-se de uma excelente iniciativa e o espaço de convergência da conferência antifascista e anti-imperialista da POA não constitui uma concorrência em relação a esta rede internacional de sindicatos antifascistas. Tivemos a oportunidade de o reiterar na Argentina, em voz alta, nos dias 22 e 24 de março de 2026, durante importantes encontros sindicais nos quais, nomeadamente, a CGIL, as Comissões Operárias e a CGT participaram ativamente.

 Outras recusas em assinar o apelo para reforçar a ação antifascista e anti-imperialista

Na Europa, a Rede de Solidariedade com a Resistência Ucraniana (RESU) recusou-se a assinar, mas, felizmente, enviou uma delegação a Porto Alegre. A recusa da RESU baseia-se no facto de o imperialismo russo não ter sido denunciado no apelo, não tendo sido mencionada a condenação da invasão russa da Ucrânia. A RESU apoia o envio de armas para a Ucrânia, enquanto a CGIL de Itália se opõe a isso. A RESU e a CGIL recusaram-se a assinar o apelo por razões quase opostas, o que ilustra a dificuldade de construir uma ampla unidade.

Outro sindicato recusou-se a assinar o apelo e a ir a Porto Alegre por razões diferentes das da CGIL: trata-se do Sud Solidaires, em França. O Sud Solidaires não explicou por escrito a sua recusa em assinar, mas parece que tal esteja relacionado com o facto de os partidos PT, PCdoB e PSOL terem desempenhado um papel fundamental na organização da conferência. Outras razões certamente tiveram influência, como a solidariedade com a resistência ucraniana.

Na Argentina, o PTS (membro da FIT-U) também se recusou a assinar. O PO (membro da FIT-U) foi mais longe e fez uma campanha contra a conferência, criticando duramente o MST por ter assinado o apelo e por enviar uma delegação a POA. No caso do PTS e do PO, a recusa baseia-se, nomeadamente, no facto de a conferência incluir o PT de Lula, que faz alianças com setores do grande capital.

 Quais são as diferenças entre a conferência antifa e anti-imperialista de POA e o Fórum Social Mundial?

Enquanto nos Fóruns Sociais Mundiais e nos seus equivalentes a nível continental os partidos políticos não são admitidos enquanto tais, no caso em apreço, partidos políticos, movimentos sociais e associações de cidadãos estão presentes em conjunto.

Além disso, não se trata apenas de denunciar a extrema-direita e as agressões imperialistas, independentemente da sua origem, mas sim de tentar lançar uma iniciativa para tentar mudar a situação. É certo que se trata de uma iniciativa modesta, pois estamos apenas no início do processo, mas, dado que a etapa de Porto Alegre é encorajadora, deveremos poder avançar passo a passo. Isso implicará superar as divisões que enfraquecem dramaticamente a esquerda para fazer face à extrema-direita e às políticas imperialistas e neocoloniais das diferentes potências.

 A conferência de Porto Alegre foi um sucesso?

Sim, foi um sucesso. Conseguir reunir mais de 5 000 participantes (número real) na marcha de abertura é um sucesso. Convencer participantes a deslocarem-se de mais de 40 países sem apoio financeiro das autoridades ou de grandes fundações é um sucesso.

A única fundação estrangeira que prestou apoio financeiro foi a Fundação Rosa Luxemburgo, que pagou a interpretação das 11 grandes conferências plenárias.

É preciso esclarecer que o PT, o PCdoB e o PSOL estão na oposição em Porto Alegre e no Estado do Rio Grande do Sul. É a direita dura que está no governo na região. O governo de Lula não contribuiu com financiamento.

Nos primeiros Fóruns Sociais, a situação era diferente: o PT e os seus aliados estavam no governo no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. O apoio da revista mensal francesa Le Monde diplomatique e das suas numerosas edições nacionais foi muito importante para permitir um amplo eco desde a primeira iniciativa. E, sobretudo, o movimento de oposição à globalização capitalista neoliberal estava em pleno crescimento: os anos 90 tinham visto multiplicarem-se as mobilizações nos quatro cantos do planeta, os anos de 1999 e 2000 tinham sido marcados por enormes mobilizações internacionais em Seattle, em Washington, em Banguecoque, em Seul, na Europa,… Impulsionados por essas mobilizações, vários governos progressistas surgiram na América Latina: Chávez na Venezuela (1999), Lula no Brasil (2003), Evo Morales na Bolívia (2005), Manuel Zelaya nas Honduras (2006), Rafael Correa no Equador (2007), Lugo no Paraguai (2008).

Este clima de crescimento das mobilizações e do movimento que se designou como altermundialista, por um outro mundo possível, durou pelo menos até 2006-2007 e conheceu um ressurgimento em 2009–2012 com as mobilizações que se seguiram à crise financeira de 2008, a Primavera Árabe (2011) e os movimentos dos Indignados e do Occupy Wall Street (2011).

Nada disso existe em 2026. Vivemos o período mais difícil dos últimos 40 anos a nível mundial e, se nos limitarmos à Europa, o mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial, com um avanço da extrema-direita sem precedentes no velho continente desde os anos 1930 e uma nova guerra de grande envergadura na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Neste contexto, reunir durante 3 dias mais de 3000 participantes, muitos dos quais jovens muito combativos, para assistir a 11 conferências plenárias e a 150 atividades autogestionadas, é um grande sucesso. Até à última plenária, incluindo a da tarde de domingo, 29 de março, as grandes salas estiveram cheias.

 Como explicar as diferenças muito significativas na percepção do imperialismo e dos imperialismos?

Entre os obstáculos muito importantes, há que destacar as divergências que existem quanto a quais são as agressões imperialistas e quais são os imperialismos a combater. Vou tentar dar uma explicação que, peço desculpa antecipadamente, é esquemática, mas tem a vantagem de oferecer uma perspectiva raramente tida em conta.

