A COP30 e o dilema brasileiro

6 de Novembro de 2025 por Gabriella Lima


Palácio do Planalto, CC, Flickr, https://www.flickr.com/photos/palaciodoplanalto/52984679193

A poucos dias do início da COP 30 no Brasil, publicamos um artigo escrito por Gabriella Lima, do CADTM Suíça, e publicado no dia 12 de outubro de 2025 pelo jornal de Genebra, Le Courrier. Gabriella Lima é doutoranda em história contemporânea na Universidade de Lausanne. Seu artigo analisa a política promovida pelo governo Lula, que infelizmente faz parte do projeto do capitalismo verde, que não traz nenhuma solução real para a crise ecológica atual, pelo contrário. Uma delegação do CADTM participará, no local da COP 30, de atividades realmente alternativas à cúpula oficial do governo.



“Lula quer proteger a Amazônia ou vendê-la para as indústrias de fósseis?” Às vésperas da próxima Conferência Mundial sobre o Clima, que vai acontecer em novembro, o Brasil apresenta uma iniciativa que busca monetizar as florestas, ao mesmo tempo que avança com um megaprojeto controverso de exploração de petróleo na foz do Amazonas. Análise de Gabriella Lima.

A um mês da Conferência do Clima de Belém (COP30), na Amazônia brasileira, o presidente do evento, André Corrêa do Lago, afirma que a “transição justa e equitativa” estará no centro dos debates. Uma transição que coloca a justiça social, o desenvolvimento sustentável e a criação de empregos verdes como prioridades, tudo isso, segundo ele, “sem deixar ninguém para trás”. Promessas essenciais para preservar a credibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do país anfitrião da COP30, a um ano das eleições presidenciais. No entanto, as iniciativas do governo brasileiro revelam as contradições entre um discurso ambientalista forte e políticas que seguem privilegiando os interesses das indústrias fósseis e do mercado financeiro Mercado financeiro Mercado de capitais a longo prazo. Inclui um mercado primário (o das emissões) e um mercado secundário (o da revenda). A par dos mercados regulamentados encontramos mercados fora da bolsa, onde não existe a obrigação de satisfazer regras e condições mínimas. .

 A mão do mercado financeiro sobre as florestas

A grande proposta do Brasil para a COP é o “Tropical Forests Fund Facility” (TFFF), que pretende capitalizar sobre a crise climática transformando as florestas em ativos financeiros que gerariam lucro Lucro Resultado contabilístico líquido resultante da actividade duma sociedade. O lucro líquido representa o lucro após impostos. O lucro redistribuído é a parte do lucro que é distribuída pelos accionistas (dividendos). . Como? Através da criação de um fundo de investimento capaz de gerar um lucro anual de 4 bilhões de dólares. Parte desses rendimentos seria usada para remunerar anualmente os países que preservam suas florestas tropicais, no valor de US$ 4 por hectare. A lógica não é muito diferente da dos bancos: pedir dinheiro emprestado a juros baixos, emprestá-lo novamente a uma taxa mais alta e usar os lucros para remunerar da conservação. Para isso, o TFFF pretende levantar US$ 125 bilhões, sendo 20% provenientes da filantropia e dos governos patrocinadores e 80% captados nos mercados privados – incluindo fundos de pensão e seguradoras –, por meio da emissão de instrumentos de dívida, como títulos “verdes” ou “azuis”. Ou seja, estamos falando de empréstimos, e não de doações.

O TFFF responde ao imperativo do capitalismo verde de transformar em mercadoria tudo o que ainda não o é. O fundo pretende então preencher as lacunas de mecanismos como o REDD+, financiando todos os serviços relacionados à conservação das florestas, e não apenas as emissões de carbono evitadas. Em teoria, 4 bilhões de dólares deveriam ser destinados à conservação, mas ainda não há garantia de que o fundo conseguirá levantar os 125 bilhões pretendidos, nem de que os 4 dólares por hectare serão efetivamente pagos aos países associados. Os rendimentos gerados deverão cobrir, por ordem, os juros dos investidores e os custos administrativos, antes de alimentar a conservação.

Na prática, as florestas receberão apenas o que sobrar, e o valor atribuído dependerá do desempenho financeiro do fundo. Caso a taxa de rendimento fiquei abaixo de 7,5% ou a meta de 125 bilhões não seja atingida, os pagamentos para a conservação serão reduzidos proporcionalmente. As perspectivas já são pouco otimistas, já que os próprios os arquitetos do projeto estimam em 60% o risco de não conseguir pagar os valores prometidos. Pior ainda, o projeto não define quem assume a responsabilidade pela dívida caso os investidores não recuperem seus juros. Essa incerteza traz a ameaça de um aumento do endividamento externo dos países tropicais florestais.

 Instrumentalização dos povos indígenas

Como país anfitrião, o governo brasileiro se orgulha de bater um recorde histórico em termos de participação dos povos indígenas na COP. Cerca de 3.000 representantes de comunidades indígenas estarão presentes no evento, e 1.000 deles participarão diretamente das negociações. Esse gesto, embora simbolicamente importante, esconde os poucos ganhos materiais para essas populações. A Global Forest Coalition (GFC), que reúne 144 organizações de povos indígenas, já denuncia as “soluções falsas” promovidas pelo governo Lula. O TFFF promete destinar parte dos lucros do fundo aos povos indígenas e às comunidades locais. No entanto, apenas 20% dos 4 dólares por hectare realmente chegam às comunidades, e os pagamentos ocorrem de forma irregular. Um relatório da GFC ainda alerta que, em alguns Estados, a própria existência dos povos indígenas não é reconhecida dentro das fronteiras nacionais, e que em muitos casos, o reconhecimento dos direitos dessas populações continua sujeito à boa vontade das autoridades. A partir daí surge uma questão legítima: “O que significa ‘as florestas permanecem intactas’? Que as comunidades indígenas poderão usar madeira ou realizar pequenos desmatamentos para garantir sua subsistência?”.

