14 de Fevereiro por Fátima Martín

«File: 1952.343 - Under the Wave off Kanagawa» (Kanagawa oki nami.jpg), by Katsushika Hokusai, CC0 1.0
As empresas associadas à inteligência artificial (IA) contribuem para o aumento da dívida mundial, que se aproxima dos 364 biliões de dólares [pt-br: 364 trilhões], ou seja 310 % do PIB, segundo o relatório do Global Debt Monitor, do Instituto de Finança Internacional (IIF), publicado em dezembro último com o título «Nova Vaga de Acumulação de Dívida à Vista: Desta Vez Será Diferente?» [1]
A dívida das empresas ronda os 100 trilhões de dólares, enquanto a dívida pública ultrapassou esse limiar no início do ano
Mais exactamente, o relatório do último trimestre do ano passado alerta para o avizinhar de uma nova vaga de dívidas das empresas. O ritmo de acumulação de dívida pelas empresas não financeiras acelerou consideravelmente, sob o efeito de condições de financiamento mais ligeiras, tanto ao nível nacional como internacional.
Assim, a dívida das empresas ronda ao 100 biliões [pt-br: 100 trilhões] de dólares, enquanto a dívida pública ultrapassou esse limiar no início do mesmo ano. O aumento foi particularmente pronunciado na China, em França, na Alemanha e nos EUA, onde as obrigações de alto rendimento das empresas (high-yield) [2] atingiram um novo recorde.
Segundo o relatório, o aumento de endividamento das empresas foi particularmente elevado nas empresas ligadas à inteligência artificial, com o rápido crescimento da construção de centrais de dados e da dívida a elas associada. Tendência semelhante se observa nas empresas do sector das energias renováveis, onde o aumento do endividamento se deve principalmente às empresas chinesas, seguidas pelas do Brasil e Coreia. Em contrapartida, apesar do interesse acentuado dos investidores, a capacidade das empresas do sector da defesa para acederem aos mercados de dívida foi limitada. No entanto, num momento em que os governos procuram modernizar a sua arquitectura defensiva e mobilizar financiamentos do sector privado, «será essencial seguir de perto a dinâmica da dívida no conjunto do sector da defesa», afirma o relatório.
O endividamento crescente dos sectores da IA, das tecnologias limpas e da defesa deverá moldar os mercados de crédito nos próximos anos
Não restam dúvidas de que «o endividamento crescente dos sectores da IA, das tecnologias limpas e da defesa deverá moldar os mercados de crédito nos próximos anos. Embora numerosas empresas de IA e de tecnologia tenham tradicionalmente financiado os seus investimentos com fluxos de caixa internos e o acesso das empresas de defesa aos mercados de capitais tenha sido sempre limitado, observamos actualmente uma nítida evolução no sentido da utilização mais activa dos mercados obrigacionistas, o recurso acrescido aos empréstimos bancários (incluindo a titularização Titularização Técnica financeira que permite a um banco transformar em títulos negociáveis activos ilíquidos, ou seja, que não são (ou não são facilmente) negociáveis. Inicialmente esta técnica foi utilizada pelos estabelecimentos de crédito com o fim de refinanciarem uma parte dos seus empréstimos à clientela. Os empréstimos são cedidos a um veículo jurídico que emite em contrapartida títulos (geralmente obrigações) colocados nos mercados financeiros. Com a titularização, os riscos inerentes a esses créditos são transferidos dos bancos para os compradores. ) e uma maior dependência em relação à dívida privada», resume o Global Debt Monitor.
Os mercados de private capital apenas representam uma pequena parte dos cerca de 500 biliões [pt-br: trilhões] de dólares do sistema financeiro mundial
O relatório debruça-se sobre o conceito de crédito privado, do qual afirma «não haver uma definição única e consensual». Apesar da diversidade de conceitos, o mercado de crédito privado entrou em rápido crescimento, passando dos 500 mil milhões [pt-br: 500 bilhões] de dólares em 2004 para 1,8 biliões [pt-br: trilhões] de dólares em 2023, segundo as estimativas de Preqin [3].
A maior parte dos devedores privados está concentrada nos sectores da tecnologia, da finança e dos bens de consumo corrente. Embora esta rápida expansão tenha atraído a atenção crescente dos investidores e dos organismos de regulação, o relatório sublinha que os mercados da dívida privada não representam ainda senão uma pequena parte dos 500 biliões [pt-br: trilhões] de dólares do sistema financeiro mundial.
