Trump e o domínio imperialista despudorado do hemisfério ocidental

18 de Fevereiro por Eric Toussaint


A publicação da Estratégia de Segurança Nacional 2025 (NSS 2025), seguida em janeiro de 2026 pela Estratégia de Defesa Nacional (NDS 2026), constitui uma evolução importante na formulação oficial da política externa dos Estados Unidos. Se a doutrina Monroe serviu por muito tempo como referência implícita para o domínio dos Estados Unidos sobre as Américas, o governo Trump agora propõe uma versão explícita, reivindicada e militarizada. O que antes era uma prática hegemônica frequentemente dissimulada por trás da linguagem do multilateralismo, da democracia ou da «segurança coletiva», é agora assumido pelos Estados Unidos como um direito exclusivo de controle estratégico de todo o hemisfério ocidental.



Nesta quarta parte da série dedicada à política externa de Trump, examinaremos como Washington está redefinindo sua relação com as Américas, da Groenlândia à Patagônia. Na Estratégia de Segurança Nacional 2025 (NSS 2025), Trump não se contenta em reafirmar uma zona de influência: ele institui um princípio de exclusão ativa em relação a qualquer potência extra-hemisférica – em primeiro lugar a China – e afirma o uso de meios militares diretos para fazer respeitar essa primazia. Essa evolução doutrinária não se resume a um reposicionamento geopolítico; ela expressa uma profunda transformação ideológica do discurso imperial dos Estados Unidos, agora despudorado na afirmação de sua superioridade e de seu direito ao uso unilateral da força, em violação ao direito internacional.

A análise dessa política em relação ao hemisfério ocidental permite assim medir o grau de radicalização estratégica do governo Trump: militarização das relações com os vizinhos, criminalização política dos governos recalcitrantes, instrumentalização da luta contra o narcotráfico e intimidação dos Estados a escolher entre o alinhamento com Washington ou a exclusão/agressão. O «corolário Trump» à doutrina Monroe não constitui uma simples atualização retórica; representa uma formalização assumida de um projeto de dominação continental e é posto em prática pelo uso da força letal nas águas territoriais internacionais do Caribe e do Pacífico a partir de agosto de 2025, e contra a Venezuela em 3 de janeiro de 2026. É evidente que Trump se arroga o direito de usar força letal também contra qualquer país ou governo que deseje identificar como inimigo. Cuba em primeiro lugar, mas também a Colômbia estão na mira.

 O que significa o corolário Trump à doutrina Monroe no hemisfério ocidental?

Recordemos que o hemisfério ocidental abrange todas as Américas, da Groenlândia e do Canadá até o sul da Argentina e do Chile. De acordo com a doutrina Monroe, que data da primeira metade do século XIX, nenhuma potência extra-hemisférica deveria intervir nas Américas, consideradas como território exclusivo dos Estados Unidos. Essa exclusividade visava as potências coloniais europeias e suas possessões nas Américas, possessões que os Estados Unidos questionavam e cobiçavam. Em troca da exclusão das potências europeias, Monroe se comprometia a não intervir na Europa.

Em 2025-2026, segundo Trump, qualquer presença estratégica, econômica ou tecnológica de uma potência rival (em particular a China) no hemisfério ocidental constitui uma ameaça direta à segurança dos Estados Unidos e deve ser impedida ou desmantelada. Para Trump, o hemisfério ocidental é a zona de segurança vital dos Estados Unidos, onde nenhuma potência externa deve rivalizar com a influência americana. É uma doutrina de exclusão ativa, não apenas de não interferência.

