3 de Março por Eric Toussaint

Susan George, junho/2007. Créditos da foto: CC BY-SA 4.0, Raimond Spekking
Muita coisa positiva já foi dita em memória de Susan George, falecida a 14 de fevereiro de 2026, aos 91 anos de idade. Por isso vou limitar-me a recordar alguns aspectos da sua acção em relação aos temas e acções nas quais convergimos.
Susan George é uma das autoras que tiveram um papel de monta na divulgação, no Norte Global, da problemática da dívida reclamada aos países do Sul Global. Consagrou a este tema dois livros incisivos que tiveram grande repercussão na Europa, na América do Norte e nos países industrializados em geral; trata-se de A Fate Worse Than Debt (ed. Penguin, 1988) e de The Debt Boomerang (Pluto Press, 1992). Podemos acrescentar Faith and Credit: The World Bank’s Secular Empire (Westview Press, 1994), que aborda de forma crítica a história do Banco Mundial e do FMI.
Antes disso, e a partir dos anos 1970, consagrou a sua produção literária ao esclarecimento do tema da fome, conseguindo alcançar um vasto público do Norte que tentava compreender as causas dos problemas vividos pelos povos do Sul. A sua obra de referência sobre este tema intitula-se How the Other Half Dies: The Real Reasons for World Hunger (Penguin, 1976).
Susan George sempre conjugou o trabalho de investigação e o activismo na perspectiva das mudanças sociais a favor dos oprimidos
Desde que o Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo nasceu em 1990 na Bélgica, ela sempre respondeu positivamente aos convites que lhe endereçámos. Participou em várias grandes conferências organizadas pelo CADTM, ao lado do economista Ernest Mandel, do escritor Gilles Perrault, de Vandana Shiva (Índia), de Rosario Ibarra (México), de Nawal el Saadawi (Egipto), do bispo Jacques Gaillot, de Albert Jacquard, entre muitas outras figuras, todas elas empenhadas no mesmo combate pela anulação das dívidas ilegítimas e odiosas extorquidas aos povos do Sul. Nessas conferências participavam em geral 600 a 1200 pessoas.
Tivemos uma intensa colaboração na segunda metade dos anos 1990 a propósito das actividades alternativas ao Fórum Económico de Davos, em oposição às reuniões anuais do G7, das assembleias anuais do Banco Mundial e do FMI (nomeadamente em Madrid em 1994 por ocasião do quinquagésimo aniversário das instituições de Bretton Woods) e das cimeiras da OMC.
Em 1998-1999, Susan George empenhou-se convictamente no arranque da associação ATTAC e o CADTM também aí participou activamente, ajudando à criação da ATTAC Bélgica. Susan George e o CADTM estiveram presentes em numerosos encontros internacionais que atingiram o seu apogeu entre 2001 e 2006 com a criação do Fórum Social Mundial, reunido pela primeira vez em janeiro de 2001 em Porto Alegre, no Brasil, e no Fórum Social Europeu em 2002, em Florença.
Ao longo das décadas de 2000 e 2010, a colaboração entre o CADTM e Susan George intensificou-se. Aquando da quinta assembleia mundial da rede internacional CADTM, ocorrida em Tunes, ela enviou uma mensagem de caloroso apoio que reproduzimos aqui:
«26/04/2016 às 17:02, Susan George escreveu:Ao longo de muitos anos, o CADTM tem sido uma fonte indispensável para todos quantos querem conhecer a verdade sobre a dívida. Quando, nos anos 1980-1990, eu trabalhei sobre a dívida do Terceiro Mundo, o CADTM acompanhou-me em cada etapa.Hoje em dia, infelizmente, continua a ser uma fonte indispensável. Porquê infelizmente? Porque cada vez mais países caem na armadilha da dívida – todos eles sujeitos às mesmas políticas devastadoras de «ajustamento estrutural», como se dizia, ou de «austeridade», como se diz agora.Esses países são presas do capital internacional, submetidos aos ditames de instituições como o Fundo Monetário Internacional. A Europa tampouco escapa e nos países europeus, nomeadamente a Grécia, a dívida é um instrumento de colonização e opressão exactamente como foi – e em muitos casos continua a ser – para os países do Sul. Por isso cada vez mais pessoas precisam da investigação e da acção do CADTM.Certamente poderíamos encontrar os números em outra parte. Mas a grande virtude do CADTM consiste em apresentá-los sempre no contexto político da mundialização do século XXI e agir através desse conhecimento enciclopédico do assunto para ajudar as vítimas a libertarem-se.No início, o CADTM era essencialmente um «one man show», depois alguns camaradas vieram juntar-se a Éric Toussaint e hoje é uma rede internacional que realiza a sua assembleia mundial em Tunes.Tantos campos explorados! Tanto caminho percorrido! Tenho a certeza de que o vosso trabalho será frutuoso e que vos encontraremos sempre nas lutas que o insaciável neoliberalismo nos impõe. Permitam-me que saúde em especial Éric e Fathi Chamki e que deseje a todos e todas uma feliz Assembleia Mundial e longa vida ao CADTM – pelo menos até à vitória definitiva do combate contra a servidão da dívida.Susan George, presidente honorária da Attac França, presidente do Transnational Institute [TNI].» (Fonte: CADTM )
Como autora, Susan George tinha grandes qualidades: conseguia tornar compreensíveis para o grande público problemáticas como a fome, a dívida, a mercantilização do mundo, a ofensiva neoliberal, etc. Tinha um uma escrita fluida, de fácil acesso, mas sempre bem documentada, sem nunca se tornar «chata». Além disso, na maior parte dos seus livros e conferências tentava mostrar que os cidadãos e as cidadãs agiam para transformar o mundo e que cada qual podia juntar-se à luta pela emancipação. Jean Ziegler fazia o mesmo nos seus livros e nós convergíamos nessa empresa. Não podemos limitar-nos a analisar, a descrever e denunciar as injustiças, temos de apelar à acção para acabar com elas.