A percepção do imperialismo não é de todo a mesma em diferentes partes do planeta. Na América Latina, há 120 anos, apenas o imperialismo dos Estados Unidos tem agredido os povos, as nações e os países da região, e as primeiras agressões dos EUA remontam a dois séculos e foram codificadas na doutrina Monroe de 1823 (ler: https://www.cadtm.org/Hemisferio-Ocidental-uma-historia-dos-EUA-eivada-de-guerras).

Na Europa Central, as principais agressões militares imperialistas ou de outra natureza foram perpetradas do século XIX ao século XX pelo Império Germânico, depois pela Alemanha nazi, pelo Império czarista russo e, posteriormente, pela URSS na época de Stalin (pacto germano-soviético com a ocupação de metade da Polónia e a anexação dos Estados Bálticos) ou no período pós-Estaline, no âmbito das intervenções do Pacto de Varsóvia (Hungria 1956, Checoslováquia 1968).

Em África, as agressões imperialistas e colonialistas foram perpetradas do século XIX ao século XXI pelas potências imperialistas europeias.

No Médio Oriente, as agressões imperialistas dos últimos 70 anos (ou seja, após 1956 e a nacionalização do Canal do Suez por Nasser, seguida da intervenção imperialista francesa, britânica e israelita) foram perpetradas por Israel, pelos Estados Unidos e pelos seus aliados [8].

Na Ásia Oriental, as agressões imperialistas desde o final do séculoXIX até aos anos 50 foram perpetradas pelo imperialismo japonês (bem como pelos imperialismos holandês na Indonésia e francês na Indochina) e, posteriormente, sistematicamente pelos Estados Unidos, seja na Guerra da Coreia no início dos anos 50, na Indochina entre os anos 1960 e 1975, e no apoio que Washington prestou às numerosas ditaduras da região entre os anos 1960 e o final dos anos 1990.

Se não tivermos em conta estas diferenças, não se consegue explicar por que razão a esquerda anti-imperialista adota «hoje» posições muito diferentes de uma grande região para outra do planeta, exceto, e felizmente, quando se trata de denunciar o genocídio do povo palestiniano pelo governo israelita, que reúne (quase) toda a esquerda anti-imperialista.

Os anti-imperialistas europeus deveriam compreender por que razão a Rússia de Putin não é vista como uma potência imperialista ameaçadora de primeira ordem pela esquerda anti-imperialista nas Américas, tal como a esquerda anti-imperialista das Américas deveria compreender por que razão a esquerda na Europa Central e em grande parte da Europa Ocidental considera que a denúncia doimperialismo russo é fundamental e não pode limitar-se à denúncia de Washington, dos seus vassalos europeus e da OTAN.

É preciso também compreender por que razão uma parte importante da esquerda anti-imperialista africana, nomeadamente na África Ocidental, considera prioritária a luta contra o imperialismo francês e não se mobiliza (ainda) contra os acordos militares de certos governos da região com a Rússia de Putin, considerados um mal menor ou um passo obrigatório na luta contra o terrorismo jihadista.

Os debates atravessam grandes redes de esquerda como a La Via Campesina: a visão e as posições relativamente à Rússia de Putin não são as mesmas, quer se trate de organizações camponesas europeias ou latino-americanas. Isso é compreensível e o debate é necessário. Diferenças de sensibilidade e de posicionamento afetam também a ATTAC ou a rede internacional CADTM.

Plenaria final da Conferência, 29 de março de 2026

As diferenças de posição contra as políticas ou as agressões imperialistas não se devem apenas ao local onde se vive e onde se luta, mas remetem também para as diferenças de quadro teórico das diferentes correntes políticas: comunista pró-Moscovo do período anterior à implosão da URSS no século XX, ou maoísta pró-chinês, trotskista, castrista ou eurocomunista... Estas diferenças marcam as antigas gerações militantes e continuam a influenciar as gerações mais jovens.

É preciso ultrapassar ou abandonar a orientação segundo a qual se pode apoiar uma grande potência ou um regime por ser inimigo do inimigo principal, posição frequentemente designada como «campista».

Aliás, no caso da Rússia de Putin, não está de todo provado que, neste momento, ele seja realmente o inimigo da administração de Trump e vice-versa, como demonstro no artigo https://www.cadtm.org/Trump-Putin-e-a-Ucrania-a-partilha-das-zonas-de-influencia-em-detrimento-dos.

É também necessário abandonar a posição segundo a qual não só se deve defender um país soberano face a uma agressão imperialista (o que é indiscutível), mas também o seu regime político, mesmo quando este reprime as lutas das classes populares, como é o caso do regime iraniano, para dar apenas um exemplo.

É também necessário abandonar a ideia de que a Rússia de Putin seria, de alguma forma, a herdeira ou a continuidade da revolução russa de 1917. A Rússia sob a liderança de Putin (que é um anticomunista notório) é uma potência capitalista imperialista de segunda linha que procura reforçar-se através da guerra e da conquista territorial.

A China atual tem características diferentes da Rússia, isso é evidente. É uma potência capitalista imperialista emergente que não recorreu a agressões militares para atingir os seus objetivos. Ao contrário do que alguns querem acreditar, não está a construir o socialismo à sua maneira. Inseriu-se com grande sucesso no sistema capitalista globalizado e está a caminho de se tornar a primeira potência económica mundial. É um pilar do sistema capitalista mundial.

Para agir em conjunto numa perspetiva anti-imperialista, não é obrigatório estar de acordo com a caracterização da Rússia ou da China, desde que se concorde com tarefas concretas de solidariedade. É claro que é muito difícil chegar a esse ponto em assuntos muito sensíveis como a invasão da Ucrânia e a guerra que aí se desenrola.

É muito importante adotar uma política internacionalista coerente e lutar contra todas as agressões imperialistas ou neocoloniais, independentemente da sua origem. É preciso construir a partir da base uma solidariedade entre os povos, a fim de reforçar a resistência à ascensão do neofascismo e ao aumento das agressões imperialistas, de onde quer que venham.