A NSS 2025 afirma:

«Impediremos os nossos concorrentes não hemisféricos de colocarem forças ou outras ameaças, ou possuírem ou controlarem ativos estratégicos vitais, no nosso hemisfério. Este “corolário Trump” à doutrina Monroe é uma questão de bom senso e representa uma potencial restauração do poder e das prioridades americanas, em conformidade com os interesses de segurança dos Estados Unidos.» [1] (NSS 2025, p. 15)

Mais adiante, ainda sobre as Américas, o documento torna-se bastante explícito:

«Todos os países devem ser confrontados com a seguinte escolha: querem viver num mundo liderado pelos Estados Unidos, composto por países soberanos e economias livres, ou num mundo paralelo onde sofrem a influência de países situados do outro lado do mundo?» [2][2] (NSS 2025, p. 18)

Se descodificarmos a citação anterior, o conteúdo real da mensagem é: «Todos os países enfrentam a seguinte escolha: aceitar o domínio dos Estados Unidos no plano político e econômico ou se expor a medidas de retaliação econômica muito duras e a uma provável agressão militar direta.»

Leia sobre o assunto: Ex-presidente hondurenho Hernández perdoado, Maduro sequestrado : o cinismo de Trump

 Os Estados Unidos estão ameaçados militarmente?

No mesmo documento, o governo Trump descreveu a situação vantajosa dos Estados Unidos da seguinte maneira:

«Uma situação geográfica invejável, rica em recursos naturais, sem potências rivais fisicamente dominantes em nosso hemisfério, fronteiras protegidas de qualquer invasão militar e outras grandes potências separadas por vastos oceanos» [3].

De acordo com essa constatação, os Estados Unidos não sofrem nenhuma ameaça militar séria. No entanto, Trump não pára de usar o pretexto de ameaças que supostamente colocariam em risco a segurança dos Estados Unidos para justificar o injustificável, ou seja, as constantes agressões realizadas por Washington contra seus vizinhos.

As agressões dos Estados Unidos contra seus vizinhos nas Américas são uma constante (veja o próximo artigo sobre a longa série contínua de agressões perpetradas pelos Estados nos Estados Unidos no hemisfério ocidental), mas esta é provavelmente uma das raras ocasiões em que um presidente dos Estados Unidos expressa de forma tão crua e brutal a sua vontade de domínio total e o seu direito de usar a força quando bem entender para atingir os objetivos que considera favoráveis aos interesses dos habitantes dos Estados Unidos.

As ameaças constantemente invocadas pela administração Trump para justificar sua política brutal e violadora dos direitos humanos, tanto na política interna quanto na política internacional no hemisfério ocidental, são:

  • A chegada de migrantes apresentada como uma invasão maciva que requer a intervenção do exército e de outros aparelhos repressivos do Estado, como o ICE, dentro e fora das fronteiras dos Estados Unidos.
  • O tráfico de narcóticos, apresentado como resultado de uma intervenção externa, como se grande parte das causas não residisse dentro das fronteiras dos Estados Unidos. A luta contra o narcotráfico justifica, segundo Trump, execuções extrajudiciais, agressões contra Estados soberanos e sequestros.
  • O controle estrangeiro (principalmente chinês) parcial sobre recursos considerados estratégicos pelos Estados Unidos. Isso justifica, aos olhos de Trump, a tomada de controle direto de territórios considerados ameaçados, sejam eles a Venezuela, o Canal do Panamá ou a Groenlândia.

 No documento de defesa nacional publicado em 23 de janeiro de 2026, o que há de novo em relação ao hemisfério ocidental? E qual é a realidade prática da política de Trump no hemisfério?

No documento de estratégia de defesa nacional publicado em 23 de janeiro de 2026 (NDS2026) [4] pelo Ministério da Guerra (sic!), o Pentágono ameaça explicitamente os outros países do hemisfério ocidental [5] com operações como a realizada em 3 de janeiro de 2026 contra a Venezuela:

«Garantiremos o acesso militar e comercial dos Estados Unidos a áreas-chave, particularmente o Canal do Panamá, o Golfo do México e a Groenlândia. Forneceremos ao presidente Trump opções militares confiáveis para usar contra os narcoterroristas, onde quer que eles estejam. Nos comprometeremos de boa-fé com nossos vizinhos, do Canadá aos nossos parceiros da América Central e do Sul, mas garantiremos que eles respeitem e façam sua parte para defender nossos interesses comuns.
 
