Três projetos para o pós-pandemia

25 de Junho por Walden Bello


Neoliberais querem “voltar ao normal”, mas terão enorme dificuldade. Agora, além de crise, há ressentimento e ira. Na Europa, ultradireita veste máscara “social”. Uma jovem esquerda pode vencê-la, mas precisa evitar muitos erros do passado

Em resposta ao cataclismo provocado pelo coronavírus, três linhas de pensamento emergem.

Uma é de que a emergência requer medidas extraordinárias, mas a estrutura básica de produção e consumo é sã, e o problema está apenas em determinar o momento em que as coisas podem voltar ao “normal”.

É possível dizer que esta é a opinião dominante entre as elites empresariais e políticas. Uma expressão deste ponto de vista é a infame teleconferência patrocinada pelo banco Goldman Sachs, com um punhado de aplicadores nas bolsas de valores em meados de março. O evento concluiu que “não há risco sistêmico. Ninguém sequer está falando sobre isso. Os governos estão intervindo nos mercados para estabilizá-los. O setor dos bancos privados está bem capitalizado. A situação parece mais com o 11 de Setembro que com 2008”.

Um segundo olhar sustenta que estamos num “novo normal”, e embora o sistema econômico global não esteja totalmente fora de ordem, importantes mudanças devem ser feitas em alguns de seus elementos. É preciso por exemplo redesenhar os locais de trabalho, para satisfazer a necessidade de distanciamento social; e fortalecer os sistemas de Saúde (algo que até o primeiro ministro conservador britânico, Boris Johnnson reconhece, depois de o Sistema Nacional de Saúde – NHS – ter salvo sua vida).

Uma terceira resposta é que a pandemia oferecer uma oportunidade de transformar um sistema marcado por profundas desigualdades políticas e econômicas e ambientalmente devastador. Não basta falar de acomodação a um “novo normal” ou na expansão das redes de segurança social. É preciso lutar decisivamente por um novo sistema econômico.

No Norte global, a transformações necessárias são frequentemente articuladas na forma da reivindicação de um “Green New Deal” [Virada Sócio-Ambiental]. Significa não apenas “esverdear” a economia, mas promover uma socialização significativa da produção e do investimento; uma democratização da tomada de decisões econômicas; e reduções radicais na desigualdade de renda e riqueza.

No Sul global, as estratégias propostas dialogam com a crise climática, mas sublinham a oportunidade de enfrentar desigualdades econômicas, sociais e políticas há muito estabelecidas. Um exemplo eloquente é o “Manifesto Socialista pelas Filipinas pós-covid”, proposto pela coalizão Laban ng Masa. O documento inclui uma lista detalhada de iniciativas de curto e longo prazo. Sua introdução proclama:

“As respostas caóticas do atores hegemônicos à crise provam que a velha ordem não pode ser restaurada e as classes governantes tornaram-se incapazes de administrar as sociedades à velha maneira. O caos, as incertezas e os temores resultantes da covid-19, ainda que desoladores, estão grávidos de oportunidades e desafios para desenvolver e oferecer ao público uma nova maneira de organizar e gerir a sociedade, nos aspectos social, político e econômico. Como o socialista Albert Einstein gostava de dizer, ‘não podemos resolver nossos problemas com a mesma forma de pensar que nos levou a criá-los’”.


Desta vez é mesmo diferente

As duas primeiras perspectivas desprezam as possibilidades de mudança radical. Alguns preveem que a resposta popular será muito semelhante à da crise financeira de 2008 – ou seja, as sociedades irão sentir-se deslocadas, mas sem apetite para muita mudança, menos ainda mudanças radicais.

Esta visão apoia-se num olhar falso sobre o estado das pessoas, nas duas crises.

As crises nem sempre resultam em mudanças significativas. O fator decisivo está na interação, ou sinergia, entre dois elementos – um objetivo (a própria crise do sistema), outro subjetivo (a resposta psicológica das sociedades).

Em 2008, houve uma profunda crise do capitalismo, mas o elemento subjetivo – o afastamento popular diante do sistema – não havia formado massa crítica. Endividadas, diante do boom criado nos anos anteriores por uma espiral de consumo via crédito, as pessoas chocaram-se, mas não se distanciaram das relações econômicas tradicionais. Desta vez é diferente.

O nível de descontentamento e desconexão diante do neoliberalismo já era muito alto, no Norte global, antes do coronavírus. Devia-se à incapacidade das elites para reverter o declínio dos padrões de vida e a desigualdade galopante na década que sucedeu a crise anterior. Nos EUA, este período fico marcado, no imaginário popular, como aquele em que as elites preferiram salvar os grandes bancos, em vez de proteger milhões de pessoas falidas e de enfrentar o desemprego em larga escala. Em boa parte da Europa, especialmente no Sul, a experiência popular com a última década pode ser resumida em uma palavra: “austeridade”.

E em boa parte do Sul global, a crise crônica de subdesenvolvimento sob o capitalismo periférico, exacerbada pelas “reformas” neoliberais desde os anos 1980, já havia abalado, antes de 2008, a legitimidade de instituições-chave da globalização, como o Banco Mundial, o FMI e a Organização Mundial do Comércio.

A pandemia do coronavírus, em resumo, incidiu sobre um sistema econômico global já desestabilizado e em profunda crise de legitimidade. A sensação de que as coisas haviam saído de controle – certamente do controle das elites políticas tradicionais e dos gestores econômicos – foi a primeira percepção chocante. Esta visão coletiva sobre a espantosa incompetência das elites agora começa a se conectar com as sensações de ira e ressentimento, que eclodiram após o período da crise financeira anterior.

Por isso, o elemento subjetivo, a massa crítica psíquica, está presente. É um furacão à espera de ser capturado pelas forças políticas em disputa. A questão é: quem poderá colhê-lo?

