Clique no ícone verde à direita
No Sul global como no Norte, as desigualdades são escancaradas, e se a responsabilidade dos Estados e das grandes empresas do Norte na exploração do Sul é muito real, a simples oposição Norte-Sul é demasiado simplista. Nos países do Sul Global, as «elites» econômicas e políticas lucram com a exploração de seus compatriotas e claramente tem interesses diferentes. É por isso que as exigências que aqui apresentamos dizem respeito tanto à tributação dos mais ricos e das grandes empresas do planeta como à anulação das dívidas dos países do Sul.
Para financiar rapidamente uma virada ecológica e climática justa e reduzir as desigualdades por meio do investimento em educação, saúde e benefícios sociais, é necessária uma tributação radical dos mais ricos e das grandes empresas. Tal tributação permitiria, por um lado, financiar essas despesas e, por outro, reduzir os danos causados pelas classes dominantes que são, como vimos no início deste capítulo, as principais poluidoras do planeta. Regular o estilo de vida dos mais ricos (jatos particulares, número de viagens aéreas) [1] e tributá-los o máximo possível para limitar seu poder de causar danos, mantendo o controle dos movimentos de capitais para evitar que eles fujam quando essas medidas são tomadas, são soluções realistas. Em um contexto de emergência ecológica, aumentar os impostos sobre os mais ricos seria uma medida política perfeitamente justificada que certamente encontraria o apoio da maioria da população. Em 1941, para financiar o esforço de guerra, Franklin Roosevelt aumentou a alíquota marginal do imposto de renda para os mais ricos para 91% [2].
Os vários gráficos abaixo reproduizdos e oriundos do Relatório Mundial sobre Desigualdade 2022 mostram que, na maioria das regiões estudadas, os esforços para atingir as metas do Acordo de Paris para 2030 devem ser amplamente baseados nos 10% mais ricos. No entanto, deve-se lembrar que cada país herdou metas diferentes dependendo de seu nível de emissões na época da COP 21 em Paris em 2015.
Gráfico 1. Emissões por capita por grupo de renda nos USA em 2019, estimativas
Interpretação: As pegadas de carbono individuais incluem as emissões de todos os gases com efeito de estufa provenientes do consumo interno, do investimento público e privado e das importações e exportações de carbono incorporado em bens e serviços transaccionados com o resto do mundo. As estimativas baseiam-se numa combinação de contas nacionais, dados fiscais e de pesquisas, modelos de input-output e conjuntos de dados sobre energia. As emissões são divididas em partes iguais entre os agregados familiares. O objetivo para 2030 corresponde ao orçamento global de emissões anunciado pelos governos para 2030, dividido pela população total do país em 2030.
Gráfico 2. Redução necessária para se enquadrar nos objetivos do Acordo de Paris nos USA até 2030
Fontes e séries: wir2022.wid.world/methodology e Chancel (2021).
Nos Estados Unidos, os 10% mais ricos devem dividir seu nível médio de emissões de CO2 por ano por 7 até 2030 para estar dentro dos objetivos do Acordo de Paris. Os 40% seguintes devem reduzir pela metade suas emissões médias até 2030 para cumprir os mesmos acordos. Para a metade mais pobre da população dos EUA, trata-se de manter suas emissões médias anuais no mesmo nível. Podemos ver aqui que os esforços devem ser feitos pelos mais ricos e, de forma mais geral, pela metade mais rica da população. Uma tributação radical é uma forma de limitar as emissões dessas categorias da população e, ao mesmo tempo, mobilizar recursos para as despesas públicas necessárias para combater a desregulação climática.
Gráfico 3. Emissões por capita por grupo de renda e redução necessária para se enquadrar nos objetivos do Acordo de Paris na França em 2019, estimativas
Gráfico 4. Redução necessária para se enquadrar nos objetivos do Acordo de Paris na França até 2030
Fontes e séries: wir2022.wid.world/methodology e Chancel (2021).
Na França, as proporções são bastante semelhantes, com metas de emissão de gases de efeito estufa mais baixas (5 toneladas de CO2 em média por pessoa por ano, em comparação com 10 toneladas para os Estados Unidos).
Gráfico 5. Emissões por capita por grupo de renda na Índia em 2019, estimativas
Gráfico 6. Redução necessária para se enquadrar nos objetivos do Acordo de Paris na Índia até 2030
Fontes e séries: wir2022.wid.world/methodology e Chancel (2021).