 O que responder às críticas ao apelo internacional segundo as quais não é possível assiná-lo porque não há uma denúncia da invasão da Ucrânia pela Rússia?

O apelo convida «a combater a agressão imperialista e colonial, independentemente da sua origem; e a apoiar a luta dos povos que lhes resistem, incluindo com as armas na mão quando necessário».
O apelo convida claramente «a combater a agressão imperialista e colonial, independentemente da sua origem; e a apoiar a luta dos povos que lhes resistem, incluindo com as armas na mão quando necessário».
Trump e Putin não são citados, nem outros imperialismos. Apenas é mencionado «o caso da Palestina», (que) «assume a forma de um genocídio orquestrado pelo Estado de Israel, com a cumplicidade dos seus aliados imperialistas».

As agressões imperialistas ou subimperialistas são numerosas. Há todas as perpetradas pelos Estados Unidos e por Israel, as da Rússia, nomeadamente contra a Ucrânia, as dos Emirados Árabes Unidos, nomeadamente a que apoia as RSF no Sudão, responsáveis por crimes de guerra em massa e crimes contra a humanidade, as de várias potências no leste da República Democrática do Congo, a da Turquia contra os curdos no norte da Síria, e esta lista não está completa.

Se tivéssemos citado a agressão imperialista russa contra a Ucrânia, é claro que grande parte das forças de esquerda latino-americanas, norte-americanas, e certas forças de esquerda europeias ou asiáticas teriam recusado assinar. O PT, o PCdoB, uma parte importante do PSOL, o Movimento dos Sem-Terra, a CUT do Brasil, os PC latino-americanos e vários sindicatos que assinaram, autores como Vijay Prashad da Índia, não teriam assinado.

Preferimos propor para assinatura um apelo que muitas forças pudessem assinar e que contivesse a frase citada acima, que apela a combater «qualquer agressão imperialista e colonial, independentemente da sua origem» e que especifica «incluindo com as armas nas mãos, quando necessário».

Aqueles e aquelas que, na Europa e na América do Norte, afirmam que era absolutamente necessário denunciar o imperialismo russo e a invasão da Ucrânia no texto do apelo deveriam fazer um esforço para refletir sobre o que motivou a decisão que assumimos: permitir reunir um grande número de assinaturas de pessoas e movimentos de esquerda e promover uma ampla participação na conferência de Porto Alegre para que ali se realizem debates, para que todos possam ouvir pontos de vista diferentes.

Também se pode esperar que aqueles e aquelas que fazem críticas severas ao apelo e à conferência de Porto Alegre se empenhem e invistam forças e energia para realizar na Europa um grande encontro unitário antifascista e anti-imperialista que reúna simultaneamente movimentos e ativistas da Europa de Leste, da Europa Central, da Europa Ocidental e do Mediterrâneo.

 O apelo internacional foi alvo de ataques públicos?

A extrema-direita italiana tomou como alvo o apelo internacional e, em particular, três personalidades italianas que o tinham assinado. O meio de comunicação que lançou o ataque a 17 de fevereiro de 2026 chama-se Il Primato Nazionale [9]. É um ator-chave da «guerra cultural» travada pela direita radical em Itália. A sua importância reside menos nos seus números de vendas do que na sua função ideológica. Constitui uma referência tanto para o partido da chefe do governo Giorgia Meloni (Fratelli d’Italia) como para a Lega de Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro. Il Primato Nazionale é o órgão de imprensa oficial da CasaPound Italia, um movimento político neofascista que se autodefine como os «fascistas do terceiro milénio». Eis a primeira metade do artigo em questão, que publicamos sem qualquer alteração. Este artigo denuncia o apelo, os seus signatários italianos e a criação de uma nova internacional vermelha em Porto Alegre:

«Das palavras às “ações concretas”: o manifesto antifascista assinado por Ilaria Salis e Mimmo Lucano
Após a morte de Quentin Deranque em Lyon, o «Apelo Internacional Antifascista e Anti-imperialista», assinado nomeadamente por Ilaria Salis, Mimmo Lucano e Eliana Como, já não pode ser lido como um simples documento. Deve ser analisado pelo que é: um manifesto político global que apela a uma convergência organizada contra um inimigo definido em termos absolutos e que legitima uma mobilização sem fronteiras.
 
O manifesto antifascista para as «ações concretas»
O apelo, publicado a 12 de fevereiro de 2026 e divulgado pelo Comité para a Abolição das Dívidas Ilégítimas (CADTM), descreve um avanço planetário da «extrema-direita» unida por uma série de elementos: desmantelamento dos direitos laborais, políticas migratórias restritivas, aumento das despesas militares, repressão, vigilância, austeridade. O quadro é o de um conflito global entre o capital e os povos, entre o imperialismo e a resistência. Até aqui, estamos perante uma narrativa ideológica coerente com a tradição da esquerda radical internacional.
 
No entanto, o ponto politicamente mais relevante está noutro lugar. O texto não se limita a uma análise ou a uma denúncia. Invoca explicitamente a necessidade de «acordar ações concretas» e de apoiar «a luta dos povos que resistem, mesmo quando são obrigados a pegar em armas». Não se trata de uma fórmula neutra. É uma passagem que abre caminho para uma legitimação política da violência como instrumento de luta, desde que se inscreva no quadro do antifascismo e do anti-imperialismo.
 
Entre os primeiros signatários figuram nomes de peso da esquerda global, como Jean-Luc Mélenchon, Jeremy Corbyn, Yanis Varoufakis e Annie Ernaux. Mas ao lado destas figuras encontram-se também representantes italianos que ocupam atualmente funções institucionais: Ilaria Salis e Mimmo Lucano, eurodeputados da Aliança dos Verdes e da Esquerda, e Eliana Como, membro da Assembleia Nacional da CGIL. Não se trata de militantes marginais, mas de representantes com responsabilidades públicas.
 