No futuro, a flexibilização contínua dos principais bancos centrais e a procura reforçada de rendimentos devem impulsionar a dívida privada, que tem estado sob pressão nos últimos anos, com os rendimentos mais elevados dos títulos do Tesouro a desviar o apetite dos investidores para essa classe de activos.
Os dados reflectem uma diminuição da capacidade das famílias para contrair dívida, em um contexto de incerteza política muito forte
No que diz respeito à dívida dos agregados familiares, ela aumentou 4 biliões [br: trilhões] de dólares no decurso dos três primeiros trimestres de 2025, alcançando perto de 64 biliões [br: trilhões] de dólares. A maior parte deste aumento vem da China, dos EUA e da Alemanha. No entanto, a dívida aumentou a um ritmo mais lento do que o PIB
PIB
Produto interno bruto
O produto interno bruto é um agregado económico que mede a produção total num determinado território, calculado pela soma dos valores acrescentados. Esta fórmula de medida é notoriamente incompleta; não leva em conta, por exemplo, todas as actividades que não são objecto de trocas mercantis. O PIB contabiliza tanto a produção de bens como a de serviços. Chama-se crescimento económico à variação do PIB entre dois períodos.
, reduzindo o rácio global da dívida das famílias a 57 % do PIB, o seu nível mais baixo deste 2015. Esta diminuição deve-se principalmente aos mercados maduros, enquanto os rácios dos mercados emergentes permanecem praticamente estáveis entre 40 e 45 % desde 2020.
Embora isto possa apontar para balanços mais sãos, também reflecte a diminuição da capacidade das famílias para contraírem novas dívidas, em um contexto de incerteza política muito forte. Com menos eleições à vista depois do superciclo de 2023-2025, o aligeiramento das condições de financiamento poderia favorecer uma ligeira retoma do endividamento. No entanto, as pressões sobre o custo de vida e os constrangimentos no acesso ao financiamento continuam a ser os principais factores que determinam a confiança dos consumidores e a procura de empréstimos, e os resultados das próximas eleições podem trazer uma camada suplementar de incerteza.
O relatório sublinha que não é claro como financiarão os governos o aumento das despesas militares sem sobrecarregar ainda mais os já apertados orçamentos
O Global Debt Monitor afirma que o aumento da dívida mundial continua concentrado no sector público, na China e nos EUA, onde novamente registou fortes subidas, seguidos da França, Itália e Brasil. Com défices orçamentais sempre elevados e sob o impacto de grandes planos de estímulo orçamental que terão início em 2026 no Japão, nos EUA, na Alemanha e na China, os países soberanos poderão continuar a aumentar a sua dívida e os seus gastos em juros. Por conseguinte, a atenção dos investidores pende cada vez mais para as obrigações do estado e os planos de endividamento público.
O relatório do IIF aponta como «risco assinalável» uma decisão judicial desfavorável referente à aplicação das tarifas alfandegárias decretadas por Trump, que poderia perturbar a política comercial e a previsão de receita, o que obrigaria o Tesouro americano a se endividar ainda mais, para cobrir os custos fiscais associados à lei fiscal denominada One Big Beautiful Bill. [4]
Sublinha ainda que é difícil prever a evolução do recente aumento das despesas com a defesa dos principais países, ou como financiarão os governos essas despesas suplementares sem sobrecarregar ainda mais os já apertados orçamentos. Isto poderia levar a compromissos difíceis entre prioridades, em matéria de defesa e outros domínios. Alguns países europeus poderão ver-se em situação particularmente difícil, com uma margem de manobra limitada para gerar receitas públicas suplementares, dado que já têm rácios de dívida pública, em relação ao PIB, dos mais elevados do mundo.