Se olharmos para o caso indiano, a situação é diferente. A realização dos objetivos dos acordos de Paris cabe inteiramente aos 10% mais ricos do país. Os 90% restantes ainda têm «margem» para permanecer dentro da meta do Acordo de Paris para 2030. Para a Índia, focar nos 10% mais ricos e as maiores corporações por meio de alta tributação é uma solução para enfrentar efetivamente o desafio urgente da desregulação climática.
Gráfico 7. Emissões por capita por grupo de renda na China em 2019, estimativas
Gráfico 8. Redução necessária para se enquadrar nos objetivos do Acordo de Paris na China até 2030
Fontes e séries: wir2022.wid.world/methodology e Chancel (2021).
O exemplo chinês é bastante semelhante ao da Índia, mesmo que a China tenha negociado metas menos ambiciosas na COP 21 do que a Índia (10 toneladas de CO2 por pessoa por ano, em média, em comparação com 3,7 para a Índia). Para atingir essas metas, os 10% mais ricos dos chineses devem dividir suas emissões médias por ano por 3,5. Os 90% restantes da população estão com folga «dentro do prazo» em relação aos objetivos estabelecidos.
Estes poucos gráficos – ainda que seja necessário lembrar a limitação da comparação por país porque nem todos os países acima mencionados têm os mesmos objetivos em termos de emissões individuais médias de CO2 – deixam bem claro que são os mais ricos os responsáveis pela desregulação climática e que eles devem assumir as consequências.
Eles não vão o farão por iniciativa própria. Eles devem ser constrangidos. A tributação é uma ferramenta eficaz, como foi comprovado na história com níveis marginais muito altos de imposto de renda em vários países ocidentais antes e depois da Segunda Guerra Mundial. A renda e o patrimônio, incluindo o patrimônio financeiro dos mais ricos, que se tornou cada vez mais importante desde a década de 1980, devem ser radicalmente tributados. Ao mesmo tempo, a livre circulação de capitais deve ser impedida para que os ricos não possam fugir dessas medidas de justiça social e climática. Uma solução possível é regular estritamente as transações financeiras. Por exemplo, proibir todas as transações financeiras internacionais com paraísos fiscais. A estas medidas de justiça social a nível nacional, devemos acrescentar uma medida histórica de justiça do Norte ao Sul: a anulação das dívidas dos países do Sul e a implementação de reparações.
Como vimos acima, os países do Sul são muito pouco responsáveis da desregulação climática e sofrem as principais consequências. Diante dessa constatação, é intolerável que os países do Sul global subsidiem os Estados, as instituições multilaterais e os credores privados do Norte (estes últimos possuem cerca de 62% da dívida externa pública dos países classificados como em desenvolvimento pelo Banco Mundial) multiplicando as dívidas contraídas com eles e o pagamento dos juros que a acompanham. Em abril de 2023, 93% dos países mais vulneráveis à crise climática estavam em situação de sobreendividamento ou em risco significativo de sobre-endividamento [3].
Com a crise da Covid-19 interrompendo as cadeias de suprimentos, o aumento dos preços dos grãos causado primeiro pela agressão da Rússia contra a Ucrânia, e em seguido acentuado pela especulação e, acima de tudo, o aumento das taxas de juros decidido pelo Federal Reserve dos EUA e pelo Banco Central Europeu, os países do Sul estão vendo seus níveis de endividamento explodirem. Com dificuldades de pagamento, cortaram as suas despesas públicas [4], nomeadamente na saúde e na educação, voltaram a recorrer ao FMI e sofreram com as condicionalidades desta organização – um aumento do IVA, uma redução dos orçamentos públicos, um aumento das culturas de exportação para recolher as divisas necessárias para pagar a dívida... Desde o início da pandemia, o FMI assinou acordos com quase 100 países [5].
