18 de Fevereiro por Eric Toussaint

Juan Orlando Hernández, ex-presidente hondurenho condenado a 45 anos de prisão por tráfico maciço de cocaína perdoado por Trump" Fonte: Brookings Institution, CC, Flickr, https://www.flickr.com/photos/96739999@N05/22847602273/
Entre o final de novembro de 2025 e o início de 2026, Donald Trump mais uma vez demonstrou o tamanho de seu cinismo político e judicial. Em 1º de dezembro de 2025, ele perdoou Juan Orlando Hernández, ex-presidente hondurenho condenado a 45 anos de prisão por tráfico maciço de cocaína, ao mesmo tempo em que ordenou ao exército americano que cometesse execuções extrajudiciais contra mais de cem ocupantes de embarcações no mar do Caribe e no Pacífico Oriental, sem julgamento ou prova de culpa. Algumas semanas depois, as forças armadas americanas atacaram a Venezuela, causando cerca de 80 mortos, capturando e sequestrando Nicolás Maduro e sua esposa, de novo sem qualquer prova. Entre a indulgência com um criminoso comprovado, a repressão mortal de supostos traficantes e a criminalização arbitrária de um líder estrangeiro, Trump aplica dois pesos e duas medidas a serviço de seus interesses políticos e geopolíticos.
Em 1º de dezembro de 2025, Donald Trump concedeu um perdão presidencial completo ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (no cargo de 2014 a 2022), que cumpria nos Estados Unidos uma pena de 45 anos de prisão por conspirar para transportar mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e proteger barões da droga em troca de milhões de dólares em subornos num dos maiores casos de tráfico da história recente; a justiça federal americana o julgou e condenou após um julgamento com júri (Fonte: Site do Congresso dos EUA, publicado em 8 de dezembro de 2025, https://www.congress.gov/crs-product/IN12621)
Essa clemência, defendida pela Casa Branca como uma correção de um “excesso de processos”, suscitou uma forte reprovação de muitos eleitos e observadores, que destacaram que um indivíduo reconhecido culpado de conluio extensivo com cartéis se encontra livre sem responder por seus atos (Fonte: U.S. Senate Judiciary Committee, publicado em 2 de dezembro de 2025, https://www.judiciary.senate.gov/press/dem/releases/durbin-condemns-pardon-of-former-president-of-honduras).
Trump quer mostrar aos chefes de Estado estrangeiros que são dóceis em relação a ele que tem o poder de libertá-los, independentemente do crime que tenham cometido
Ao agir dessa forma, Trump quer mostrar aos chefes de Estado estrangeiros, os que são dóceis em relação a ele, que tem o poder de libertá-los, independentemente do crime que tenham cometido.
Trump também queria intervir na política interna de Honduras. O anúncio do perdão por Trump foi feito em 28 de novembro de 2025, dois dias antes das eleições presidenciais, num contexto em que o candidato apoiado por Trump, Nasry “Tito ” Asfura, do Partido Nacional (ligado ao ex-presidente hondurenho), estava competindo com outros dois candidatos (Fonte: https://www.intellinews.com/conservative-asfura-leads-tight-honduras-presidential-race-with-trump-s-backing-414328). Dos outros dois candidatos, um, Salvador Nasralla, era menos dócil em relação a Trump do que Nasry Asfura, e o outro, Rixi Moncada, representava a esquerda herdeira da atual presidente Xiomara Castro, abertamente crítica em relação a Trump. O resultado oficial foi muito apertado. O candidato de Trump foi declarado vencedor com 40,3% contra Nasralla com 39,7%. A candidata de esquerda obteve oficialmente 19,2%. Os dois candidatos “perdedores” denunciaram fraude e não reconhecem os resultados. Rixi Moncada qualificou a proclamação da vitória de Nasry Asfura como uma fraude e uma ingerência estrangeira, acusando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de “assassinar” a democracia hondurenha ao obedecer às instruções do imperialismo — uma referência às pressões americanas e ao apoio de Donald Trump ao candidato vencedor.
Desde agosto de 2025, dezenas de embarcações foram atacadas em águas internacionais no Caribe e no Pacífico Oriental pelo exército americano, em nome da luta contra as drogas. Os ocupantes (no total, mais de 130 entre 2 de setembro de 2025 e meados de fevereiro de 2026) foram mortos sem que nenhuma prova de culpa fosse tornada pública e sem qualquer forma de julgamento. Por ordem de Trump, o exército dos EUA não abordou essas embarcações, mas as destruiu com seus ocupantes. Essas ações são qualificadas como execuções extrajudiciais por organizações como a Human Rights Watch (ver https://www.hrw.org/fr/news/2025/12/16/ etats-unis-les-frappes-contre-des-bateaux-ont-constitue-des-executions publicado em 16 de dezembro de 2025) e por organismos e especialistas da ONU (ler https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/09/us-war-narco-terrorists-violates-right-life -warn-un-experts-after-deadly publicado em 16 de setembro de 2025 e https://reliefweb.int/report/united-states-america/unprovoked-lethal-strikes-united-states-against-vessels-sea-may-amount-international-crimes-un-experts publicado em 4 de novembro de 2025). Elas também são denunciadas por deputados do Congresso dos Estados Unidos. Nenhuma acusação, nenhum debate contraditório, nenhuma decisão judicial: bastou uma decisão de Trump para que seu exército executasse supostos delinquentes sem qualquer forma de julgamento e, assim, cometesse crimes.