E quando não o fizerem, estaremos prontos para tomar medidas direcionadas e decisivas que sirvam concretamente aos interesses dos Estados Unidos. Esse é o corolário de Trump à doutrina Monroe, e o exército americano está pronto para aplicá-lo com rapidez, poder e precisão, como o mundo viu durante a operação ABSOLUTE RESOLVE» [6] (em português: «operação Determinação Absoluta»; Absolute Resolve é o nome da operação militar de grande envergadura conduzida pelo exército dos Estados Unidos contra a Venezuela em 3 de janeiro de 2026). Fonte: NDS2026, publicado em 23/01/2026, p. 3.

Algumas páginas adiante, o Pentágono escreve:

«Nicolas Maduro, por exemplo, pensava que poderia envenenar os americanos com total impunidade. A operação ABSOLUTE RESOLVE lhe ensinou que não era assim, e todos os narcoterroristas deveriam tomar boa nota disso.» [7]

No entanto, é evidente que a acusação de narcotraficante não se baseia em nenhuma prova e não é absolutamente credível.

Como se sabe, Trump não hesitou em acusar Gustavo Petro, o presidente progressista colombiano, de também ser um líder ilegal do tráfico de drogas.

De acordo com o site Euronews, em outubro de 2025:

«O presidente americano acusou Gustavo Petro de ser “um líder ilegal do tráfico de drogas que incentiva fortemente a produção massiva de drogas” na Colômbia, afirmando que o tráfico de drogas se tornou “de longe, o maior negócio da Colômbia”.» (Fonte: Euronews, https://fr.euronews.com/2025/10/19/narcotrafic-donald-trump-annonce-la-fin-des-aides-financieres-a-la-colombie publicado em 19/10/2025) [8].

Em janeiro de 2026, após agredir militarmente a Venezuela, sequestrar e manter em cativeiro o presidente venezuelano e sua esposa, Trump ameaçou Petro de ser o próximo da lista. Vários meios de comunicação noticiaram suas ameaças.

Encorajado pelo sucesso de sua operação militar e diante dos fracos protestos internacionais oficiais em relação à gravidade de sua ação contra a Venezuela, Trump decidiu radicalizar fortemente a política que vem conduzindo contra Cuba desde seu primeiro mandato.

Em 29 de janeiro de 2026, Trump assinou um decreto executivo declarando que o governo cubano constituía uma ameaça «incomum e extraordinária» à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos

 [9]. Esse decreto serviu de base jurídica para endurecer as sanções em vigor, que já causavam danos terríveis à economia e à população cubana, o que foi denunciado várias vezes em moções e resoluções aprovadas por quase unanimidade pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Aqui estão os resultados das votações da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre a resolução intitulada «Necessidade de levantar o embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos» nas últimas três sessões. A tendência mostra um isolamento quase total dos Estados Unidos nesta questão.

Resultados das votações (2023-2025)
Ano Sessão A favor Contra Abstenção Países que votaram CONTRA
2023 78ª 187 2 1 EUA, Israel (abst.: Ucrânia)
2024 79ª 187 2 1 EUA, Israel (abst.: Ucrânia)
2025 80ª 188 2 0 EUA, Israel

Desde o final de janeiro de 2026, Trump pretende asfixiar completamente a economia da ilha através da interrupção total ou quase total do fornecimento de combustíveis indispensáveis à produção de energia. Ele já havia proibido e obtido da Venezuela a interrupção das entregas de petróleo. E, após o decreto de 29 de janeiro de 2026, conseguiu que as autoridades mexicanas interrompessem os fornecimentos, exceto talvez aqueles por motivos humanitários. A Europa e o Canadá limitaram-se a protestar contra as medidas unilaterais tomadas por Trump em relação a Cuba, mas não anunciaram nenhuma medida de apoio à ilha. A Rússia e a China protestaram, mas até agora não anunciaram nenhum fornecimento de petróleo. É importante notar que as ameaças de sanções tarifárias e outras contra os países que fornecerem petróleo a Cuba não devem incomodar a Rússia, que já está sob sanções dos Estados Unidos desde a invasão da Ucrânia. Lembremos que, por outro lado, a Rússia fornece petróleo, gás, carvão e cereais a Israel, braço armado dos Estados Unidos no Oriente Médio e responsável por um genocídio contra o povo palestino. (Ler: Éric Toussaint: Por que os BRICS não denunciam o genocídio em curso em Gaza?