Em Porto Alegre, a nova Internacional Vermelha
O documento insiste na necessidade de uma coordenação internacional contra a «agressão imperialista», cita explicitamente a Palestina como exemplo de situação colonial e termina com uma citação de Che Guevara. A conferência prevista em Porto Alegre é apresentada como uma etapa num longo percurso de mobilização unitária e permanente.»

Paramos aqui a reprodução deste artigo, que mostra até que ponto a iniciativa do apelo internacional é crucial. De facto, enquanto uma internacional neofascista se foi estabelecendo, já era mais do que tempo de reagir. Ao reagir à ameaça fascista, corremos o risco de nos expor à violência verbal ou física dos neofascistas, pois estes não se limitam a publicar artigos do tipo do que acima reproduzimos, mas também passam à ação. Foi isso que denunciou perante a justiça italiana a ex-eurodeputada italiana Eleonora Forenza, membra do partido Rifondazione Comunista. Ela integrou o Parlamento Europeu de 2014 a 2019 no grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica (GUE/NGL). Durante uma manifestação antirracista em Bari, no sul de Itália, a 21 de setembro de 2018, Eleonora Forenza, o seu assistente Antonio Perillo e outros ativistas foram violentamente atacados por membros da organização de extrema-direita CasaPound, que publica Il Primato Nazionale. O seu assistente ficou gravemente ferido (traumatismo craniano). Eleonora Forenza constituiu-se parte civil no processo que se seguiu. Em primeira instância, vários membros da CasaPound foram condenados não só pela agressão, mas também por «reconstituição do partido fascista» (um importante precedente judicial em Itália). Ela denuncia regularmente a lentidão da justiça italiana, uma vez que o veredicto de primeira instância só foi proferido vários anos após os factos.

Corajosamente, Eleonora Forenza assinou o apelo internacional (ver o seu nome na terceira lista de signatários publicada a 19 de março de 2026 após a publicação do artigo que denunciava outros três signatários do apelo.

Vale a pena dizer algumas palavras sobre os dois eurodeputados signatários do apelo internacional que são denunciados pelos neofascistas da Casa Pound: Domenico Lucano, presidente da Câmara de Riace, na Calábria, foi perseguido pelo sistema judicial italiano e pelo ministro do Interior de extrema-direita, Salvini, devido à sua política humanista de acolhimento de migrantes e refugiados. Foi injustamente condenado a 13 anos de prisão, antes de ganhar o recurso após uma longa batalha jurídica e graças a um movimento de solidariedade a seu favor. Posteriormente, em junho de 2024, foi eleito membro do Parlamento Europeu (grupo de esquerda The Left).

Ilaria Salis, ativista antifascista, acusada de violência contra neonazis que manifestavam em Budapeste
Ilaria Salis, ativista antifascista, acusada de violência contra neonazis que manifestavam em Budapeste, tinha sido presa na Hungria em condições degradantes (ela compareceu em tribunal acorrentada pelos pés e pelas mãos) antes de ser libertada em junho de 2024 graças à sua eleição como eurodeputada pela Aliança dos Verdes e da Esquerda (AVS), juntando-se posteriormente ao grupo The Left. Em 2025, um processo oficial iniciado pelo governo de Viktor Orbán para levantar a imunidade parlamentar de Ilaria Salis resultou numa votação muito renhida no Parlamento Europeu. As autoridades húngaras pretendiam retomar o processo contra ela pela alegada agressão a militantes neofascistas em Budapeste em 2023. A votação decisiva sobre o levantamento da imunidade parlamentar de Ilaria Salis teve lugar a 7 de outubro de 2025, durante a sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo. Eis os detalhes dos resultados e das posições políticas nesta votação, que se decidiu por uma única voz: Contra o levantamento da imunidade (apoio a Salis): 306 votos; a favor do levantamento da imunidade (pedido da Hungria): 305 votos.

A maioria do Partido Popular Europeu (direita clássica) e os três grupos parlamentares de extrema-direita no Parlamento Europeu votaram a favor do levantamento da imunidade, trata-se dos Patriotas pela Europa (grupo de Orbán e do RN), do ECR (Fratelli d’Italia de Meloni) e do ESN (Europa das Nações Soberanas liderado pelo partido neofascista alemão AfD). Os eurodeputados italianos que apoiam o governo de Giorgia Meloni (Fratelli d’Italia e Lega) votaram firmemente a favor do levantamento da imunidade, qualificando o resultado de «vergonha para o a Europa». Ilaria Salis reagiu imediatamente, declarando que não se tratava apenas de uma vitória pessoal, mas de uma vitória para o «antifascismo europeu». Aproveitou a sua tribuna no Parlamento para se tornar porta-voz dos presos políticos e dos ativistas antifascistas na Europa. Multiplicou as intervenções sobre: as condições prisionais na Europa; a ascensão dos movimentos neofascistas; o direito à habitação (tema em que também é ativa em Itália). O seu apoio ao apelo internacional antifascista e anti-imperialista lançado pelo CADTM e à conferência de Porto Alegre insere-se na sua luta, o que lhe vale ameaças por parte da extrema-direita.

Outros signatários do apelo internacional são também alvo de múltiplas ameaças e de ações judiciais contra a sua luta, como por exemplo a eurodeputada Rima Hassan e o deputado da Assembleia Nacional, Raphael Arnault, ambos da France Insoumise.
Rima Hassan é alvo de assédio judicial e mediático, nomeadamente ao ser injustamente acusada de «apologia ao terrorismo» (o que é punível com uma pena que pode ir até 7 anos de prisão), quando na realidade ela afirma o seu apoio ativo ao povo palestiniano. O mais recente caso de perseguição judicial remonta a quinta-feira, 2 de abril de 2026, quando foi detida em Paris.
Outros signatários do apelo internacional são também alvo de múltiplas ameaças e de ações judiciais contra a sua luta, como por exemplo a eurodeputada Rima Hassan e o deputado da Assembleia Nacional, Raphael Arnault, ambos da France Insoumise
Após a morte de Quentin Deranque, um militante fascista que sucumbiu aos ferimentos após uma briga com antifascistas em Lyon, a 14 de fevereiro de 2026, Raphaël Arnault recebeu inúmeras ameaças de morte e foi alvo de assédio mediático, apesar de não ter qualquer relação com essa morte.