Desde agosto de 2025, dezenas de embarcações foram atacadas em águas internacionais no Caribe e no Pacífico Oriental. Bastou uma decisão de Trump para que seu exército executasse supostos delinquentes sem qualquer tipo de julgamento.
Algumas semanas depois, em 3 de janeiro de 2026, as forças americanas realizaram uma operação militar contra a Venezuela, resultando na captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa em uma prisão nos Estados Unidos. Maduro é acusado por Trump de “narcoterrorismo” e tráfico de drogas — sem que nenhuma prova tenha sido apresentada pela administração Trump para sustentar essas acusações.
O que torna essa justaposição de ações criminosas por parte de Trump tão contundente é que ela revela uma lógica política brutal e totalmente arbitrária. Perdoar Hernández equivale a anular uma condenação por tráfico maciço de cocaína, ao mesmo tempo em que justifica uma ação militar de grande envergadura contra a Venezuela e seu presidente Maduro com base na mesma luta contra as drogas.
A verdadeira motivação por trás do ataque à Venezuela não tem nada a ver com drogas, mas sim com o controle geopolítico dos recursos
A verdadeira motivação por trás do ataque contra a Venezuela não tem nada a ver com drogas, mas sim com o controle geopolítico dos recursos — em particular o petróleo venezuelano, um dos maiores do mundo. Essa batalha não é tanto uma luta contra o narcotráfico, mas uma reconfiguração estratégica da ação dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, centrada na energia (e em terras raras, no caso da Groenlândia).
Em suma, o governo Trump mostrou que pode absolver um ex-presidente condenado para proteger interesses políticos, ao mesmo tempo em que procede a execuções extrajudiciais de supostos traficantes de drogas ou criminaliza outro líder sem provas públicas, a serviço de objetivos geopolíticos evidentes. Esta é a aplicação mais flagrante da política cínica de dois pesos e duas medidas praticada pelo ocupante da Casa Branca.
Ressaltemos que Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas de 2016 a 2022, foi entregue em março de 2025 pelas autoridades de Manila ao Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia e que atualmente aguarda seu julgamento em um centro de detenção na Holanda. (Sobre este assunto: leia https://www.blick.ch/fr/monde/la-cpi-refuse-de-liberer-lex-president-philippin-duterte-id21312058.html publicado em 10 de outubro de 2025, leia também o comunicado da Anistia Internacional: https://www.amnesty.fr/actualites/arrestation-ex-president-rodrigo-duterte/, publicado em 13 de março de 2025).
Desde 4 de julho de 2025, os promotores do TPI de Haia acusaram formalmente Rodrigo Duterte de três crimes contra a humanidade por seu envolvimento direto ou indireto em pelo menos 76 execuções extrajudiciais realizadas em nome da luta contra as drogas enquanto ele era presidente. Não há chance de Trump ser julgado pelo TPI por crimes da mesma natureza. Outro exemplo de dois pesos e duas medidas.
Washington quer absolver ou punir de acordo com seus interesses, seja para apoiar um aliado político em uma eleição estrangeira ou para se apoderar de recursos estratégicos
O perdão a Hernández e o sequestro de Maduro não são exceções isoladas, mas o símbolo de uma lógica sistêmica: Washington quer absolver ou punir de acordo com seus interesses, seja para apoiar um aliado político em uma eleição estrangeira ou para se apoderar de recursos estratégicos, como o petróleo venezuelano. Entre execuções extrajudiciais em águas internacionais e total indulgência para com criminosos reconhecidos, a Casa Branca demonstra que o direito e a moral podem ceder perante o cálculo político e os interesses econômicos mais sórdidos. É o cinismo do dois pesos, dois medidas aplicado à escala internacional.
docente na Universidade de Liège, é o porta-voz do CADTM Internacional.
É autor do livro Bancocratie, ADEN, Bruxelles, 2014,Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marseille, 2013; Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010. É coautor com Damien Millet do livro A Crise da Dívida, Auditar, Anular, Alternativa Política, Temas e Debates, Lisboa, 2013; La dette ou la vie, Aden/CADTM, Bruxelles, 2011.
Coordenou o trabalho da Comissão para a Verdade sobre a dívida pública, criada pela presidente do Parlamento grego. Esta comissão funcionou sob a alçada do Parlamento entre Abril e Outubro de 2015.
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