23 de Junho de 2024 por Eric Toussaint , Mario Hernandez

Manifestação antifascista em Bruxelas no 16 de junho 2024
O texto a seguir é uma transcrição de uma entrevista com Éric Toussaint feita pelo jornalista e editor Mario Hernandez para o programa de rádio «Metropolis», transmitido em 13 de junho de 2024 na Radio del Pueblo (Rádio do Povo), AM 830, em Buenos Aires.
Mario Hernandez: Esta é uma análise das eleições para o Parlamento Europeu, onde as forças de extrema direita progrediram, especialmente na Holanda, na Áustria e, sobretudo, na França, com a vitória de Marine Le Pen, que levou o presidente Macron a convocar eleições antecipadas.
Éric Toussaint: As eleições foram realizadas de 6 a 9 de junho de 2024 em 27 países da UE, mas com uma participação muito baixa, de menos de 50 % dos eleitores.
Os resultados indicam claramente um deslocamento para a direita que está se tornando cada vez mais pronunciado
A direita que se autodenomina centrista, por exemplo, o partido de Macron e outros como o Partido Liberal Flamengo (Open VLD) na Bélgica, que tinha o cargo de primeiro-ministro, caiu drasticamente. Foram os setores mais conservadores, ainda mais de direita ou de extrema direita e neofascistas que conseguiram aumentar seus votos.
Os Verdes também perderam, com algumas honrosas exceções nos países nórdicos, devido ao seu compromisso com a direita. Por causa de seu apoio, nos parlamentos nacionais e europeus, à direita, à OTAN, ao abandono da luta contra a crise climática e ecológica. Eles perderam apoio por causa da desilusão de sua base eleitoral.
Na esquerda, os socialistas perderam, mas não muito, exceto na Alemanha. A esquerda radical também não perdeu. A esquerda radical, que inclui alguns PCs, o PTB na Bélgica, o Podemos na Espanha, o France Insoumise na França e o Bloco de Esquerda em Portugal, ganhou duas cadeiras.
Os que perderam são os chamados de centro-direita. O primeiro-ministro belga, Alexander de Croo, renunciou na mesma noite em que os resultados foram conhecidos, e Emmanuel Macron dissolveu a Assembleia Nacional e convocou novas eleições.
Mario Hernandez: Quais são as forças de direita que venceram?
Éric Toussaint: Na Bélgica, por exemplo, há duas forças radicais de direita que se fortaleceram na parte flamenga do país. O N-VA, um partido com posições de extrema direita em relação à imigração e um programa econômico e social que apoia os empregadores flamengos, é anti-trabalhador e anti-serviços públicos. O outro, ainda mais extremo, é o Vlaams Belang. Na Itália, o partido de Giorgia Meloni obteve grandes ganhos. Assim como o partido de Marine Le Pen na França e o AFD na Alemanha.
Mario Hernandez: O que isso significa e o que vai acontecer?
Éric Toussaint: Os dois grupos que dominavam o Parlamento Europeu, o PP espanhol e seus parceiros, a CDU-CSU alemã de Angela Merkel e Ursula von der Leyen, em aliança com o grupo de partidos socialistas, que é o segundo maior grupo de eurodeputados, tenderão a buscar alianças com a extrema direita «razoável», de acordo com o Partido Popular Europeu, do tipo de Giorgia Meloni. Uma extrema direita que é pró-OTAN, pró-austeridade orçamentária, pró-privatização e dura com a imigração, que é a política da Comissão Europeia.
Portanto, a extrema direita está começando a ser integrada ao sistema de governança da UE. Esse também é o caso em nível de governo nacional. O principal exemplo é Meloni na Itália, mas ele não é o único.
| Para saber mais sobre a evolução da UE: Tambores de guerra rufam na Europa e Por uma Europa dos povos, contra a UE fortaleza do capitalismo. |
Mario Hernandez: Gostaria que você se debruçasse sobre a análise das eleições francesas. A lista do Rassemblement National de Marine Le Pen venceu e Macron convocou eleições gerais antecipadas.