Reunião do CADTM em Porto Alegre, 30 de março de 2026

 Os pontos de vista diferentes, ou mesmo divergentes, sobre as agressões imperialistas puderam ser expressos durante a conferência em Porto Alegre?

Sim, sem duvidas. Nas suas intervenções em plenário, Rafael Bernabe, da Démocratie Socialiste (Porto Rico), Sushovan Dhar, do CADTM (Índia), Roberto Robaina, presidente do PSOL de Porto Alegre (Brasil), Penny Duggan, da direção da IV Internacional (França), Patricia Pol, da ATTAC França, condenaram muito claramente a invasão russa da Ucrânia. Vários deles expressaram a sua oposição à agressão contra o Irão, ao mesmo tempo que afirmavam a sua oposição ao regime teocrático iraniano e o seu apoio aos protestos. Estas intervenções foram muito mais numerosas do que aquelas que justificaram a invasão russa. Durante a sessão plenária em que Rafael Bernabe (Porto Rico), Sushovan Dhar do CADTM e Patricia Pol da ATTAC França condenaram a invasão russa, apenas um comentador (Batista, da seção brasileira da Internacional Antifa criada em Caracas em setembro de 2024) a defendeu.

No que diz respeito ao Irão, durante essa sessão plenária, um imã iraniano radicado no Brasil defendeu o regime político iraniano e o aiatolá Khomeini. Creio que o seu convite não foi bem-vindo. Mas é importante sublinhar que Rafael Bernabe (Porto Rico) e Sushovan Dhar, do CADTM, criticaram claramente o regime iraniano, ao mesmo tempo que condenaram a agressão de Washington e Telavive contra o Irão.
Entre os workshops, houve um dedicado à solidariedade com os presos políticos russos, entre os quais Boris Kagarlitsky. Tomaram a palavra André Frappier, Mikhaïl Lobanov e Ksenia, a filha de Boris. Outro workshop, que contou com a participação de um número significativo de participantes, foi organizado por membros da Rede Europeia de Solidariedade com a Resistência Ucraniana (RESU). Camaradas sindicalistas ucranianos tomaram a palavra nesse mesmo workshop. Um dos membros d o RESU, Alfon Bech, ativo na conferência de Porto Alegre, escreveu o seguinte sobre a participação dos camaradas ucranianos: «Deste ponto de vista, a participação dos camaradas foi um facto claramente positivo. Para além do nosso workshop, que contou com uma forte presença, o camarada Vasyl interveio noutro workshop onde Eric Toussaint lhe pediu para usar da palavra [10]. Embora não lhes tenha sido dada a palavra nas sessões plenárias, a presença dos camaradas ucranianos, tal como a dos opositores socialistas russos, foi destacada por membros do MES MES
Mecanismo Europeu de Estabilidade
O Mecanismo Europeu de Estabilidade é um dispositivo europeu de gestão das crises financeiras da zona euro que substitui desde 2012 o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e o Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira, que tinham sido criados em resposta à crise da dívida pública na zona euro. O seu âmbito apenas diz respeito aos Estados-membro da zona euro. Esta instituição financeira tem a tarefa, em caso de ameaça à estabilidade da zona euro, de conceder «ajuda» financeira (empréstimos) a um ou mais países em dificuldade, a troco de condicionamentos estritos.
, em particular durante o encerramento final da conferência, conduzido por Roberto Robaina. Eles também puderam ter conversas com militantes do Brasil e de outros países. E deram entrevistas e gravaram vídeos que estão a ser divulgados entre as organizações de esquerda.
» [11] (Fonte: https://entreleslignesentrelesmots.wordpress.com/2026/04/05/notes-sur-la-premiere-conference-internationale-antifasciste-de-porto-alegre-autre-texte/ )
A pluralidade de posições e a sua livre expressão é uma condição sine qua non para o sucesso do reforço da ação antifa e anti-imperialista. Entre os movimentos de esquerda, a capacidade de ouvir pontos de vista com os quais não se concorda é uma condição necessária para a construção de pontos de consenso que permitam levar a cabo ações em conjunto.

Sala cheia para a sessão final, 20 de março de 2026

 No que diz respeito ao antifascismo, que debate existe?

Uma das causas da ascensão da extrema-direita e da sua influência sobre uma parte das classes populares é o resultado das insatisfações e desilusões causadas pelas políticas dos governos ditos progressistas na América do Sul ou social-democratas na Europa
No que diz respeito ao debate sobre o antifascismo, não há espaço neste artigo para abordar o assunto em pormenor, mas há um ponto que parece bastante útil destacar. A ascensão da extrema-direita não se explica apenas pelos efeitos de 40 anos de política neoliberal, que conduziram ao empobrecimento e à precarização de setores importantes das classes populares, bem como de certos setores das chamadas classes médias.
A ascensão da extrema-direita não se explica apenas pelo papel dos grandes meios de comunicação que lhe são favoráveis. É claro que uma das causas da ascensão da extrema-direita e da sua influência sobre uma parte das classes populares é o resultado das insatisfações e desilusões causadas pelas políticas levadas a cabo pelos governos ditos progressistas na América do Sul ou social-democratas na Europa. Foi isso que indiquei na minha intervenção na primeira sessão plenária da conferência de Porto Alegre, a 27 de março, ao referir-me às políticas dos governos de Lula e Dilma Rousseff entre 2003 e 2013 ou às desilusões criadas pela política conduzida pelo governo do presidente Alberto Fernández na Argentina, de 2019 a 2023. O mesmo se verifica na Europa com a política conduzida por governos como o do «socialista» François Hollande em França, dos socialistas em Portugal, dos social-democratas na Alemanha ou do Syriza na Grécia. Podemos também citar a de Biden nos Estados Unidos.

