Portugal mobiliza o voto contra a extrema-direita

17 de Fevereiro por Jorge Costa


António José Seguro, o novo presidente da República Portuguesa

António José Seguro foi eleito no passado domingo, 8 de fevereiro, presidente da República de Portugal com 67 % dos votos, derrotando por larga margem o candidato neofascista com quem disputou a segunda volta da eleição, André Ventura (33 %).



Seguro liderou o Partido Socialista entre 2011 e 2014, anos em que o PS, fora do governo, colaborou na aplicação do programa de austeridade sob a troika Troika A Troika é uma expressão de apodo popular que designa a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. . Apesar deste perfil – a que a imprensa chamou «moderado» – Seguro não foi oficialmente apoiado pelo primeiro-ministro de direita, que preferiu manter-se equidistante.

Apesar da derrota de Ventura, a extrema-direita sai reforçado desta eleição. Depois de chegar a segundo partido nacional nas legislativas de maio de 2025, consegue agora quase igualar, na segunda volta, o número de votos obtido em maio pelos partidos do governo, com votos recebidos de eleitores que nunca tinham votado no partido Chega e que apoiaram os candidatos presidenciais do governo (PSD) e do partido Iniciativa Liberal. De acordo com os estudos realizados à saída das urnas, um em cada três votantes do candidato ultraliberal à primeira volta (o terceiro classificado, com 16 %) optaram agora por Ventura. Como a experiência francesa demonstra, uma governação assente no programa da direita é o melhor adubo para o crescimento eleitoral do neofascismo. Salvaguardando as diferenças políticas e de regime, recorde-se que em 2017, face a Macron, Marine Le Pen terminou a segunda volta com 34 %; em 2022, já atingiu 41 %, preparando-se para a disputa da maioria em 2027.

O que exprime esta vitória de Seguro?

Essencialmente, esta foi uma importante mobilização do povo que rejeita a proposta neofascista. Sublinhe-se que as eleições decorreram com Portugal em «estado de calamidade», declarado desde o início de fevereiro, sob tempestades devastadoras que deixaram uma dezena de mortos e uma parte do país inundado e sem abastecimentos essenciais (eletricidade, água, telecomunicações). Apesar disso, o nível de participação manteve-se estável entre a primeira e a segunda volta.

Quanto à esquerda, o seu apoio a Seguro não se alimentou de equívocos políticos. O novo presidente não expressava um «campo de esquerda»: a sua carreira política é um curso de acomodação da social-democracia ao neoliberalismo e, em plena campanha, o candidato lavou as suas mãos quanto ao pacote laboral, delegando a promulgação da nova lei do trabalho num eventual acordo do governo com a central sindical UGT (alinhada ao centro).

Seguro não exprime sequer um suposto «campo constitucional»: o próprio Seguro falhou quando, à frente do PS e sob a troika, aceitou um corte das reformas inconstitucional e se opôs aos deputados de esquerda que recorreram ao Tribunal Constitucional e ali derrotaram aquele corte. Agora, acaba de ser eleito com o voto de muitos dos defensores da revisão regressiva da Constituição, da mesma direita que faz acordos com o Chega no parlamento (sobre trabalho e imigração) ou em autarquias como a da capital. Tal como em França, muitos dos que agora declararam apoio tático a Seguro teriam votado Ventura se a alternativa estivesse à esquerda.

Conhecendo a trajetória de Seguro, este não será um obstáculo às reformas liberais do governo, que fará o seu caminho entre a ambiguidade dos socialistas e apoios intermitentes dos neofascistas. A resposta à esquerda terá de surgir nas resistências sociais e nos diálogos que evitem a marginalidade política. A greve geral de dezembro indicou o caminho a trilhar: mais protagonismo às lutas e ao terreno extra-parlamentar, mais convergência nas solidariedades contra a fascistização.


Jorge Costa é membro da direção nacional do Bloco de Esquerda.

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