Além disso, fica a dúvida sobre qual seria a margem de manobra dos investidores para definir o modelo de conservação considerado satisfatório para liberar os pagamentos do fundo. Até o momento, essas questões permanecem sem resposta.

 Megaprojeto de exploração petrolífera discutido nos bastidores

O Brasil de Lula poderia, sem dúvida, desempenhar um papel central na transição energética, sendo um dos maiores produtores de petróleo do mundo. A saída das energias fósseis é, aliás, uma reivindicação central das organizações indígenas e ambientalistas. No entanto, a realização da COP na Amazônia evidencia as contradições entre o discurso ambientalista do presidente Lula e a continuidade de políticas baseadas na exploração desenfreada dos recursos naturais, em colaboração estreita com os interesses fósseis e os bancos que os financiam. Nos bastidores da preparação da COP, é um megaprojeto de exploração petrolífera na foz do Amazonas que está em andamento.

Em uma entrevista recente [1], Lula declarou com certo desconforto que pretende explorar o petróleo de maneira “respeitosa ao meio ambiente”. Uma tarefa difícil, considerando que o projeto prevê a produção de nada menos que 14 bilhões de barris de petróleo, principalmente pela gigante semipública Petrobras, a 20º empresa que mais emite CO₂ no mundo. De acordo com o Instituto ClimaInfo, uma exploração petrolífera desse tamanho liberaria 11 bilhões de toneladas de CO₂ na atmosfera, o que representa 5% do orçamento de carbono restante para permanecer abaixo do limite de 1,5 °C.

A Petrobras planeja expandir massivamente sua produção e multiplicar os locais de exploração nos próximos quatro anos. Para justificar essa estratégia, Lula mobiliza uma narrativa de defesa da soberania nacional sobre os recursos energéticos. Mas na prática, o desenvolvimento do setor petrolífero visa, acima de tudo, satisfazer o apetite do capital estrangeiro. Quase 63% do capital da Petrobrás é privado, e dois terços desses investidores são internacionais. A ampliação da produção significa, portanto, mais lucros para investidores estrangeiros, enquanto consolida a dependência da economia brasileira às exportações de petróleo, hoje o principal produto de exportação do país. A maior parte do petróleo extraído pela Petrobras já é encaminhado pro exterior, entre outros para Israel, onde é usado como combustível e sustenta o esforço de guerra. Entre 2023 e 2024, as exportações de petróleo para esse país aumentaram pela metade. Destacar essa evolução ajuda a explicar parte da postura de Lula, que se coloca como um grande defensor do povo palestino no cenário internacional, enquanto se recusa a romper suas relações comerciais com o Estado de Israel.

As contradições entre o discurso soberanista e a complacência de Lula em relação ao capital estrangeiro se manifestam de forma ainda mais escancaradas no atual programa de privatizações, que abriu leilões para bacias petrolíferas terrestres e offshore na Margem Equatorial Amazônica. Em junho passado, 146.000 km2 de direitos de concessão de hidrocarbonetos foram vendidos, principalmente para gigantes como Galp (Portugal), ExxonMobil (EUA), Equinor (Noruega) ou PetroChina (China), que vão poder explorar e vender o petróleo. Entregara produção e a comercialização de combustíveis responsáveis por mais de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa a empresas estrangeiras está longe de ser uma estratégia de soberania energética, e muito menos uma política de redução de emissões.

 Outras alternativas são possíveis para financiar a conservação

As organizações locais criticam com igual vigor tanto o “desenvolvimentismo fóssil” de Lula quanto a apropriação das finanças privadas sobre a conservação das florestas. Como alternativa ao TFFF, a Global Forest Coalition propõe alocar 1% dos orçamentos de defesa nacional dos países associados à conservação das florestas tropicais. Para o Brasil, isso representaria US$ 226 milhões – cerca de um sexto dos US$ 1,3 bilhão que o país poderia receber do TFFF, caso a taxa de desmatamento se mantenha abaixo de 0,5% e o fundo consiga honrar seus compromissos.

Uma alternativa ainda mais ambiciosa, seria suspender o pagamento da dívida, que hoje sufoca as finanças brasileiras. No ano passado, o serviço da dívida teria absorvido cerca de 2 trilhões de reais (363 bilhões de dólares) do orçamento federal. Esse valor representa, por si só, quase três vezes o valor total do TFFF! Em 2024, o pagamento da dívida consumiu 42% do orçamento brasileiro, enquanto apenas 21% foram destinados a aposentadorias, 6% à assistência social, 4% à saúde e apenas 0,3% à gestão ambiental. Suspender o pagamento da dívida é uma forma eficaz de liberar recursos para a conservação sem transformá-la em uma fonte de lucro para o mercado financeiro. É também uma necessidade para garantir a transição ecológica “justa” que André Corrêa do Lago quer tanto implementar.


Notas

[1BBB New Brazil, 15.10.2025, www.bbc.com/portuguese/articles/c0ezpzxqjgqo

Gabriella Lima

Doutoranda em História Contemporânea pela Universidade de Lausanne.

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