Assim, face ao perigo neofascista, devemos ou não propor uma aliança que os inclua? Esta é uma das grandes questões a que é preciso responder e que divide profundamente as forças antifascistas. A France Insoumise teve ou não razão em propor a Nova Frente Popular em junho de 2024, incluindo o PS? Acredito que sim, pois o programa proposto, sem ser anticapitalista, marcava uma ruptura real em relação à gestão de Hollande e à de Macron e suscitou um entusiasmo genuíno. Em suma, a questão da amplitude das alianças é uma das questões a debater e a resolver, tendo em conta as lições legadas pela história da década de 1930 na Europa. É claro que a aliança construída entre o PT, o PCdoB e o PSOL é uma resposta necessária na luta contra o perigo de um regresso da extrema-direita à presidência do Brasil em outubro de 2026, mas isso não põe fim ao debate sobre a política concreta a seguir para forçar uma verdadeira mudança contra os interesses do grande capital.

 Que outros temas devem ser abordados?

São numerosos e de importância primordial: a necessidade de um programa revolucionário eco-socialista; a dimensão feminista e LGBTQIA+ na luta antifa e anti-imperialista; o papel vital dos povos indígenas; as lutas contra as dívidas ilegítimas; e muitos outros temas.

 Que avaliação se pode ser feita da declaração final?

A declaração final é útil porque analisa de forma clara e sintética o perigo fascista atual, bem como a escalada das agressões imperialistas. O texto afirma: «Lutamos contra todos os imperialismos e apoiamos a luta dos povos pela sua autodeterminação, por todos os meios necessários. » A declaração insiste na necessidade da unidade apesar das diferenças: «As forças que combatem a ascensão da extrema-direita são diversas e apresentam diferentes análises, estratégias, táticas, programas e políticas de aliança. A experiência ensina-nos que, embora reconhecendo essas diferenças, é essencial articular uma luta unitária contra os nossos inimigos.»

O texto apela «a combater as agressões imperialistas e coloniais, independentemente da sua origem; a lutar pelo fim da NATO; e a apoiar a luta dos povos e dos governos que resistem.»

A declaração afirma que «é urgente partilhar as análises, reforçar os laços e levar a cabo ações concretas.» «A Conferência Antifascista pela Soberania dos Povos compromete-se a prosseguir a luta sem tréguas e a constituir um espaço de construção de unidades face à ascensão da extrema-direita e às agressões imperialistas. Perante a barbárie, erguemos a bandeira da solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista.»
A declaração final permitiu harmonizar as agendas e insistir na importância da mobilização para os próximos eventos internacionais, entre os quais:
• Os Encontros Ecossocialistas Internacionais em Bruxelas (15-17 de maio),
• A contra-cimeira face ao G7 na Suíça e em França (meados de junho),
• A Cimeira contra a OTAN, na Turquia (julho de 2026),
• O Fórum Social Mundial em Cotonou, no Benim (4-8 de agosto).

A vontade de convocar Encontros antifascistas e anti-imperialistas a nível das grandes regiões foi afirmada com a programação de um encontro na Argentina e outro para a América do Norte e as Caraíbas, a realizar-se provavelmente no México. Existe também um acordo para convocar novamente uma conferência internacional em Porto Alegre.

Falta na declaração uma referência à resistência do povo ucraniano face à invasão imperialista russa. A frase sobre a qual, nas últimas horas que antecederam a leitura da declaração final, não foi possível aos organizadores locais chegar a um consenso era a seguinte: «Defesa de um processo de paz na Ucrânia que elimine as causas profundas do conflito, estabeleça garantias de segurança para todas as partes e respeite a autodeterminação e a vontade soberana das populações afetadas pela guerra.» Podemos questionar-nos se, apesar de tudo, não teria sido melhor adotar esta formulação em vez de não ter nada sobre a Ucrânia na declaração final. O que também é evidente é que será necessário encontrar, no futuro, um processo transparente e eficaz para adotar a declaração final durante a próxima conferência. Não será fácil, mas é muito importante. Em última análise, apesar das limitações da declaração final, esta é útil.

 Que posição internacionalista adotar?

A questão essencial para nós, enquanto revolucionários e internacionalistas, é a seguinte: de que lado nos posicionamos? A nossa resposta é clara. Estamos do lado dos povos, contra os objetivos do Grande Capital e os confrontos entre grandes potências e os diferentes imperialismos.
Concretamente, isto significa que apoiamos os militantes e militantes que, na Rússia e na Ucrânia, se opõem à guerra travada pela Rússia na Ucrânia. Afirmar isto deve andar a par com a crítica à política neoliberal e nacionalista chauvinista do governo de direita de V. Zelensky, com a denúncia da NATO e das ambições imperialistas de Trump e dos europeus sobre a Ucrânia.
Apoiamos os trabalhadores e trabalhadoras, os estudantes e os movimentos sociais na China que lutam pelos seus direitos, pela melhoria das suas condições de vida e por mais liberdades políticas.
Apoiamos igualmente os trabalhadores e as massas populares nos Estados Unidos que lutam contra as políticas de Trump.
Defendemos a soberania dos países do hemisfério ocidental e de outras partes do mundo contra a estratégia agressiva de dominação dos Estados Unidos. Estamos do lado dos povos na sua luta pelo direito à autodeterminação e pelo exercício da sua soberania sobre os seus recursos naturais. Opomo-nos a todas as agressões imperialistas e colonialistas, independentemente da sua origem.
Na Europa, opomo-nos à política imperialista e neocolonial dos nossos governantes e denunciamos a sua cumplicidade com o governo neofascista de Netanyahu, que comete um genocídio contra o povo palestiniano. Opomo-nos às políticas desumanas praticadas pela maioria dos governos do planeta em relação aos migrantes e aos candidatos a refugiados. Apoiamos todas as atividades de solidariedade internacionalista.
Defendemos uma perspetiva genuinamente internacionalista. Escolhemos o lado dos povos contra os seus opressores. Envolvemo-nos ativamente com outras forças políticas e sociais na prossecução dos esforços que permitiram a realização e o sucesso da conferência antifascista e anti-imperialista de Porto Alegre, no Brasil (26-29 de março de 2026). Continuamos a recolher assinaturas para a Chamada internacional para reforçar a ação antifascista e anti-imperialista. E assinamos, enquanto rede internacional CADTM, a declaração final da conferência de Porto Alegre.