O establishment global tentará, é claro, levar as coisas de volta ao “velho normal”. Mas há muita ira, muito ressentimento e insegurança no ar. E não há como forçar o gênio de volta à garrafa. Ainda que muito abaixo das expectativas, as intervenções fiscais monetárias maciças dos Estados capitalistas, nos últimos meses, mostraram às pessoas o que é possível sob outro sistema, com distintas prioridades e valores

O neoliberalismo está morrendo. Trata-se apenas de saber se sua morte será súbita ou lenta.


Quem poderá cavalgar o tigre?

Apenas a esquerda e a direita são competidoras sérias na corrida para propor um novo sistema.

Os progressistas apresentam-se com um conjunto de ideias e paradigmas instigantes, desenvolvidos nas últimas décadas. Tratam de como caminhar para uma transformação sistêmica real. Vão além do keynesianismo, identificado com economistas como Joseph Stiglitz e Paul Krugman. Entre estas alternativas radicais estão o já mencionado “Green New Deal”, o socialismo democrático, o ecofeminismo, a soberania alimentar, a desglobalização, o decrescimetno e o “Bem Viver”.

O problema é que estas estratégias ainda não foram traduzidas em aplicação real em escala.

A explicação usual é que as pessoas “não estão prontas pra alas”. Mas há, provavelmente, uma hipótese mais precisa. A maioria das pessoas ainda associa tais propostas com a antiga “centro-esquerda”, os partidos social-democratas da Europa, ou o Partido Democrata norte-americano, que se desacreditaram ao aderir ao sistema neoliberal.

No Sul global, a liderança de governos liberal-democráticos, ou a participação neles, também levou os partidos de esquerda ao descrédito, quando estas coalizões adotaram medidas neoliberais classificadas como “ajustes estruturarias”. Mesmo a “onda rosa” na América Latina, foi vítima deste mal. Vistas por certo tempo como uma ruptura com o passado, a Concertación chilena, o PT no Brasil ou o chavismo, na Venezuela parecem agora parte do passado.

O compromisso da centro-esquerda com o neoliberalismo no Norte e a adoção de medida neoliberais pelos governos de esquerda, no Sul, atingiram todo o espectro progressista – mesmo que a crítica ao neoliberalismo e à globalização tenha partido, nos anos 1990 e 2000, da esquerda não estatal, e não mainstream. Este legado precisa ser afastado, se os progressistas desejarem conectar-se com a ira e o ressentimento populares que emergem, para transformá-los numa força positiva e libertadora.


Vantagem para a Ultradireita…

Infelizmente, foi a extrema direita que se posicionou melhor para tirar proveito do descontentamento popular. Mesmo antes da pandemia, seus partidos [em países como a Hungria, a França e mesmo a Inglaterra] estavam pinçando oportunisticamente elementos dos programas da esquerda – por exemplo, a crítica à globalização, a defesa da expansão do estado de bem-estar social e uma maior intervenção do Estado na economia –, dando-lhes uma feição de direita.

Na Europa, partidos da direita radical – como a Frente Nacional de Le Pen na França, o Partido Holandês do Povo, o Partido da Liberdade na Áustria, o Fidesz de Viktor Orban – abandonaram parte dos antigos programas neoliberais, que sustentavam liberalização econômica e menos impostos, e passaram a proclamar-se em favor do Estado de bem-estar social, de maior proteção das economias nacionais. Tudo isso, é claro, exclusivamente para as pessoas da “cor de pele certa”, da “cultura certa” e da “religião certa”.

Essencialmente, é a velha fórmula fórmula “nacional socialista”, de suposta inclusão de classe mas explícita exclusão racial e cultural. Seu exemplo mais claro é Donald Trump. Infelizmente, pode funcionar em tempos turbulentos, como demonstra o fato de os partidos de direita, na Europa e EUA, terem capturado boa parte dos votos da antiga classe trabalhadora

Enquanto isso, no Sul global, líderes carismáticos com apelo multiclassista como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, ou Narendra Modi na Índia, atraíram para seus projetos autoritários o descontentamento popular com regimes liberal-democráticos. Nestes países, os partidos de esquerda ou tinham assumido compromissos com os neoliberais, ou haviam se debilitado devido a tendências sectárias, ou ainda estavam aprisionados em paradigmas classistas que não lhes permitiram compreender as novas realidades do “populismo”. Agora, usando o coronavírus como desculpa, estas personalidades autoritárias aprofundaram seu controle repressivo sobre o sistema político, mas mantêm altos níveis de aprovação popular.


… mas não desprezem a Esquerda

Seria tolo, neste cenário, desprezar a esquerda.

A História caminha por um movimento dialético complexo. Ele inclui situações inesperadas, que abrem oportunidades para aqueles capazes de compreendê-las e aproveitá-las – por pensarem fora da caixa e por estarem dispostos e cavalgar o tigre, em sua rota imprevisível. Há muitos assim, entre a esquerda, em especial na geração mais jovem.

A História, por outro lado, também não perdoa e raramente tolera a repetição dos mesmos erros. Se os progressistas permitirem que social-democratas desacreditados na Europa, ou políticos do tipo de Obama e Biden, nos EUA, afundem a esquerda em novos compromissos com um neoliberalismo agonizante, as consequências serão trágicas.

Nesse caso, a cena assustadora do filme Cabaret, em que pessoas do povo, lideradas por um jovem nazista, cantam “O amanhã pertence a mim” tem uma grande chance de se tornar realidade… outra vez.


Tradução: Antonio Martins



Walden Bello

is senior analyst at the Bangkok-based Focus on the Global South and the International Adjunct Professor of Sociology at the State University of New York at Binghamton.

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