Aminata Traore: ousar outra África

27 de Novembro de 2023 por Gabrielle Lefèvre


Aminata Traore é uma ativista antiglobalização, ex-Ministra da Cultura e do Turismo do Mali, ex-membro do júri do Tribunal Russell sobre a Palestina, ensaísta e ativista dos direitos humanos. Ela é uma mulher de papo-reto e que, há anos, denuncia incansavelmente a injustiça infligida aos países africanos pelo colonialismo e pelo neocolonialismo liberal globalizado.

Na quinta-feira, 19 de outubro de 2023, ela foi recebida pela Wallonie-Bruxelles International, juntamente com Pierre Galand, o primeiro secretário-geral da Oxfam, ex-presidente do CNCD e ex-professor de cooperação para o desenvolvimento na ULB, onde se encontrou com um grande grupo de jovens estudantes de cooperação que ficaram encantados com sua linguagem clara e intransigente.



O Mali, um país pobre?

Temos sido retratados como um país pobre, sem litoral, incapaz de proteger suas fronteiras dos migrantes. Visto de Paris: um país de origem de imigrantes clandestinos, um problema que obceca as classes políticas dos países ocidentais, porque quem vem de lá não é da nossa própria espécie, veja a teoria da «grande substituição»... Antes, com uma carteira de identidade, você podia viajar e encontrar fraternidade e irmandade. Agora, toda viagem é um pesadelo: "O que você vem fazer no nosso país?”, como se a África e seus povos fossem considerados como inferiores. Mas a cooperação para o desenvolvimento está mesmo neste registro. Acreditávamos na independência, mas a Françafrique nos foi imposta, com a moeda CFA e acordos comerciais e militares adaptados aos interesses da França. Desde o início, tem sido uma guerra econômica, uma exploração de nossas matérias-primas, um endividamento forçado. Nós acreditávamos nesses objetivos impostos pelo Ocidente. Na imaginação popular, tínhamos de nos tornar como os outros, os civilizados, os possuidores, e exportávamos nosso algodão e nosso ouro sem decidir por nós mesmos quais produtos exportar ou a que preço. Isso levou a um desenvolvimento desigual, esquecendo-se de setores inteiros da sociedade. Muitos jovens pobres vão para outros lugares. E outras pessoas pobres vêm até nós: todos os anos, organizo o «Migrances» [Migrações], um acolhimento para os africanos subsaarianos expulsos do Marrocos...

A guerra contra os jihadistas?

A França afirmou que o Mali estava sendo atacado e que um califado estava se erguendo; o presidente Macron afirma que o Mali e o Níger deixarão de existir sem ajuda militar. No entanto, ninguém chamou a França e sua artilharia pesada para combater algumas centenas de jihadistas malineses. São jovens, sem emprego e sem ninguém com quem conversar. Alguém lhes oferece 100 euros e eles vão se juntar ao jihad... Portanto, vamos mudar o paradigma do desenvolvimento, criar empregos decentes e melhorar os sistemas de educação e saúde. Isso freará muito mais a emigração e o uso de Kalashnikovs para matar outras pessoas!
Precisamos acabar com a relação entre os dominantes e os dominados, com essa oligarquia internacional e com o capitalismo que foi imposto à África desde a escravidão. A indústria na Europa é baseada na exploração da riqueza colonial. A extrema direita das opiniões e dos partidos políticos reforça a oposição a esse outro que é apresentado como o «invasor».
Conheci a geração dos «homens de pé» que conquistaram a nossa independência, muitos dos quais foram assassinados pelas potências coloniais. Na África, não tem apenas ditadores corruptos. E de onde vem essa corrupção se não da mercantilização do mundo em escala global? Assim, não tem como o eleitorado entender o jogo político ou escolher o modelo de desenvolvimento que lhe convém. São as grandes empresas que decidem as leis, e os representantes eleitos se curvam ou saem do caminho. Em toda parte, a África está presa em uma ilusão de democracia representativa; precisamos administrar de acordo com os interesses dos próprios países. É por isso que as ruas estão gritando «Foda-se a França» e «Viva Putin». Os malineses são carentes e veem os soldados franceses levando uma boa vida. Isso os exaspera. Chega!

Os tuaregues, o urânio e o plástico

Depois que a Líbia foi desestabilizada pela França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, a parte norte de Mali, onde os tuaregues estão localizados, foi considerada pela França como um país de africanos brancos que não queriam ser dominados pelos negros. É também uma área rica em urânio, o que garante a segurança energética da França. Portanto, é fácil ver por que o Níger é uma questão estratégica para a França!
De acordo com Aminata Traore, o desafio estratégico para a África é capitalizar os recursos africanos: o algodão exportado não deve mais voltar para nós na forma de tecidos africanos falsificados feitos na Europa. Os potes artesanais, tão bonitos, estão sendo substituídos por plástico importado. As belas cabaças que crescem por toda parte estão sendo substituídas por louças importadas. O africano alienado pensa em sua modernidade em termos de produtos de outras pessoas. Precisamos criar uma nova imaginação. A diáspora pode mudar isso: amar a África é consumir africano; os africanos precisam ser capazes de viver de seu trabalho.

Feminista, Aminata?

«Não precisa me libertar, eu mesmo cuido disso», diz ela rindo, porque uma dominação expulsa a outra. Não quero que mulheres brancas jovens venham à minha casa e me digam o que é feminismo e o que devo fazer. Esse «feminismo liberal» é promovido pelas grandes instituições que defendem o «gênero» em favor do capitalismo e não de acordo com o contexto cultural. Seu objetivo é transformar o eu interior. Por que os jovens emigram em barcos e correm todo tipo de risco? Eles não querem que suas mães passem fome e fiquem sem remédios.
E vocês, mulheres, não tomem como modelo esses caras sem noção e cansados que levaram o mundo à ruína. Não acreditem nesse sistema que quer que sejamos empreendedoras como os homens. Isto cria uma mentalidade de dependentes e de mulheres de dinheiro, uma imagem de sucesso na globalização. Mas isso é um produto do sistema!


Fonte : entre les lignes
Tradução : Alain Geffrouais

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