 Conclusão

Se as divergências sobre a natureza dos diferentes imperialismos e os legados do século XX continuam a fragmentar a esquerda, a urgência ditada pela ascensão coordenada dos neofascismos e das agressões imperialistas forçou uma convergência sem precedentes. O sucesso deste encontro não se medirá pela unanimidade das suas declarações, mas pela sua capacidade de transformar esta «unidade de ação» numa resistência concreta e duradoura. Em definitiva, a conferência de Porto Alegre 2026 marca uma etapa significativa na reconstrução de um internacionalismo combativo, capaz de reunir para além das divergências reais que atravessam as forças de esquerda à escala mundial. O seu sucesso deve-se tanto à amplitude da mobilização como à capacidade de abrir espaços de debate e de convergência num período defensivo.
Mas os obstáculos encontrados mostram que nada está garantido. A dinâmica iniciada em Porto Alegre só poderá consolidar-se através de um aprofundamento das discussões, de um esclarecimento das posições e, sobretudo, da multiplicação de iniciativas concretas, enraizadas nas lutas. Mais do que um desfecho, esta conferência constitui assim um ponto de partida: o de um processo longo, incerto, mas necessário para reconstruir uma solidariedade internacionalista à altura dos desafios colocados pela ascensão do neofascismo e das rivalidades imperialistas.

 Anexo 1: Intercâmbios construtivos com Salvatore Marra, da direção do sindicato italiano CGIL, em 30 de janeiro de 2026

Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, às 09:13, SALVATORE MARRA escreveu:

Caro Eric,
Em primeiro lugar, gostaríamos de te agradecer por nos teres contactado e por teres fornecido esclarecimentos sobre a questão levantada relativamente a uma passagem do apelo antifascista internacional.
Parece-nos que este apelo constitui o lançamento da conferência de Porto Alegre no final de março. É esse o caso ou não?
Gostaríamos também de referir que verificámos que uma dirigente nacional da CGIL já assinou o apelo. Estamos em contacto com ela internamente e esclareceremos esta questão o mais rapidamente possível.
Além disso, gostaríamos de sublinhar que este debate sobre o uso de armas foi um dos argumentos mais utilizados para atacar de forma virulenta a posição da CGIL e da ANPI durante o debate sobre o envio de armas para a Ucrânia, ao qual nos opusemos claramente desde o início da agressão russa. Além disso, não consideramos adequado falar do uso de armas fora do contexto, sem ter em conta as diferentes situações. Os casos que mencionas são diferentes uns dos outros e situam-se em contextos profundamente distintos.
O direito internacional prevê, evidentemente, o direito à legítima defesa em caso de agressão, mas não temos a impressão de que o contexto a que o apelo se refere corresponda às circunstâncias previstas pelo direito internacional.
Acrescento que somos os coordenadores da Rede Internacional de Sindicatos Antifascistas e que o manifesto não faz qualquer referência ao uso de armas nem à luta violenta e/ou armada; consequentemente, uma assinatura nossa deste apelo estaria igualmente em contradição com o conteúdo do manifesto.
Antes de tomarmos uma decisão definitiva sobre a nossa participação, ativa ou passiva, na iniciativa, precisamos de esclarecimentos sobre este apelo e sobre a sua natureza. Ao mesmo tempo, estamos bem cientes de que, uma vez que já foi assinado por centenas de pessoas, provavelmente não poderá ser alterado.
Cumprimentos,
Salvatore Marra
De: Eric Toussainteric.toussaint4 chez gmail.com
Enviado: sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, 12:03
Para: SALVATORE MARRA; NICOLETTA GRIECO Assunto: TR: Um esclarecimento sobre uma passagem do apelo internacional antifascista publicado a 20 de janeiro de 2026
Caro Salvatore, cara Nicoletta,
O apelo (https://www.cadtm.org/Appel-international-au-renforcement-de-l-action-antifasciste-et-anti) foi lançado para exortar a um reforço da luta antifascista e anti-imperialista a nível internacional e para expressar apoio à iniciativa de Porto Alegre.
Assiná-lo não é, de forma alguma, uma condição para participar na conferência de Porto Alegre. Nunca foi escrito nem dito que fosse necessário assinar o apelo para poder participar na conferência de Porto Alegre. Isto foi claramente esclarecido em várias ocasiões e reafirmado, nomeadamente, na reunião online de 28 de janeiro de 2026 do comité preparatório internacional da conferência (ver ata em anexo). Consequentemente, não está escrito em lado nenhum que seja necessário assinar o apelo para participar na conferência de Porto Alegre no final de março de 2026.
Por outras palavras, este apelo não é apresentado pelo CADTM, que tomou a iniciativa, como a base política da conferência de Porto Alegre.
O apelo não está em concorrência com o da Rede Internacional de Sindicatos Antifascistas, que pode ser consultado no vosso site:
https://binaries.cgil.it/pdf/2023/02/14/143530926-b2fabecc-d98c-47ff-9654-cab5a96333c9.pdf
É muito positivo que a rede de sindicatos antifascistas que criaram exista, e é preciso reforçá-la ao máximo. Isso deve ser afirmado durante a conferência de Porto Alegre.
A conferência de Porto Alegre decidirá, através de um processo democrático, a declaração final que será adotada. Procuraremos que esta seja o mais unificadora possível. Na minha opinião, as questões que impedissem a unidade deverão ser excluídas da declaração final.
Cumprimentos,
Eric Toussaint
www.cadtm.org – CADTM International
8 Rue Jonfosse, 4000 LIÈGE – Bélgica
Sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, às 12:45, SALVATORE MARRA escreveu:
Caro Eric,
Obrigado por estes esclarecimentos e pela tua abordagem construtiva. Aguardamos mais informações sobre o programa e as diferentes atividades para podermos decidir definitivamente sobre a nossa participação.
Seria bom que fosse incluído no site um link para o manifesto da Rede Internacional de Sindicatos Antifascistas, da qual fazem parte a CUT, a CGIL, a CGT, as CCOO e outros [12]
.
Cumprimentos,
Salvatore