Como conferencista, Susan George exprimia-se sempre de forma pausada, sem jamais elevar a voz. Susan George não arengava, ela expunha.
Susan George não era uma revolucionária. Era a favor de mudanças profundas mas preferia a via das reformas moderadas por etapas. Em consonância com essa atitude, participou em março de 2012 na criação do Collectif Roosevelt e em 2013 aderiu ao novo partido político Nouvelle Donne, ao lado de Pierre Larrouturou.
Em 2020, em plena pandemia, co-subscrevemos um apelo internacional a favor de uma taxa covid onde se afirmava que «é urgente colocar na ordem do dia a distribuição da riqueza, ou seja, a ideia de que os rendimentos elevados e as grandes propriedades devem ser tributados no interesse da comunidade».
Nos seus últimos anos de vida, radicalizou-se e apoiou em 2022 a França Insubmissa, o Parlamento da União Popular e a candidatura de Jean-Luc Mélenchon à Presidência da República francesa (veja-se a sua curta comunicação vídeo de 2’44’’).
Algumas recordações pessoais. Comecei por conhecer Susan George através dos seus livros, em particular A Fate Worse Than Debt, publicado em 1988. Esse livro convenceu-me a convidá-la para as grandes conferências realizadas em Bruxelas pelo CADTM. A partir dessa data, mantivemo-nos em contacto estreito e por diversas vezes partilhámos a tribuna em diversos lugares do mundo. Tivemos ocasião de trocar opiniões regularmente ao longo dos anos 1990 até cerca de 2010.
Recordo que a 20 de dezembro de 2001, quando a revolta que estalou na Argentina contra as políticas neoliberais estava ser reprimida num banho de sangue (39 mortos), recebi uma chamada sua. Disse-me ela: «Éric, temos de fazer qualquer coisa juntos urgentemente, porque o povo argentino entrou em revolta contra a dívida, contra o FMI e suas políticas». E, claro está, juntámos esforços em apoio ao povo argentino. Lembro-me também de uma conversa entre nós dois em 2003-2004, quando ela soube que eu tinha decidido apresentar uma tese de doutoramento sobre os impactos políticos da intervenção do Banco Mundial e do FMI no Terceiro Mundo. Ela contou-me os tormentos por que passou quando aceitou o desafio de redigir uma tese de doutoramento. Em 2008 voltámos a encontrar-nos, desta vez no Festival de Cannes, para apresentar um filme documental que tinha sido seleccionado pela Semana da Crítica. No filme «La Fin de la Pauvreté ?» (O Fim da Pobreza?), o cineasta Philippe Diaz recorreu ao testemunho de personagens como Susan George, Amartya Sen, Joseph Stiglitz e eu próprio para realizar uma obra que colocava a pergunta «Com tantas riquezas no mundo, como pode haver tanta pobreza?». Susan George e eu apresentámos o filme em Cannes e participámos em uma manifestação de rua para transmitir a mensagem contida no filme. Nessa ocasião tivemos ensejo de mais uma vez fazermos o ponto da situação internacional e das acções que promovíamos.
Susan George era muito calma, quase reservada, nada de andar às palmadinhas nas costas dos seus conhecidos, mas, em privado, não deixava de se divertir.
Nas conferências geralmente dava mostras do seu bom humor; prestava sempre muita atenção às questões colocadas pelo público e procurava responder demonstrando que é possível tentar mudar as coisas. Fazem falta pessoas como Susan George.
À data de publicação deste artigo:
Tradução de Rui Viana Pereira
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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