).

 Como o recurso à força é mencionado no documento publicado pelo Pentágono em 23 de janeiro de 2026?

A força é sistematicamente afirmada como o meio ao qual o exército e Trump recorrerão para reforçar a posição dos Estados Unidos nas Américas. O documento é claro a esse respeito, eis alguns trechos que dispensam comentários:

«Conforme previsto na NSS, os Estados Unidos não mais cederão o acesso ou a influência em territórios-chave do hemisfério ocidental. O Departamento de Guerra fornecerá, portanto, ao presidente opções confiáveis para garantir o acesso militar e comercial dos Estados Unidos a territórios-chave, do Ártico à América do Sul, em particular a Groenlândia, o Golfo da América e o Canal do Panamá. Garantiremos que a doutrina Monroe seja respeitada em nossa época.» [10] (NDS2026 p. 16)

O tom deliberadamente belicoso e ameaçador aparece ao longo de todo o documento do Pentágono:

«O Departamento de Guerra garantirá que as forças conjuntas tenham sempre a capacidade de realizar ataques e operações devastadoras contra alvos em todo o mundo, inclusive diretamente do território americano, oferecendo assim ao presidente uma flexibilidade e agilidade operacionais inigualáveis» [11]. Fonte: NDS2026 , p. 18.
«Restauraremos a filosofia bélica. Reorientaremos as Forças Armadas dos Estados Unidos para seu objetivo fundamental e insubstituível: vencer de forma decisiva as guerras da nação» [12]. Fonte: NDS2026, p. 24.
 

 De acordo com a Constituição dos Estados Unidos, quem tem o poder de declarar guerra?

 
De acordo com o Artigo I (Seção 8, Cláusula 11) da Constituição dos Estados Unidos [13], o Congresso tem o poder exclusivo de «declarar guerra». Por sua vez, o documento do Ministério da Guerra afirma que o presidente tem o poder de decidir sobre as operações militares e que, para isso, dispõe do exército mais poderoso do mundo:
 
«O presidente Trump, durante seu primeiro mandato e desde seu retorno ao poder em janeiro de 2025, reconstruiu o exército americano para torná-lo o melhor do mundo, a força de combate mais temível» [14].
«Sob sua liderança, os Estados Unidos dispõem do exército mais forte, mais letal e mais competente do mundo, na verdade, o exército mais poderoso que o mundo já conheceu» [15].

«Somente o Departamento de Guerra pode fornecer esse poder para garantir a defesa dos interesses da nação, e o faremos sem complexos. Seremos a espada e o escudo de nossa nação, sempre prontos para ser usados de forma decisiva sob a liderança do presidente, a serviço de sua visão de uma paz duradoura através da força» [16].

Para contornar a Constituição, Trump afirma que as agressões militares que ordena são operações militares e não constituem uma declaração de guerra. Lembremos que Vladimir Putin, por seu lado, utilizou o mesmo estratagema ao declarar que a invasão da Ucrânia era apenas uma operação especial.

Com os resultados da agressão militar realizada em 3 de janeiro de 2026 contra a Venezuela, Trump parece convencido de que, a partir de agora, poderá dispensar o envio maciço de tropas para o terreno, ao contrário de seus antecessores, seja no Vietnã, no Iraque ou no Afeganistão, para citar apenas três exemplos. Ele está convencido de que poderá conduzir operações brutais e muito destrutivas de curta duração, o que lhe permitirá evitar uma votação no Congresso. O futuro dirá se ele está errado.