Notas

[1Em 2025, a justiça brasileira condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. «O ex-presidente e vários dos seus aliados foram condenados por um grupo de juízes do Supremo Tribunal Federal por terem tentado derrubar a democracia brasileira após a derrota eleitoral de 2022. A conspiração previa o assassinato do então presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do juiz Moraes. O plano previa também o fomento de uma insurreição no início de 2023. O ex-presidente foi igualmente considerado culpado de ter liderado uma organização criminosa armada e de ter tentado abolir, através da violência, o Estado de direito democrático. » Fonte: https://fr.euronews.com/2025/11/26/bresil-jair-bolsonaro-debute-une-peine-de-27-ans-de-prison-pour-coup-detat-manque publicado a 26 de novembro de 2025, ver tambem https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/09/11/primeira-turma-do-stf-condena-jair-bolsonaro-e-outros-sete-reus-por-golpe-de-estado.ghtml

[2O PSOL discordava da aliança estabelecida por Lula e pelo PT com setores da burguesia, que convidavam a participar no governo em caso de vitória eleitoral. Após a vitória de Lula, o PSOL pronunciou-se contra a participação dos seus membros no governo, embora apoiasse no parlamento as políticas que fossem conformes aos interesses populares.

[3A distância entre Porto Alegre e Montevidéu é de 800 km e a entre POA e Buenos Aires é de 1300 km.

[4Felizmente, apesar deste recuo para a agenda nacional, boa parte das organizações de esquerda não abandonaram suas tarefas de solidariedade internacional, por exemplo, em solidariedade com o povo palestiniano. É particularmente o caso da LFI em França, da esquerda radical italiana, da esquerda radical na Grã-Bretanha e na Irlanda, na Bélgica,… Por outro lado, na Alemanha, o medo de ser acusada de antissemitismo colocou uma parte da esquerda numa posição fortemente defensiva e aquém das suas tarefas de solidariedade internacional com o povo palestiniano.

[5Como sindicalista na Bélgica, aprendi que foi nomeadamente graças à coragem de dirigentes sindicais como André Renard, que pegaram em armas contra o ocupante nazi na minha região (Liège e a Valónia em geral), que foi possível recriar um sindicalismo poderoso e combativo após a Segunda Guerra Mundial. Isso contribuiu para conquistar vitórias sociais muito importantes posteriormente.

[6Entre 32 000 e 40 000 voluntários estrangeiros participaram nas Brigadas Internacionais entre 1936 e 1938 para apoiar a República Espanhola. Provenientes de 53 países, estes antifascistas incluíam cerca de 10 000 franceses, com contingentes significativos de alemães, italianos, polacos e americanos. Cerca de 15 000 deles morreram em combate.

[8A intervenção militar russa direta limitou-se à Síria.

[9Il Primato Nazionale, «Dalle parole alle “azioni concrete”: il manifesto antifascista firmato da Ilaria Salis e Mimmo Lucano» https://www.ilprimatonazionale.it/approfondimenti/azione-antifascista-porto-alegre-manifesto-317737/

[10Trata-se do workshop coorganizado pelo CADTM Internacional sobre A apropriação imperialista dos recursos naturais: 3 exemplos (Leste do Congo, Venezuela e Ucrânia). Este workshop foi coorganizado pelo CADTM Internacional, pelo CADTM (RDC) e pela União das Mulheres pela Dignidade Humana (UFDH - RDC). Ver a lista dos 9 workshops coorganizados pelo CADTM: https://www.cadtm.org/Activites-du-CADTM

[11Alfons Bech, da RESU, acrescenta: «O movimento de esquerda esteve bastante na defensiva nesta conferência. Para mim, o mais importante é que se deu um passo em frente na unidade e na coordenação destes sindicalistas, partidos e pessoas que, na América, já eram a favor da Ucrânia. E quem sabe, de novos. Penso que este passo em frente abre uma nova etapa de colaboração entre os partidos, os sindicalistas e as pessoas da América do Norte, da América Central e da América do Sul. E entre eles e a Europa. Saber que existem atores que defendem posições idênticas ou semelhantes a favor da Ucrânia e da sua classe trabalhadora, e agir em conjunto em torno desta conferência, adotar em conjunto uma mesma resolução, é um passo qualitativo em relação à situação anterior à conferência. Partindo daí, é preciso agora avançar com as três decisões tomadas no final da conferência: a) criar um grupo no Google dos participantes no workshop, organizações e pessoas, para manter o contacto com os camaradas, as notícias e as campanhas na Ucrânia; b) trocar os artigos e relatórios que redigiremos sobre a conferência em relação à Ucrânia; c) participar nas reuniões mensais organizadas pela ENSU a uma hora conveniente para a América, no primeiro sábado de cada mês. (Fonte: https://entreleslignesentrelesmots.wordpress.com/2026/04/05/notes-sur-la-premiere-conference-internationale-antifasciste-de-porto-alegre-autre-texte/ )

[12Ver o link no site do CADTM publicado a 5 de fevereiro de 2026 https://www.cadtm.org/MANIFESTE-DU-RESEAU-INTERNATIONAL-DES-SYNDICATS-ANTIFASCISTES. Ver também a seção do site da CGIL dedicada à rede intersindical antifascista: https://www.cgil.it/la-cgil/aree-politiche/internazionale/manifesto-rete-internazionale-dei-sindacati-antifascisti-al6r6afl

Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.

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