Larry Fink, presidente-director-geral da BlackRock, nega a existência de uma bolha no domínio da IA. Mas a sua opinião não é neutra. A sociedade de gestão de activos detém acções em cada uma das grandes empresas tecnológicas conhecidas como as «Sete Magníficas»: Apple, Amazon, Meta, Microsoft, Alphabet, Ndivia e Tesla
Foi precisamente sobre a dívida da IA que se pronunciou a directora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, no último Fórum Económico de Davos: «Um crescimento de 3 % não é suficiente, uma dívida de 100 % é demasiado pesada. Não sejamos complacentes», declarou ela. [5]
Segundo a sua análise, o nível elevado da dívida mundial limita a capacidade de reacção face às crises e às transformações estruturais, em particular em um contexto de evolução rápida do emprego e da tecnologia. A este respeito, sublinha ela que a IA terá um impacto directo no mercado de trabalho. Segundo as estimativas do FMI, 60 % dos empregos nas economias avançadas serão afectados por essa tecnologia, seja devido a melhoramentos, transformações ou supressões de postos de trabalho, enquanto a nível mundial o impacto atingirá 40 % dos empregos. Para a senhora Georgieva, este cenário exige políticas activas e respostas fiscais que serão sempre condicionadas pela dívida. [6]
A propósito da IA e da bolha, sobre a qual se alarmam cada vez mais vozes [7], o director executivo da BlackRock, Larry Flink, que exerceu este ano pela primeira vez a função de co-presidente interino em Davos [8], declarou que «crê sinceramente» que tal bolha não existe [9]. Mas a sua opinião não é neutra: a sua sociedade de gestão de activos investiu em uma grande parte das grandes empresas tecnológicas [10]. A BlackRock detém acções em cada uma das grandes empresas seguintes: Apple, Amazon, Meta, Microsoft, Alphabet, Nvidia et Tesla.
Tradução de Rui Viana Pereira
[1] IIF (09/12/2025). Global Debt Monitor: «Global Debt Monitor: A New Wave of Debt Accumulation Ahead – Could This Time Be Different?» https://www.iif.com/Products/Global-Debt-Monitor ou https://static.ecestaticos.com/file/beb/f3c/7d3/bebf3c7d33545dbde46994c6e0214e68.pdf
[2] Obrigações tóxicas ou de alto rendimento: são instrumentos de rendimento fixo que oferecem um rendimento elevado em troca de um risco mais elevado de incumprimento. https://am.pictet.com/pictetparati/guia-de-finanzas/2025/bonos-basura-high-yield-renta-fija-alta-rentabilidad-riesgo
[3] A Preqin, fornecedora de informação financeira sobre activos alternativos pertencente à BlackRock, utiliza o termo «dívida privada» para se referir a fundos e veículos que fornecem financiamento (empréstimos e outros instrumentos de dívida não cotados) a empresas fora dos mercados públicos de rendimento fixo. Este financiamento é assegurado por investidores institucionais e outros através de estratégias como empréstimos diretos, empréstimos mezzanine, dívida em dificuldades, situações especiais ou fundos de fundos. Esta atividade é também conhecida como Intermediação Financeira Não Bancária (IFNB) ou sistema bancário paralelo. Ver: 23916
[4] Martín, F. (03/07/2025). «La deuda pública de EEUU se disparará “a niveles históricos”, según la Oficina Presupuestaria del Congreso». CADTM.
[5] Segovia, C. (23/01/2026). El Mundo. https://www.elmundo.es/economia/2026/01/23/69735160e9cf4ae0668b4590.html
[6] Revista Economía. (23/01/2026). «Davos lanza una advertencia incómoda sobre crecimiento, deuda e inteligencia artificial». https://www.revistaeconomia.com/davos-lanza-una-advertencia-incomoda-sobre-crecimiento-deuda-e-inteligencia-artificial/
[7] Martín, F. (11/11/2025). «La burbuja de la IA se infla con deuda y enciende las alarmas». CADTM. La burbuja de la IA se infla con deuda y enciende las alarmas
[8] EP. (21/01/2026). «Larry Fink abre la puerta a trasladar fuera de Davos los debates del Foro Económico Mundial». El Confidencial. https://www.elconfidencial.com/economia/2026-01-21/larry-fink-blackrock-traslado-davos-debates-foro-economico-mundial_4287976/
[9] MT Newswires. (22/01/2026). «Fink de BlackRock considera que no hay una burbuja en el sector de la IA». https://es.marketscreener.com/noticias/fink-de-blackrock-considera-que-no-hay-una-burbuja-en-el-sector-de-la-ia-ce7e58d3dd81f023
[10] Jiménez, M. e Martín Simón, P. (10/03/2017). «Estos inversores mueven los hilos de las grandes tecnológicas. CincoDías. https://cincodias.elpais.com/cincodias/2017/03/09/empresas/1489087552_480722.html
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