Em vários países, a esquerda radical, considerada anticapitalista, foi bem-sucedida
Éric Toussaint: Antes de tudo, gostaria de acrescentar algo. Não foram apenas os conservadores de direita e de extrema direita que tiveram sucesso. Em vários países, a esquerda radical, considerada anticapitalista, tem sido bem-sucedida.
Na Bélgica, o PTB, que surgiu do maoestalinismo, mas rompeu com ele há 20 anos, obteve excelentes resultados. Na parte flamenga do país, dobrou seus votos, chegando a 8 %. Na região de língua francesa (Valônia), obteve 12 % e, em Bruxelas, 21 %. Lá, está em pé de igualdade com o Partido Socialista.
Outra lista anticapitalista, a Gauche anticapitaliste, obteve cerca de 2,5 % na Valônia. Foi um pouco excepcional, mas não tanto, porque nos países nórdicos, na Finlândia, Suécia e Dinamarca, não foi a extrema direita que ganhou força, mas a esquerda tradicional, os radicais e os verdes.
E vou terminar com o exemplo da Itália. A Aliança Verde e de Esquerda é uma lista que ninguém imaginava que teria um grande resultado, mas alcançou 6,6 %. Ela foi liderada por Ilaria Salis, uma professora de 39 anos presa na Hungria por supostamente ter espancado e ferido um neofascista húngaro há três anos. Ela foi eleita deputada do Parlamento Europeu, forçando o presidente de extrema direita Victor Orban a libertá-la.
Outro membro do Parlamento Europeu na mesma lista é um prefeito que foi ameaçado de prisão por Salvini por ter acolhido um barco transportando migrantes. Salvini foi primeiro-ministro da Itália em 2019 e proibiu os portos italianos de aceitarem barcos de refugiados. Esse é outro exemplo interessante de como nem tudo é desgraça e tristeza na Europa.
Mario Hernandez: Sua explicação é muito importante porque as informações que recebemos da Argentina eram todas sobre o triunfo da extrema direita. Ainda temos três minutos, então vamos falar sobre a França.
Éric Toussaint: Macron perdeu as eleições, a extrema direita de Marine Le Pen obteve o dobro de votos. Por isso, ele convocou eleições antecipadas para 30 de junho de 2024. Isso causou um choque elétrico na esquerda, que se unificou sob o nome de Nova Frente Popular.
Toda a esquerda - os socialistas, os comunistas, alguns dos verdes, a France Insoumise de Mélenchon e o NPA trotskista de Philippe Poutou - se uniu sob o slogan da NFP.
Um bom resultado em 30/6 e 07/07 não está fora de questão. A extrema direita provavelmente vencerá, mas um sucesso do NFP não está fora de questão. A luta será muito dura até 7 de julho. Os movimentos sociais estão se mobilizando.
| Para saber mais sobre o programa da Nova Frente Popular: Nova Frente Popular: um programa econômico como alternativa ao Macronismo |
Mario Hernandez: Também gostaria de mencionar as mobilizações antifascistas na França e na Bélgica.
Na noite de 9 de junho ou nos dois ou três dias que se seguiram, milhares de jovens se reuniram nas ruas sem autorização previa
Éric Toussaint: Na noite de 9 de junho, ou nos dois ou três dias que se seguiram, milhares de jovens se reuniram nas ruas quase espontaneamente, contra a extrema direita e em solidariedade ao povo palestino, sem pedir autorização previa às autoridades. Esses jovens sabem muito bem que a extrema direita é totalmente a favor do governo neofascista de Netanyahu. É por isso que essas mobilizações são muito positivas e, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, várias universidades foram ocupadas por estudantes que exigiam um boicote a Israel e a quebra de contratos de colaboração financeira ou acadêmica com universidades sionistas israelenses.
Também precisamos investir energia em escala internacional para organizar a conferência mundial antifascista que deveria ocorrer em Porto Alegre, Brasil, em maio de 2024, mas que teve de ser adiada devido à tragédia causada por uma inundação catastrófica. Esperamos que ela possa ser realizada em Porto Alegre em maio de 2025 e que, nesse meio tempo, iniciativas continentais possam ser implementadas, como uma grande reunião continental na Europa.
| Para saber mais sobre os resultados das eleições europeias: Quem semeia políticas de extrema direita... colhe políticas de extrema direita |
Traduction: Alain Geffrouais
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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