Diante dessas injustiças, a primeira coisa a fazer é cancelar as dívidas que são de fato ilegítimas em vista da história de colonização e dominação do Norte ao Sul. Ainda mais quando sabemos que a dívida externa pública total dos países do Sul (US$ 3.447 bilhões) representa apenas 10% da dívida pública total dos Estados Unidos (cerca de US$ 34.000 bilhões) ou 5% do fundo de investimento Black Rock (US$ 70.000 bilhões). É inferior ao volume de negócios de um banco como o JP Morgan (US$ 3.600 bilhões em 2022, antes da aquisição do First Republic Bank) e é menos que o dobro do dinheiro desembolsado para salvar os bancos em 2008, ou seja, 2.000 bilhões de euros, somente na Europa! Outra comparação, um baixo imposto sobre a riqueza de 2% sobre milionários em todo o mundo, 3% sobre aqueles com uma fortuna de mais de US$ 50 milhões e 5% sobre bilionários em todo o mundo traria US$ 1,7 trilhão a cada ano [6], ou metade da dívida pública externa total do Sul Global. A dívida pública externa dos chamados países em desenvolvimento é uma gota no oceano das finanças, mas representa um enorme fardo para esses Estados, as suas populações e os seus ecossistemas. Deve ser cancelado para liberar fundos públicos urgentes para serviços de saúde e educação, para o estabelecimento de uma verdadeira soberania alimentar e para o financiamento da virada ecológica.
A anulação da dívida dos países do Sul global é, obviamente, insuficiente. Deve ser acompanhado pela implementação de reparações pelos estados imperialistas e neocoloniais do Norte em relação aos estados do Sul. Deve também ser acompanhada pela expropriação dos sectores bancário e energético. Expropriação e socialização dos bancos sob controle cidadão porque tudo o que é financiado pelos bancos (projetos que garantem o lucro) existe e é maioria na sociedade, ao contrário do que não é financiado, que permanece minoritário ou inexistente, como cooperativas, associações etc. Expropriação do setor energético sob controle cidadão porque é, junto com a agricultura, o pilar do bem-estar das populações e um dos principais fatores da destruição do planeta porque precisa energia para mover navios porta-contêineres, aviões, veículos individuais, operar fábricas, aquecer habitações, etc. Como explica Jawad Moustakbal, «o setor energético deve ser considerado como um serviço público, co-gerido pelos trabalhadores do setor e pelas populações locais que concordaram em compartilhar parte de seus territórios (terra, água, florestas, etc.) para o interesse coletivo. Nesse contexto, as populações locais também devem se beneficiar de tarifas preferenciais, ou mesmo de serviços gratuitos de eletricidade [7].»
As populações do Norte não poderão evitar um processo de decrescimento. De fato, a transição ecológica como é realizada hoje reproduz mecanismos intoleráveis de exploração do trabalho infantil, extrativistas e neocoloniais. Essas medidas também devem ser combinadas com políticas feministas, ecológicas, sociais e populares radicais que, como vimos acima, envolvem os mais ricos.
Bibliografia:
|
Tradução Alain Geffrouais
Os autores agradecem a Jawad Moustakbal, Pablo Laixhay e Christine Pagnoulle por suas revisões.
[1] Michael Peel, Philip Georgiadis, «Emissões de jatos particulares sobem quase 50% em quatro anos», Financial Times, 7 de novembro de 2024, https://www.ft.com/content/13a89ac6-6fa8-4e17-9ef2-698d20b657a7.
[2] Eric Toussaint, Teto da dívida pública US : o repúdio das dívidas pelo presidente Franklin Roosevelt votado ao silêncio", CADTM, 28/05/2023, consultado em 16 de outubro de 2024.
[3] Action Aid Policy Brief, «O ciclo vicioso: conexões entre a crise da dívida e a crise climática», Action Aid, abril de 2023, p.2. https://actionaid.org/sites/default/files/publications/The_vicious_cycle.pdf, consulté le 16 octobre 2024.
[4] Ibid.
[5] Relatório Anual do Fundo Monetário Internacional 2023, página 3, https://cdn.sanity.io/files/un6gmxxl/production/96f729bf7054033df58b50abeea30bfe268df1d5.pdf , acesso em 16 de outubro de 2024.
[6] «Igualdade climática: um planeta para os 99%», Oxfam, novembro de 2023, p.50, https://www.oxfamfrance.org/app/uploads/2023/11/Full-report-english.pdf, consulté le 16 octobre 2024.
[7] Jawad Moustakbal, «O setor energético marroquino, dependência eterna», 7 de dezembro de 2021, CADTM, https://www.cadtm.org/Le-secteur-energetique-marocain-l-eternelle-dependance.
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
CADTM Belgique