A dívida e o crescimento

22 de Abril de 2013 por Francisco Louça


Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff argumentaram que os países mais endividados têm menor crescimento. Ora, o artigo que escreveram está errado. Um artigo crítico demonstra como o crescimento (e a dívida) variam intensamente com o ciclo económico.



Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, ela académica e ele ex-quadro de topo do FMI, publicaram um livro influente sobre a dívida ao longo da história (“This Time is Different”, já foi traduzido em português). Já citei esse livro quanto à sua demonstração de que quase todos os países desenvolvidos já renegociaram e reestruturaram unilateralmente as suas dívidas, quando precisaram de o fazer.

Mas o que agora está sob grande atenção pública nos Estados Unidos é outro argumento: o de que os países mais endividados têm menor crescimento, que resumiram num artigo com grande impacto, «Growth in a Time of Debt». Os republicanos têm citado esse artigo para fundamentarem a sua proposta de proibição de acréscimos da dívida pública.

Ora, o artigo está errado. A sua base de dados foi mal concebida, a folha Excel em que fizeram os seus cálculos foi mal programada, a estatística é defeituosa e as conclusões não são verdadeiras. Michael Ash, o diretor do departamento de economia da Universidade de Amherst em Massachussets, com dois colegas, publicou uma crítica devastadora sobre o trabalho de Reinhart e Rogoff: http://www.peri.umass.edu/236/hash/31e2ff374b6377b2ddec04deaa6388b1/publication/566/

O que esta crítica demonstra é que os países estudados e com mais de 90% de rácio de dívida/PIB PIB
Produto interno bruto
O produto interno bruto é um agregado económico que mede a produção total num determinado território, calculado pela soma dos valores acrescentados. Esta fórmula de medida é notoriamente incompleta; não leva em conta, por exemplo, todas as actividades que não são objecto de trocas mercantis. O PIB contabiliza tanto a produção de bens como a de serviços. Chama-se crescimento económico à variação do PIB entre dois períodos.
não tiveram, entre 1946 e 2009, um crescimento médio de -0.1% (como tinham calculado Reinhart e Rogoff) mas sim de 2.2%. Esse crescimento foi menor do que o dos países sem dívida significativa (que atingiu 4.2%): foi cerca de metade. Mas houve crescimento e, portanto, a dívida alta pode não estar relacionada com o colapso da economia: simplesmente, depende de como é paga, do juro Juro Quantia paga em retribuição de um investimento ou um empréstimo. O juro é calculado em função do montante do capital investido ou emprestado, da duração da operação e de uma taxa acordada. , do financiamento futuro e das decisões económicas e políticas. Para mais, há diversas razões para as diferenças entre as taxas de crescimento e podem ser o inverso do que sugerem Reinhart e Rogoff: o crescimento baixo alimenta a dívida, porque pequena receita fiscal cria défice. Ou a sangria provocada pela perda de recursos públicos para o pagamento da dívida, despesa que pode não ter efeito na economia nacional, acentua as dificuldades e as recessões.

Por outro lado, este artigo crítico demonstra como o crescimento (e a dívida) variam intensamente com o ciclo económico: de 1946 para cá houve um período de grande crescimento e vários períodos de recessão intensa e de desaceleração. E reforça portanto o argumento contra a austeridade, que está a criar a recessão de 2013.


Francisco Louçã Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.

Francisco Louça

economista, membro da direcção e ex-porta-voz do Bloco de Esquerda, partido que dispõe de 19 deputados na Assembleia da República portuguesa (2015). Militante da 4ª Internacional.

-http://www.esquerda.net/opiniao/d%C3%ADvida-e-o-crescimento/27512

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