 Qual é a posição de Trump sobre a Groenlândia?

Depois de afirmar que queria tomar a Groenlândia, inclusive por meios militares, e de provocar pela primeira vez uma reação relativamente forte dos governos europeus e da Comissão Europeia, Trump moderou suas pretensões e declarou em Davos, em 21 de janeiro de 2026, que queria que os Estados Unidos pudessem comprar todo esse território.

Os dois documentos analisados não contêm desenvolvimentos específicos sobre a estratégia de Trump em relação a essa colônia europeia no hemisfério ocidental, mas é claro que eles abrem caminho para decisões unilaterais de Trump em nome da segurança nacional e da estratégia de defesa.

 O que fazer em relação ao bloqueio a Cuba decretado por Trump?

É preciso exercer pressão sobre os governos por meio de mobilizações para que enviem petróleo e outros produtos a Cuba. É importante participar ativamente de mobilizações no maior número possível de países.

Os três principais países que estão em melhor posição para enviar petróleo e outros produtos (ao mesmo tempo em que enfrentam com sucesso possíveis represálias de Trump) e onde as mobilizações podem ocorrer livremente são o México, o Brasil e a Espanha.

Também é fundamental que se desenvolva nos Estados Unidos um poderoso movimento de rejeição ao bloqueio e à política imperialista de Trump. Ações massivas de solidariedade com o povo cubano são de grande urgência, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo.

 Um encontro marcado na resistência ao avanço do neofascismo e das agressões imperialistas de qualquer origem:

A conferência internacional antifascista e anti-imperialista em Porto Alegre do 26 ao 29 de março 2026 sera um marco importante na resistência ás agressões sofridos pelos povos do planeta.

Para mais informações: https://antifas2026.org/.

É importante assinar a chamada internacional para reforçar a ação antifascista e anti-imperialista. Para assinar, segue o link

 Síntese-conclusão

A análise da NSS 2025 e da NDS 2026 revela que a política da administração Trump em relação ao hemisfério ocidental não se limita a uma postura dissuasiva: ela institui um quadro doutrinário de intervenção permanente. Ao reivindicar o direito de impedir qualquer presença estratégica extra e reservando-se explicitamente a opção de «ações direcionadas e decisivas» contra governos vizinhos, Washington transforma as Américas em um espaço de soberania condicional.

O «corolário Trump» à doutrina Monroe marca uma evolução importante por seu caráter explícito e pela centralidade dada ao instrumento militar. Enquanto as administrações anteriores frequentemente privilegiavam mecanismos econômicos, diplomáticos ou clandestinos (desestabilização, treinamento e financiamento de mercenários, assassínios não reivindicados, etc.), a NSS 2025 e a NDS 2026 mostram abertamente a disponibilidade das forças armadas como instrumento normalizado de gestão regional. A operação contra a Venezuela em janeiro de 2026 e as ameaças públicas dirigidas a outros governos (Cuba, Colômbia, México, Brasil, etc.) ilustram essa vontade de intimidação estratégica.

Além do caso latino-americano, essa doutrina se insere em um projeto mais amplo: relocalização industrial nos Estados Unidos, segurança coercitiva dos recursos naturais considerados vitais e polarização ideológica do sistema internacional em torno de uma escolha binária – alinhamento com Washington ou marginalização. O hemisfério ocidental torna-se o laboratório de uma política imperialista assumida, onde a soberania dos Estados é subordinada à sua conformidade com os interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Em definitiva, a radicalização doutrinária observada nos textos de 2025-2026 não decorre de uma situação objetiva de ameaça militar iminente, como atesta o próprio diagnóstico geográfico dos Estados Unidos, mas de uma vontade política de consolidar uma hegemonia contestada. A «paz pela força» invocada pela administração Trump parece, assim, menos um princípio defensivo do que a expressão de um projeto de dominação reafirmado, diante de supostas ameaças.

A evolução da política nos Estados Unidos nas Américas constitui, portanto, um indicador central da mutação em curso, em que a força militar e o recurso prático a ela voltam a ser o argumento principal que complementa outros instrumentos, como sanções, tarifas alfandegárias e outras políticas protecionistas que visam relocalizar a produção industrial material nos Estados Unidos.


Tradução automatizada. Revisão de Rui Viana Pereira.

Notas

[1«We will deny non-Hemispheric competitors the ability to position forces or other threatening capabilities, or to own or control strategically vital assets, in our Hemisphere. This “Trump Corollary” to the Monroe Doctrine is a common-sense and potent restoration of American power and priorities, consistent with American security interests.» (NSS 2025, p. 15)

[2«The choice all countries should face is whether they want to live in an American-led world of sovereign countries and free economies or in a parallel one in which they are influenced by countries on the other side of the world.» (NSS 2025, p. 18)

[3«An enviable geography with abundant natural resources, no competing powers physically dominant in our Hemisphere, borders at no risk of military invasion, and other great powers separated by vast oceans» (NSS 2025, p. 6).

[4O site Le Grand Continent publicou uma tradução em francês do documento em questão: https://legrandcontinent.eu/fr/2026/01/26/strategie-de-defense-nationale-des-etats-unis-le-texte-integral/

[5Note-se que o documento de estratégia de defesa nacional publicado em 23 de janeiro de 2026 aborda a estratégia militar de Trump para todas as partes do mundo.

[6«We will guarantee U.S. military and commercial access to key terrain, especially the Panama Canal, Gulf of America, and Greenland. We will provide President Trump with credible military options to use against narco-terrorists wherever they may be. We will engage in good faith with our neighbors, from Canada to our partners in Central and South America, but we will ensure that they respect and do their part to defend our shared interests. And where they do not, we will stand ready to take focused, decisive action that concretely advances U.S. interests. This is the Trump Corollary to the Monroe Doctrine, and America’s military stands ready to enforce it with speed, power, and precision, as the world saw in Operation ABSOLUTE RESOLVE.» Fonte: NDS2026 , publicado em 23/01/2026, p. 3.

[7«Nicolas Maduro, for instance, thought that he could poison Americans with impunity. Operation ABSOLUTE RESOLVE taught him otherwise—and all narco-terrorists should take note.» Fonte: NDS2026 , publicado em 23/01/2026, p. 9.

[10«As the NSS lays out, the United States will no longer cede access to or influence over key terrain in the Western Hemisphere. DoW will therefore provide the President with credible options to guarantee U.S. military and commercial access to key terrain from the Arctic to South America, especially Greenland, the Gulf of America, and the Panama Canal. We will ensure that the Monroe Doctrine is upheld in our time.» Fonte: NDS2026, publicado em 23/01/2026, p. 16.

[11«DoW will ensure that the Joint Force always has the ability to conduct devastating strikes and operations against targets anywhere in the world, including directly from the U.S. Homeland, thereby providing the President with second-to-none operational flexibility and agility». Fonte: NDS2026 , publicado em 23/01/2026, p. 18.

[12«We will restore the warrior ethos. We will refocus the American military on its core, irreplaceable goal of winning the nation’s wars decisively». Fonte: NDS2026, p. 24.

[14«President Trump in his first term and since reentering office in January 2025 has rebuilt the American military to be the world’s absolute best—its most formidable fighting force». Fonte: Introdução NDS2026 p. 2.

[15«Under his leadership, the US has the world strongest, most lethal and most capable military, indeed the most powerful military that this world has ever seen». Fonte: Carta introdutória à NDS2026.

[16«Only the Department of War can provide that power to ensure that the nation’s interests are defended, and we will unapologetically do so. We will be our nation’s sword and its shield, always ready to be wielded decisively at the President’s direction, in service of his vision for lasting peace through strength. This National Defense Strategy (NDS) shows how». Fonte: NDS2026, publicado em 23/01/2026, p. 6.

Eric Toussaint

docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.

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